XXII
—Temos passado as férias,—disse D. Maria d’Assumpção a João Nicolau, sem darmos um unico passeio! Eu acho que já estou trôpega. Nada! É preciso aproveitar estes dois dias. Em se abrindo as aulas, começa a gente a cabecear com somno como se a casa fôsse de ermitões. E agora, que são férias, parece que tambem era prohibido falar em passeios para não distrahir o nosso estudante!...
—Ó mulher! tu não tens lembrado... Eu estou por tudo.
—Pois não vês que este rapaz, de genio triste, não pode supportar semelhante viver de velhos?
—Olha que é preciso educal-o para a vida que ha de levar. A vida do bom sacerdote deve ser a vida do descanso e da meditação... Põe os olhos em Frei Domingos...
—Pois quando elle fôr padre, falaremos. Guiemol-o por bom caminho, mas não o opprimamos. A oppressão dá causa, por via de regra, á reacção.
—Reagir, elle! Não se reage contra as proprias inclinações. Em tempo pareceu-me que era avesso á carreira ecclesiastica. Hoje estou completamente convencido de que sonha com as glorias do pulpito e com o renome conquistado pelas suas homilias futuras. É que o chama para alli o coração, e esta coincidencia de encontrar o animo do Eduardo affeiçoado á minha vontade, só a Deus a posso agradecer. Por isso, para satisfazer aos deveres que me aconselha a consciencia, é que já lhe comprei outro dia os sermões do Padre Antonio Vieira...
—Por mais audaciosas que sejam as aspirações do rapaz, por maior que seja a sua tendencia para a vida ecclesiastica, sempre te direi que a leitura de sermonarios deve ser muito indigesta para um espirito de dezesete annos.
—Sim! hei de talvez dar a ler essa praga de romances, que se introduziu em Portugal ha poucos annos, a um rapaz que eu educo para ser um padre digno dos respeitos da sociedade! Que mau padre não o quero eu. Prefiro vel-o morrer. Frei Domingos é o typo que eu escolho como padrão do bom clerigo.
—Ora essa! Pois tu imaginas que ha muitos Frei Domingos?! Uma alma assim manda-a Deus á terra para allivio dos infelizes.
—Não digo que seja egual, que eu sou o primeiro a reconhecer em Frei Domingos virtudes excepcionaes. Ninguem tem por elle mais respeito e mais dedicação do que eu. Quero porém que o exemplo do nosso vizinho aproveite á sociedade; bem sabes que deve ser de bençãos a sombra d’aquella arvore veneranda.
—Disseste «sociedade» e querias referir-te ao Eduardo. Percebi a tua intenção. Pois se tu dissesses a Frei Domingos: «Tenho aqui encarcerado a sete chaves este rapaz de dezesete annos, só para que não se acalente ao sol do mundo» verias como elle te havia de responder: «Deixe-o entregue ás alegrias castas da sua idade, e não opprima o coração delicado.»
—Ó mulher! pois eu opponho-me? Valha-me Deus! Passeiemos. Já agora encarreiramos para o Bom Jesus. Pois vamos lá; e se queres ir para outro sitio, dize.
—Vamos ao Bom Jesus que é mais commodo e menos dispendioso. Vamos lá depois d’amanhã passar o dia. Visto que está em costume, mando dizer ás Machados.
—Pois manda. Depois não me chames ermitão...
D. Maria d’Assumpção vingára o seu proposito. O que ella queria era alliviar por um momento as sombras espessas que ennoiteciam dia a dia, cada vez mais, a alma do neto. Tanto lhe bastava, e para isso era preciso não dissipar as illusões do marido, o que seria o mesmo que fazer subitamente estalar uma tempestade. João Nicolau, inimigo figadal do romantismo, andava acumulando de velharias mysticas a estante de Eduardo.
A pobre senhora conhecia a inconveniencia, mas nem se oppunha, nem sequer mostrava desagrado. Esperava em Deus. Era para o Céo que ella appellava na impossibilidade de suster a marcha de acontecimentos a que era contraria.
A antipathia de João Nicolau pelo romantismo, aquelle odio explosivo votado ao romance tal qual o architectára Garrett no Arco de Sant’Anna e principalmente na historia da Joanninha das Viagens, póde explicar se ainda pela cega dedicação a José Agostinho de Macedo e á seita litteraria seguida pelo auctor da Viagem extatica.
