VII

Em Gomes Coelho tão identificados andavam o homem e o litterato, que não havia surprehendel-os na menor contradicção. O mesmo é lêr os seus versos, os seus romances sobretudo, e descortinar para logo a limpidez, a tranquillidade, a nobreza d'aquella alma. Os quadros que devemos á sua penna são placidos, azues e luminosos, e estes serenos esplendores que lhes davam animação partiam directamente, sem jámais atravessarem um meio viciado, do foco intimo e puro,—do seu grande e nobilissimo espirito.

Eu folgo muitas vezes de, seguindo o rumo da critica moderna, estudar o eu subjectivo no homem material e nas suas mil relações com a sociedade. É um trabalho duplamente interessante, e tão curioso estudo em{32} ninguem mais dará tão promptos e satisfactorios resultados como em Gomes Coelho.

Julio Cesar Machado, escrevendo ha pouco tempo ainda do popularissimo doutor Thomaz de Carvalho, perguntava singela e intencionalmente:

Conhecem o quarto? Gabinete de estudo, e museu de amador, tanto mais interessante que reflecte por alguma maneira o caracter, habitos, genero de predilecções de quem o constituiu com o gosto e cuidado inseparaveis de sua indole. Ha alli muito da sua individualidade; é tudo d'elle e por elle alli; uma especie de transfiguração de sua pessoa; como que o sobretudo d'aquelle espirito multiplice e fecundo. Ao mesmo tempo, quarto modesto e reservado—como convem para o estudo, não tendo sequer a indiscrição de olhar para as ruas.

Ora eu lembro-me de ter em 1868 visitado Gomes Coelho na casa em que então morava no largo de S. João Novo. Entrei para o seu quarto, modestamente mobilado, e pela elegante singeleza que reinava alli, pela regularidade systematica, e pela graciosa disposição dos seus papeis e dos seus livros recordava-se a gente subitamente dos romances de Julio Diniz.

Devia de ser traiçoeiro aquelle quarto para os que não soubessem que o mesmo homem absorvia as duas individualidades...

Coração d'ouro, affectuoso, impressionavel, caracter honesto, justo, incapaz d'uma ligeira offensa, a si mesmo se daguerreotypa involuntariamente nos seus romances, nos seus personagens admiraveis de candura e pureza, porque em todos elles havia alguma coisa da sua alma. «Eu encarno-me nos meus personagens—dizia elle a alguem da sua familia—antes de os desenhar. Supponho-me elles, faço-os pensar o que a mim me parece que pensaria em tal caso, obrigo-os a dizer o que eu diria por ventura em identidade de circumstancias.»

Outros escriptores terão colorido mais vivo, mais pittoresco até; poucos lograrão vencel-o na observação escrupulosa, na moralidade dos quadros, na doçura dos assumptos, e finalmente no desenvolvimento dramatico da acção, circumstancia importantissima, porque o romance{33} é simultaneamente narração e drama, dialogo e descripção, como observou Pelletan.

Realista, porque elle o era em litteratura, jamais se occupou em reproduzir os quadros negros da sociedade, as paixões revoltas e baixas, as enormidades do crime, os typos ridiculos ou hediondos.

Suppondo mesmo que o não sabiamos, facilmente conheceriamos que o espirito de Gomes Coelho fôra educado na leitura do romance inglez. Os seus personagens, pelo menos em alguns dos seus livros, se não são tão humildes, se não professam officios mechanicos, como os de George Elliot, são typos escolhidos na galeria rustica do campo.

As suas novellas são chronicas d'aldeia, como elle mesmo as denominava. Nos Fidalgos da casa mourisca está completamente photographada a indole do romance moderno que os inglezes adjectivam de sociologico. Qual é o fim d'este romance? Que problema se propõe resolver? O professor Buchner, da faculdade de lettras de Caen, escolheu ha pouco tempo para assumpto d'uma conferencia interessantissima a nova direcção que a litteratura britanica tem dado ao romance depois de Dickens e Thackeray, «os heroes da satyra e do bom humor», como elle mesmo lhes chama. Não bastavam as zombarias humoristicas d'estes dois romancistas, as suas verberações violentas á burguezia e á nobreza para implantarem a nova reforma social. Era preciso mais alguma cousa do que censurar o mal;—era preciso apontal-o, sondal-o, e cauterisal-o. D'esta missão humanitaria e prestimosa se encarregou o romance sociologico, occupando-se primeiro que tudo da educação nacional, como fez Bulwer no Pelham, e passando da familia, onde as creanças lhe merecem sérias attenções, a combater na sociedade os velhos preconceitos, os monopolios escandalosos, as tradições classicas, antigas inimigas da verdadeira liberdade. Tudo isso se presente nos primeiros romances de Julio Diniz, nas Pupillas do senhor reitor, por exemplo, onde a medicina moderna, representada em Daniel, tem de fazer rosto á velha sciencia hyppocratica de João Semana, e tudo isso se manifesta claramente{34} nos Fidalgos da casa mourisca, onde a aristocracia, ciosa dos seus pergaminhos, lucta e porfia com a nobreza do trabalho, onde a civilisação antiga digladia com a sociedade moderna, n'um combate proficuo á humanidade.

