V
Já seria occasião de estudarmos a maneira do romancista. Todavia, attendendo a que Julio Diniz primeiro se revelou ao publico poeta que romancista, corre-nos obrigação, por amor da chronologia, de primeiro o avaliarmos, consoante nossa opinião, nos seus versos, que nas suas novellas.
A pagina 40 do terceiro volume (1860) da Grinalda apparece pela primeira vez o pseudonymo Julio Diniz rubricando uma poesia que se intitula A J... Quem fosse Julio Diniz não se sabia então; não o sabia o mesmo redactor da Grinalda, Nogueira Lima, que recebera os versos pelo correio.
Gomes Coelho, apesar de o conhecer pessoalmente, porque Nogueira Lima era tambem amigo dos seus mais{21} intimos amigos, os snrs. A. A. Soares de Passos, Custodio José de Passos, Augusto Luso, José Augusto da Silva e outros, não ousara, por excesso da sua peculiar modestia, impôr-se delicadamente como collaborador da Grinalda, procurando o redactor e proprietario, e entregando-lhe os seus versos. Não fizera assim. Enviara-lh'os cautelosamente e, por mais d'uma vez, escutara em silencio Nogueira Lima sobre o merecimento d'uma ou outra composição poetica á medida que pelo correio as ia recebendo com a rubrica Julio Diniz.
A inicial que serve de epigraphe á poesia publicada em 1860 na Grinalda envolve de certo um segredo intimo do poeta, e por conseguinte insondavel. Gomes Coelho morreu celibatario, viveu sempre na solidão amiga dos seus livros e, não obstante, em todos os seus versos, em todos os seus romances, modelava o typo da mulher por um formoso ideal de perfeições quasi divinas.
O que é certo é que na sua alma havia a tristeza temperada dos poetas que, como Lamartine, nascem para cantar e soffrer. As paixões revoltas de Byron e Espronceda não as conhecia elle. Era portanto o poeta da solidão, que vivia do seu ideal, longe do bulicio da sociedade, onde outros iam afinando a lyra pela excitação febril dos sentidos.
É justo que transcrevamos na sua integra os versos de que vimos fallando, não só por este destino mysterioso que elle lhes dava, como por serem os primeiros que sahiram publicados com o seu habitual pseudonymo:
A J...
Acredita que os anjos tambem soffrem
N'esta mansão de dores,
E não olhes o mundo lacrimoso,
Quando o vires despido de fulgores.Mal sabe a rosa, ao vecejar lasciva
Em plena primavera,
Que é passageira a quadra, que apoz ella,
Se despovoa o prado e a morte a espera.{22}O terreno, que pizas n'esta vida,
Occulta um precipicio;
O caminho, onde ao fim vemos a gloria,
Quantas vezes termina no supplicio!Eu já vi, junto a um tumulo isolado,
Um grupo de crianças,
Dando as mãos e travando em chão de morte,
Com risos infantis, alegres danças.Vi-os tambem sorrirem descuidados
Se piedoso viandante
Parava pensativo e, murmurando
Uma humilde oração, passava adiante.Assim tambem sorris, se melancolico
Eu penso no porvir,
Quando uma sombra vem turbar-me a fronte,
Tu, como elles, contemplas-me a sorrir.Mas olha, quer's saber a historia triste
D'esses tres innocentes,
Que, sobre as cinzas frias d'uma campa,
Se entregavam a jogos complacentes?Á noite a mãe, beijando-os, estranhou-lhes
Da face a pallidez,
E um presagio sentiu ao alvor do dia...
Eram frios cadaver's todos tres.É que os ares do tumulo dão morte
Em afago homicida,
N'esse ar infecto em que se extingue a chamma
Tambem arqueja e expira a luz da vida.Teme pois tambem tu, candida virgem,
O ar que aqui respiras,
E não perguntes mais ao viandante,
Que pensamentos d'amargor lhe inspiras.
Transparece d'estes versos,—senão os primeiros, uns dos primeiros de Julio Diniz,—a luz pallida d'uma alma triste. Em todas as composições posteriores, que litterariamente valem muito mais, especialmente as ultimas, prevalecem as cadencias melancolicas, que fazem lembrar o Cahir das folhas de Millevoie e as Azas brancas de Garrett.
