VII
Dez dias volvidos disse D. Maria Assumpção, de manhã, ao neto:
—Vamos hoje passar a noite a casa das Machados. É preciso fazeres-te homem. As mulheres é que vivem encerradas dentro de quatro paredes. Passas a manhã em casa a ler, e apenas saes de tarde um boccadinho! Onde vaes tu?
—Sento-me em Guadelupe e gosto d’aquelle sitio, respondeu Eduardo procurando ler a impressão da resposta no olhar da avó.
—É bonito... mas triste. Precisas de procurar relações e de afastar de ti uns ares improprios da tua edade. Domingo, havemos de tornar ao Bom Jesus. É preciso divertir e passear emquanto é tempo, rapaz, que o mez de outubro está ahi á porta e depois, cursando o lyceu, não tens remedio senão deitar-te aos livros.
—Estou preparado para isso e cuido que hei de saber corresponder á dedicação de meus avós.
—Assim deve ser. Põe o teu chapéo e vae sahir, anda, mysanthropo.
—Agora... estou tão bem em casa...
—O que tu quizeres, teimoso! Já te disse que depois de abertas as aulas hão de ser poucas as distracções.
—E não iremos mais ao Bom Jesus? ousou perguntar Eduardo.
—Iremos; menos vezes. Eu tambem gosto d’aquelle passeio, e sinto que me faz bem. Mas não se cifram no Bom Jesus os sitios bonitos dos arrabaldes. Has de gostar tambem das margens do Cávado.
—Mais que do Bom Jesus?
—Não sei.
—Ah! mais que do Bom Jesus acho que não posso gostar.
D. Maria d’Assumpção foi ter com o marido e disse-lhe:
—Este rapaz é magico, não quer sahir!
—Deixa-o lá, elle se aborrecerá d’estar em casa.
—Não é tanto assim, homem de Deus! É preciso distrahil-o, aconselhal-o com brandura, que é filho de nossa filha. Domingo havemos de tornar ao Bom Jesus.
—Mas que empenho tens tu em andar a passear o rapaz?
—Quero amenizar-lhe esta passagem repentina da vida em que foi creado para outra vida completamente nova. Depois, abrindo-se as aulas, é que eu não quero que elle passeie. Já lhe disse que, em chegando outubro, era preciso estudar como um homem.
—E elle que respondeu?
—Deu mostras de querer desempenhar cabalmente. Mas não comeces tu depois a opprimil-o demasiadamente com as tuas asperezas. Olha que o espirito, cansado do estudo, precisa d’um refrigerio.
—Livremol-o de relações estreitas com estudantes, que são, por via de regra, rapazes que vivem em liberdade pouco digna.
—Eis ahi por que me parecia que um namorito...
—Vocês, as mulheres, ligam-se tamanha importancia, que julgam que o render-vos preito é a suprema salvação de qualquer. O rapazinho se começar a desmandar-se torna pelo mesmo caminho por onde veiu. Tu sabes que eu não sou muito para graças. Este anno ha de acabar os preparatorios e para o anno ha de cursar o Seminario. Isto é se quizer; se não quizer, que volte para a companhia do pae.
—Mas tambem que proposito é esse de assentar com tamanha antecipação o destino do rapaz? Estás dominado do espirito religioso de Braga e achas que ser padre é caminhar proveitosamente pela estrada social em direcção ao Céo! Não sei como te não ordenaste?
—Temos em mim um exemplo da efficacia dos namoritos. Meu pae queria me ordenar, porque era meu amigo. Vi-te, comecei a desorientar me e casei...
—Olha que perdeste muito! Estavas agora arcebispo, pelo menos, se obtivesses absolvição, para os teus burguezes devaneios com a costureira do terceiro andar.
E como D. Maria d’Assumpção caminhasse para a porta da saleta, chamou a o marido com a brandura de quem deseja reconciliar-se:
—Olha cá. Pelo que disse a meu respeito, sabes que não passa tudo de graça. Lá quanto a ordenar-se o rapaz, é coisa assente e proposito firme. Que queres tu que elle seja? Queres que o mande para Coimbra gastar-nos rios de dinheiro para o vermos ao cabo de cinco annos a caçar môscas como o pae?