Os romances de Julio Diniz resentem-se portanto da sua educação litteraria e, a meu vêr, compartilham das virtudes e dos defeitos do romance sociologico inglez. Reflectidamente accusa o professor Buchner os modernos romancistas da Inglaterra de descurarem um pouco a fórma por attenderem demasiadamente á materia; finalmente de uma exuberancia extrema de pormenores, e até de personagens, exuberancia esta que por mais d'uma vez abafa o centro de gravidade, o verdadeiro heroe do romance.

De resto não ha ahi litteratura mais doce, mais consoladora, mais orvalhada de lagrimas refrigerantes para os que na lucta ficam vencidos, e mais cheia de serenas alegrias para os que, vencedores, recolhem os louros do triumpho.

Na esphera do realismo, visto esta palavra andar hoje em voga, Gomes Coelho está no polo opposto ao dos irmãos Goncourts, Zola, Gaboriau, Feydeau, e muitos outros. Nós, «entendendo realismo do unico modo por que póde admittil-o a consciencia e confessal-o a razão, julguemol-o só observador consciencioso, reproductor discreto» para nos servirmos das palavras de Mendes Leal, e veneremos em Gomes Coelho, no amavel moralista, como lhe chama o mesmo escriptor, essas qualidades que elle possuia em grau eminentissimo.

Não é nosso intento, nem o comportam as exiguas dimensões d'um esboço biographico, fazermos uma critica especial sobre cada livro de Julio Diniz. Propozemo-nos simplesmente estudar-lhe a maneira, fazer sentir a sua individualidade exclusivista, e com isso nos contentamos.

Céo limpido, atmosphera pura, montanhas vagamente esbatidas no horizonte, campinas cobertas de flores e esmaltadas por aguas scintillantes e suspirosas, a amenidade da aldeia n'uma palavra, a natureza rude mas{35} casta,—n'isto se resumia a mise-en-scene dos seus dramas. Os seus personagens não eram os pastores anachronicos de Gessner ou Virgilio, os pegureiros ignorantes das alturas de Barroso. Eram, como já deixamos vêr, os corações formosamente singelos, como as flores d'entre as serras, o reitor, o herbanario, o camponez abastado, o cirurgião, o fidalgo, e as mulheres cujos corações desabrochavam para florir na primavera perpetua do bem. A mulher! oh! essa nobilitava-a elle sempre, modelando-a pelo seu ideal de formosura e bondade, pondo-lhe no coração balsamos para todas as chagas, conforto e ensinamento para todos os obcecados pela paixão infrene. Destacam-se sobre um horizonte azul, como a vela branca na amplidão das aguas dormentes, os seus incomparaveis typos de mulher, ou estudemos a Margarida das Pupillas do senhor reitor, ou a Jenny da Familia ingleza, a Magdalena da Morgadinha dos canaviaes e a Bertha dos Fidalgos da casa mourisca. Sempre a mesma doçura, a mesma bondade intelligente, a mesma elevação, a mesma pureza de ideias e sentimentos!

Notaremos de passagem uma circumstancia muito para significar até onde ia a magnanimidade de Gomes Coelho.

Aproveitando o typo do velho cirurgião, mais experiente do que instruido, com maior peculio de anecdotas do que de conhecimentos scientificos, dando-nos aquelle interessante e completo João Semana das Pupillas do senhor reitor, não foi para fazer d'elle a caricatura do proto-medicato, um personagem grotesco e risivel, senão para nos obrigar a estimarmol-o e a respeitarmos a sciencia antiga apresentada n'um homem de nobilissimo coração. O mesmo não aconteceu a Silva Gaio, escriptor eminente é certo, mas critico incisivo e quasi sempre apaixonado, mormente em assumptos historicos, que fez do João Marques, do Mario, a caricatura cruelmente verdadeira do charlatanismo medico.

Os romances de Julio Diniz foram profusamente apreciados pela imprensa. Além do seu valor real offereciam certa novidade para o publico portuguez,—nacionalisavam{36} o moderno romance britanico, desconhecido em Portugal. Na vanguarda dos admiradores de Gomes Coelho collocou-se espontaneamente o snr. Alexandre Herculano e, após elle, muitos talentos distinctos da nossa terra sahiram a festejar o modesto romancista portuense, para quem a justa gloria que lhe outorgavam era mais um gravame pesado de que um galardão para a consciencia.

Obriga-nos a nossa qualidade de chronista a consignar um senão apontado pela critica mais illustrada, sempre respeitosa e enthusiasta, especialmente pelo snr. J. M. de Andrade Ferreira, na Gazeta litteraria do Porto—era que Julio Diniz falseava a cada passo a linguagem dos seus personagens, recrutados na população dos campos, quando esta linguagem devia ser singela, chan e rude para soar verdadeira e natural aos ouvidos menos exigentes.

Pouco é o que do romancista temos dito, mas n'esta rapida apreciação, assim exigida pela natureza d'um esboço biographico, concentramos as nossas opiniões, que por menos contrahidas, não se alterariam n'um estudo de mais latas dimensões.