No quinto numero do mesmo volume veem novas{23} estrophes suas, que teem estreita relação com as que acima deixamos transcriptas. Intitulam-se Apparencias. Julio Diniz extranha o teimoso sorriso nos labios da pessoa a quem se dirige:
Sempre o riso em teus labios! N'essa fronte
Nem uma sombra apenas!
Nem uma nuvem só, lá no horizonte
A ameaçar-te com futuras penas?!
Presente-se uma alma de poeta em completo antagonismo com outra alma, que ou nasceu fadada para estranhas alegrias ou, menos sincera, sabia concentrar em si mesma o segredo das suas maguas.
Quem sabe! Quantas vezes é mentida
Dos labios a alegria?
Quantas vezes no peito comprimida
Nos devora latente uma agonia!
Ainda na collecção do mesmo anno vem uma terceira poesia de Julio Diniz, cujo assumpto é estranho ao das duas precedentes. Todavia o poeta, sempre delicado, compraz-se em cantar os primeiros estremecimentos d'um coração de mulher, e intitula o seu canto—O despertar da virgem.
No quarto volume (1862) da Grinalda sahiram duas poesias de Julio Diniz. Intitula-se a primeira—A noiva. É ainda o coração da mulher o assumpto,—da mulher que está sentindo alternadamente os jubilos e os sobresaltos do noivado. É, podemos dizel-o, um estudo psychologico escondido n'uma tradição da idade-media. A noiva está prompta, toucada, anciosa...
A noite passára em vela.
E que noiva a dormiria?
E, ao desmaiar das estrellas,
Alvoroçada se erguia
E a alva flôr da larangeira
Ao véo de neve prendia.
Estas alegrias nupciaes não podiam deixar de ser anuveadas pela inspiração melancolica do poeta. Passam-se{24} as horas, e o noivo não chega. Em compensação, vem a noticia de ter sido morto em combate. A noiva succumbe
E a alva flôr da larangeira
Com ella á campa descia.
A segunda poesia denomina-se Thereza, e na ideia tem alguma coisa d'aquella suavidade dolorida dos versos de Soares de Passos. O ninho querido onde o poeta modula os sens carmes é o coração da mulher. Thereza é a historia d'uma creança pallida e triste, d'aquella tristeza scismadora das almas fadadas para o soffrimento, que só tem sorrisos nos labios no dia em que presente a morte...
Era uma criança loira
Quando a vi na sepultura;
Da açucena tinha a alvura,
Teve o seu curto durar................................
Folheando o quinto volume da Grinalda encontramos tres poesias de Julio Diniz. A primeira é uma versão de Henri Heine, que de certo Gomes Coelho escolheu pela delicadeza peculiar das legendas allemãs, que a caracterisa. A segunda,—No altar da patria—é uma formosa composição realmente, em que o coração da mulher lucta entre duas forças igualmente poderosas,—o amor da patria e o amor de mãe.
—«Ó mãe, da-me uma espada.
Ouço da patria a voz»
—«Eil-a! É immaculada.
Era a de teus avós.»—Pura a trarei, voltando...
Se não morrer alli.»
—«Vai», disse a mãe, chorando,
«Eu rezarei por ti.»
E trava-se o combate, e sibila a metralha, mas o{25} soldado não volta. É ainda,—e sempre,—a ideia da morte que inspira o poeta. A terceira poesia, que tem por titulo—A despedida da ama—e é offerecida ao snr. José Joaquim Pinto Coelho, é igualmente inspirada pelo coração feminino em lucta com as praxes sociaes, com o despotismo da superioridade. São lagrimas d'uma mulher que se deixou amar como se fôra mãe uma criança que não era seu filho.
Puz, á volta do teu berço,
Todo o amor, que um seio tem,
E arrancam-te dos meus braços
Porque eu não sou tua mãe?
De anno para anno são sensiveis os progressos do poeta. A fórma desenvolve-se, torna-se flexivel á inspiração, e o colorido vai ganhando em mimo o que jámais á ideia faltou em sentimento.
Os paes da noiva, poesia publicada no sexto volume da Grinalda, valem muito não só pela correcção metrica, que é irreprehensivel, como pelo thema, que é terno, mavioso, commovente. Tudo é festa em derredor da noiva. Só duas pessoas, os paes, teem lagrimas nos olhos. Quando a rapariga parte sob uma chuva de flores, recolhem-se os dous velhos para chorarem em segredo a sua profunda saudade. Está de lucto o lar; a velhice saudosa é peior do que a morte. Seis dias volvidos é tristemente verdadeiro o lucto. Os paes da noiva não poderam com o fardo de tamanhas tristezas. Succumbiram ambos.
