XXVIII
O bacharel Valladares, momentos antes de morrer, estava escrevendo ao filho um carta que deixou incompleta.
Os mais significativos periodos d’essa carta diziam assim:
«Faze por ser humilde, e sujeita-te respeitoso aos conselhos das pessoas que t’os podem dar, nomeadamente á vontade de teu avô, em quem eu vejo, além d’um dedicado amigo, o pae de tua mãe. Não ponhas os olhos n’umas alturas em que o commum da humanidade fita a vista, se queres ser feliz. Se eu te posso servir d’espelho em alguma coisa, é no que toca a desambição e a serenidade d’espirito e de consciencia. Vivo tranquillo para os affectos da minha casa; se tu estivesses n’esta hora ao pé de mim e de tua mãe, julgar-me-hia em plena posse da verdadeira felicidade.
«Quando saio a nossa porta, sinto-me triste. É que entro no mundo, não no mundo em que vivo, mas no mundo em que vivem todos. Os olhares dos que vão passando, não me offendem por desdenhosos, mas incommodam-me porque não são doces e sinceros como os de tua mãe. Realmente não me sinto bem no meio da turbamulta.»
«A idéa da morte, se me entristece, é porque me faz lembrar que tenho de separar-me de tua mãe para sempre...»
N’este relanço levantara se anciado o bacharel para não mais se sentar á sua banca. Morreu como viveu: serenamente. Um momento d’agonia não se lhe afigurou decerto o resvalar para o tumulo, e não teve por isso tempo de sentir estalar os élos que o prendiam á felicidade. Encostou ao seio amigo a cabeça para descansar. Queria talvez adormecer... Cerrou os olhos e não accordou.
Rezaram-se os responsos de sepultura na egreja dos extinctos carmelitas do Porto. Antes de chegar o feretro, appareceu na sacristia um sacerdote que entrou, curvado de velhice, relanceando um olhar saudoso para um e outro lado.
Era Frei Domingos do Amor-Divino.
Durante os officios, foi notorio que o mais edoso dos padres não podia reprimir as lagrimas. Os raros amigos de Sebastião Valladares affirmavam não o ter visto uma unica vez em casa do bacharel. Correu porém voz de ser carmelita, e logo se explicou a razão de suas copiosas lagrimas, lançando-as á conta de saudades do hábito, evocadas pela entrada n’um templo da sua ordem.
Frei Domingos, depois de terminados os responsos, solicitou licença do sacristão para vêr o cadaver. Largo tempo o esteve contemplando com os olhos afogados, em lagrimas.
—Dizem que era um homem honrado, apostrophou o sacristão.
—Oiço dizer que sim, respondeu Frei Domingos. E, vendo-o, acredito que o foi.
—Pois... não eram amigos?
—Nunca lhe falei, nem sequer o vi.
—Deixou-lhe talvez alguma coisa? replicou o sacristão affeito a vêr copiosamente chorar nos enterros as pessoas contempladas com verbas testamentárias.
—Deixou-me... sincera pena de o não haver conhecido, respondeu Frei Domingos agradecendo e retirando-se.
Ás seis horas da manhã, entrava Frei Domingos na diligencia de Braga. Ninguem no Porto soube como se chamava e d’onde era. Os amigos do bacharel noticiaram a João Nicolau e a Eduardo Valladares que, na egreja, um dos sacerdotes, frade carmelita segundo se disse, estivera chorando a ponto da commoção lhe embargar a voz. Outrosim perguntaram se este frade era relação da casa, parente ou amigo. Eduardo Valladares deteve-se um momento a consultar a memoria e respondeu negativamente. João Nicolau, como porém tivesse ouvido falar em frade carmelita, sentiu se impressionado, e sem pensar que fosse elle, lembrou-se n’aquelle momento de Frei Domingos do Amor-Divino.
Quando o velho egresso voltou ao seu cubiculo da rua do Carvalhal, a trémula Gertrudes sahiu a recebel-o mais jubilosa que nunca.
—Ó sr. Frei Domingos, exclamou ella, como me disse que tinha de fazer jornada, sempre estava inquieta. V. s.ᵃ já não está muito para andar pelos caminhos!
—Ó boa mulher! com o auxilio de Deus vae-se bem para toda a parte. Mal sabe a sr.ᵃ Gertrudes d’onde eu venho. Pois oiça lá: fui ao Porto.
—Ao Porto! acudiu admirada a velhinha.
—Ao Porto, sim. E olhe que me não succedeu mal nenhum. Jornadeei em diligencia pela primeira vez na minha vida. E sempre lhe direi que isto de diligencias não foi a peor cousa que o progresso nos trouxe.
—Oura-se muito, pois não oura?
—Não se oura nada, mulher. A gente acostuma-se aos solavancos, e depois vae menos mal. Comparado isto com as jornadas a cavallo, d’outros tempos!