Tudo o que não fosse a declamação emphatica vasada nos velhos moldes aristotelicos, era somenos para João Nicolau. Bem se lembrava elle de que o seu auctor favorito escrevera: «Depois da praga gazetal o romancismo é a peste litteraria, que mais tem grassado por toda a Europa. Assim que W. Scott, e o Byron em Inglaterra, e em França seus macaquinhos, Lamartine, d’Arlincourt, Victor Hugo e outros de igual jaez publicaram seus monstruosos delirios, logo houve em Portugal quem os imitasse.» Estas palavras, e as mais que se seguem, e não nos permittimos transcrever, acepilhadas de quejandas blasphemias, eram doutrina corrente e moente para o velho absolutista.
D’aqui, e da esperança de vêr o neto prégador da real capella, provinham as frequentes compras de sermonarios e chronicas milagreiras para a estante, dia a dia enriquecida, do filho do bacharel.
No quarto de Eduardo Valladares havia, porem, um livro não recheado de erudição fradesca nem modelado pelos velhos paradigmas litterarios. Esse era o livro querido, o livro sempre lido, sempre veneno e sempre balsamo: era o Eurico, do sr. Alexandre Herculano. João Nicolau, indifferente senão adverso aos applausos que esta obra notavel despertara, suppunha o neto, por via de regra, absorvido em leituras devotas, á hora em que elle aliás estava vendo a sua alma no espelho em que se projectava o perfil do presbytero de Carteia.
Não era Eurico um desgraçado como elle ou elle um desgraçado como Eurico?
Ambos amavam, ambos soffriam, ambos choravam, e ambos podiam perguntar a si mesmos: «Que fôra a vida se n’ella não houvera lagrimas?»[11]
A viuva Machado, convidada de vespera para tomar parte no passeio ao Bom Jesus, respondeu que gostosamente iria se, d’um dia para o outro, se não aggravassem uns leves incómmodos que todavia a não deixavam sahir. D. Maria d’Assumpção ficou muito contrariada, mas não era conveniente transferir o passeio, e foi.
Eduardo Valadares chegou á floresta do Bom Jesus com o coração despedaçado. Era a primeira vez que alli entrava sem Maria Luiza, e a folhagem verde da encosta, quando elle passava, parecia murmurar este nome; d’aqui o olhar para si mesmo e fugir apavorado da solidão dolorosa da sua alma. Mas o que era isto, esta saudade ao mesmo tempo suavisada pelas doces recordações que lhe eram socias, o que era esta triste solidão a par da solidão perpetua a que a sua alma se via condemnada; das infinitas dores curtidas nas longas horas das noites de vigilia, das lagrimas choradas, das esperanças para sempre perdidas, das lacerantes recordações que elle em vão tentaria abafar, e que de si mesmas resurgiriam, umas após outras, no espirito do presbytero?
Insensivelmente foi procurando o trilho da Mãe d’agua; ia-o guiando o coração, sem que elle désse por isso.
Era aquella a mesma alameda, aquella a mesma cupula de verdura, o mesmo cedro em cujo cortix entalhara as iniciaes M. L., o mesmo ar cheio de murmurios, a mesma corrente suspirosa, a mesma sombra e a mesma suavidade. Mas faltava ella, a doce companheira, a visão formosa d’aquella tão doce estancia, e a solidão era triste, pesada, esmagadora.
Um livro, o livro de todos os dias, de todas as horas, fôra mais uma vez aberto no momento em que mais era preciso.
Eduardo Valladares folheava o Eurico, e os seus olhos deletreavam estas palavras:
«Outras noites, em que mais tranquillo podia a sós comigo engolfar-me nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre mim e a lampada mortiça que me allumiava, e o hymno do presbytero de Carteia, que devia talvez escrever-se nos livros sagrados das cathedraes de Hespanha, ficava incompleto, ou terminava por uma blasphemia secreta; porque te via tambem sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu tinha então sêde... sêde de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu ante mim: nas solidões das brenhas, na immensidade das aguas, no silencio do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, no reflexo pallido da lua, e até na hostia do sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim impossivel!»
—Impossivel! repetia Eduardo Valladares. Impossivel!
E no seu hombro pousára a mão d’alguem que elle não vira.
Quem era?