Do mesmo volume quizera poder transcrever na sua integra a poesia—A esmola da pobre—que é uma delicadissima composição, em que duas creanças, uma rica e outra pobre, soccorrem uma velha mendiga, a rica dando-lhe esmola, a pobre beijando-lhe a mão...
No primeiro dos folhetins que em 1864 publicara no Jornal do Porto sob o titulo de Impressões do campo veem estes formosos versos que são, a meu vêr, um modelo de naturalidade e singeleza:{26}
O BOM REITOR
Sabem a historia triste
Do bom reitor?
Misero! toda a vida
Levou com dor.Fez quanto bem podia...
Mas... a final
Morre e na pobre campa
Nem um signal.Nem uma cruz ao menos
Se ergue do chão!
Geme-lhe só no tumulo
A viração.Vedes, alem... na relva...
Junto ao rosal
Flores que ha desfolhado
O vendaval?Cobrem-lhe a lousa humilde;
A creação
Paga-lhe assim a divida
De compaixão.Pobres, que amava tanto,
Nunca, ao passar,
Choram, curvando a fronte
Para rezar.Nunca, ao romper do dia,
O lavrador
Pára e lamenta a sorte
Do bom reitor.As criancinhas nuas,
Que estremeceu,
Já nem sequer se lembram
Do nome seu.No salgueiral visinho,
Ao pôr do sol,
Vai-lhe carpir saudades
O rouxinol.{27}Lagrimas... pobre campa!
Ai, não as tem.
Só da manhã o orvalho
Rocial-a vem.Da solitaria lua
A triste luz
Grava-lhe em vagas sombras
Estranha cruz.E elle repousa, dorme...
Vive no céo;
Dorme, esquecido e humilde
Como viveu.Ha n'esta vida amarga
Sortes assim.
Vive-se n'um martyrio,
Morre-se emfim...Sem que memoria fique
Para dizer
Ás gerações que passam
Nosso viver.Quem me escutar, se um dia
Ao prado for,
Ore pelo descanso
Do bom reitor.
Quem sabe se a inspiração d'estes versos, que se nos afiguram escriptos muito antes de serem publicados, foi ainda o germen de que desabrochou, recendente ao perfume das serras e colorido com as tintas mimosas das flores do campo, o romance Pupillas do senhor reitor? Cremos que sim. O grão que o semeador deixa cahir na leiva é na primavera flor, no outomno fructo, e no inverno riqueza.
Assim tambem a ideia, que o espirito recebeu um dia, póde florir ámanhã, fructificar depois, e opulentar para todo o sempre os celleiros onde se apascenta a intelligencia humana. Toda a primavera foi botão, e o mesmo sol, que ao meio-dia deslumbra, primeiro se mostrou dilucúlo...
No Almanach das senhoras para 1871 appareceu uma poesia de Julio Diniz epigraphada—A folha solta do ulmeiro—uma{28} formosa allegoria em que o coração da mulher, sedento de liberdade, é comparado á folha do ulmeiro que, anciosa de desprender-se do tronco, voa um dia, após as borboletas, impellida pelo ar, até que, depositando-se na terra, fica perdida no monturo...
Virgens, gravae na memoria
Este conto verdadeiro;
Que póde ser vossa a historia
Da folha solta do ulmeiro.
Outros versos escreveria Julio Diniz de que não obtivemos noticia; e alguns deixou elle ainda por corrigir, motivo por que não podem e não devem ser publicados.
Além d'estes, outros se encontram disseminados pelos seus romances, como a lenda da Cabreira e a Trigueira, nas Pupillas do senhor reitor; o Tabaco na Familia ingleza; e especialmente aquellas formosas quadras da Flor d'entre o gelo, uma das quaes, em que o poeta apostropha ás andorinhas,
Só eu, que vos sigo com vistas saudosas
Ao vosso desterro, dos mares além,
Já quando ao prado brotarem as rosas,
Talvez não reviva co'as rosas tambem,
parecia encerrar uma prophecia que infelizmente já se converteu em realidade.