—Acho que ha lá por fora muitas coisas novas. Eu é que não tenho visto nada, nem quero vêr. «Boa romaria faz quem em sua casa vive em paz.»
—Assim é, mulher, mas ha casos que podem mais do que as leis. Tambem me chegou a minha vez d’andar em diligencia.
O medico assistente de Maria Luiza dera-lhe licença de sahir pela primeira vez, justamente no dia em que se enterrava no Porto o bacharel Valladares.
Era um formoso dia dos ultimos de fevereiro.
—Ora vá, disse-lhe o facultativo. Não tardam a desabrochar as flores; v. ex.ᵃ deve apparecer tambem. Tome porém cuidado com o passeio. Não vá longe.
—É que realmente não sei para que lado hei de ir.
—Convem que se não exponha. Vá para o lado de Infias, mas não se demore muito.
Quando o facultativo sahiu, Maria Luiza sentou-se a escrever a Eduardo Valladares as seguintes linhas:
«Tenho licença para sahir hoje pela primeira vez. Emfim! Vou com minha mãe e com Rosinha. Ao meio dia apparece, como quem anda passeando, perto da quinta de Infias. Não faltes.»
Maria Luiza chamou a irmã para fazer chegar o bilhete ao seu destino. Rosinha ficou inquieta. Tinha occultado a morte do bacharel e a sahida de Eduardo para o Porto. Revelar a verdade era alancear o coração de Maria Luiza; continuar a occultal-a seria o mesmo que não explicar a falta de Eduardo no passeio a Infias.
—Está decerto agora nas aulas e talvez o não possa receber...
—Não me disseste outro dia que elle tinha recebido bilhetes teus no Seminario?
—Sim... disse. Mas se estiver nas aulas... Eu vou mandal-o... oxalá que ainda vá a tempo.
Quando sahiram, Rosinha levava o coração opprimido.
—Vaes triste? notou Maria Luiza.
—Não vou; ir calada não é ir triste.
—Tens razão.
Chegaram a Infias.
O coração de Maria Luiza pulsava vertiginosamente—d’esperança; o de Rosinha batia tambem agitado—d’afflicção.
A estrada estava deserta. Decorreram minutos. Ninguem. Maria Luiza relanceou á irmã um olhar de eloquente interrogação. Rosinha simulou não dar tento, e fitou os olhos n’um ponto que ella nem sequer via...
Decorreram mais alguns minutos de completo silencio.
—Não vaes boa? perguntou a viuva Machado a Maria Luiza, inquieta pela vêr extremamente pallida.
—Vou boa, minha mãe. Não é nada...
—Talvez seja longo o passeio. Voltemos, se querem.
—Não, vamos até alli mais adeante, e voltemos depois, respondeu Maria Luiza.
Era a ultima esperança.
Fôram um pouco mais adeante. Não appareceu ninguem. Maria Luiza voltou-se e disse abruptamente:
—Vamos embora; agora é que me não sinto boa.
E depois, segredando á irmã:
—Não veiu!
Então Rosinha achou que devia dizer meia verdade. Contou que Eduardo Valladares tinha ido ao Porto por motivo imprevisto.
Maria Luiza sorriu doloridamente e disse:
—É possivel que fosse ao Porto, mas é impossivel que não estivesse hoje aqui se já me não tivesse esquecido.
E, tão agitada como incredula, repelliu todos os protestos que lhe fazia a irmã de haver dito a verdade quanto á ida ao Porto.
—Fez-te mal sahir! disse a viuva Machado com o coração opprimido por um torturante presentimento.
—Não é nada, minha mãe; socegue. Vêl-a inquieta, é que me incommoda.
Maria Luiza, a mariposa alegre d’outros tempos, alma creada para as flores e para o sol, era, bem o sabeis, uma d’essas creaturas que se deixam ir embaladas no ambiente da felicidade e que um dia, ao encontrarem a chamma que as namora, ou a atravessam impunemente ou crestam n’ella as azas iriadas. São estas frageis creaturas as que mais podem luctar com as tempestades da vida, mas se uma vez succumbem, deixam-se morrer lentamente, abraçadas, permittam-me que diga assim, ao pensamento que lhes envenena o coração.
Maria Luiza julgou-se esquecida pelo homem a quem amava. Esta ingratidão suffocava-a. «Por que não iria elle, perguntava a si mesma na sua afflicção, porque não iria vêr-me, depois de me não ter visto ha tanto tempo? E os meus pensamentos todos eram seus! Se sonhava... via-o no meu sonho. Dizia-me o coração que não morria, porque o amava... E elle não foi!»...
Á noite, queixou-se de extrema inquietação. Chamou-se á pressa o facultativo.
Antes d’elle chegar, Maria Luiza levantou-se de golpe, disse que uma nuvem vermelha lhe tirava a vista, e bolçou sangue.