A felicidade e a camisa

Houve outr'ora um rei, que possuia vastos dominios, formosos castellos, vastos parques, ricas baixellas e equipagens.

Mas era triste, peior talvez do que triste, melancolico.

Organisava festins, e aborrecia-se no meio d'elles. Nem o ouro, nem a saude, nem a grandesa conseguiam distrail-o.

A rainha confrangia-se de vêr sempre meditando o seu real esposo.

O principe real improvisava ruidosas caçadas para alegrar seu augusto progenitor, mas o rei, a breve trecho, cahia na sua melancolia habitual, sentava-se á sombra de uma arvore, scismava...

Um dia, n'uma kermesse, que as damas da côrte promoveram para divertir seu real amo, appareceu uma cigana, que andava lendo a buena-dicha de barraca em barraca.[{86}]

Era alta, morena como todas as ciganas, e tinha uns olhos tamanhos e tão vivos, que bem podiam lêr o futuro a grande distancia...

Embrulhava-se n'um manto de retalhos, uma capa de pedinte que, á força de remendada, já não tinha côr propria.

Lia, com profunda indifferença, o destino dos outros, seguindo com a vista as linhas que elles tinham gravadas na palma da mão. Annunciava tragedias, desgraças, coisas tenebrosas com a mesma serenidade com que promettia riquezas, venturas, delicias.

O rei soube que tinha apparecido na kermesse aquella cigana, e mandou-a chamar.

—Quero que me digas, ordenou-lhe o rei, se posso ainda ser feliz.

A cigana, sem parecer preoccupar-se com a honra que lhe era dispensada, respondeu laconicamente:

—Sim. Ainda póde ser feliz vossa magestade.

Alegrou-se subitamente o rei e perguntou-lhe:

—O que é preciso fazer para que eu seja inteiramente feliz?

A cigana demorou-se um momento consultando as linhas da real mão, e respondeu:

—Precisa vossa magestade vestir a camisa de um homem feliz.

—Mas onde poderei eu encontrar esse homem feliz?[{87}]

—Isso agora não é comigo, disse a cigana. E voltou costas ao rei indifferentemente.

Logo sua magestade mandou reunir no palacio real os seus validos e conselheiros.

Contando-lhes o caso da cigana, acabou por dizer-lhes:

—Agora é que eu vou conhecer qual de vós me é mais dedicado. Trata-se de procurar um homem feliz, cuja camisa, ainda que custe rios de ouro, eu hei de vestir, ide procural-o, pois. E todo aquelle que o encontrar, receberá recompensas quaes rei algum da terra ainda concedeu.

Fazendo mil protestos de dedicação, logo cada um d'elles se deu pressa em partir. Para onde? Ao acaso, pelo mundo fóra, á procura de um homem feliz...

Tal conselheiro do rei descobriu um proprietario muito rico, que todos os dias via entrar pela porta dentro os seus rendeiros carregados de ouro.

Foi procural-o, na supposição venturosa de que tinha encontrado a pessoa que procurava.

—Sois feliz como pareceis? perguntou-lhe.

—Não sou, ai de mim! É verdade que possuo uma riqueza enorme, mas falta-me a saude, que é cada vez mais precaria. Daria toda a minha riqueza para poder viver sem dôres, para comer com apetite.

Outro conselheiro do rei encontrou um homem[{88}] muito robusto, cuja saude todos na sua terra invejavam.

—É o homem mais forte d'estes sitios! disseram-lhe.

Foi visital-o.

—Uma pergunta vos quero fazer. Dizei-me se, na posse de tão florescente saude, sois completamente feliz...

O homem forte suspirou, e respondeu:

—É verdade que sou muito robusto, mas quizera não o ser tanto, porque não tenho gosto nenhum de viver ainda muitos annos.

—Por que?

—Porque sou pae de doze filhos e não ganho o bastante para lhes dar de comer. Quanto mais trabalho, menos ganho. Ha destinos assim, e o meu, já agora, não tem remedio.

Informaram um dos validos do rei, de que em tal aldeia morava um homem que, vinte annos depois de casado, ainda namorava a mulher.

Assombrou-se com esta revelação o valido, e foi a correr por montes e valles procurar o ditoso casado.

Sem mais preambulos, interrogou-o.

—É certo que sois casado ha vinte annos?

—Ha vinte annos e vinte dias.

—E que tendes vivido n'uma continua lua de mel:

—Certissimo, meu senhor.[{89}]

—Sois pois inteiramente feliz?

—Sel-o-ia se...

—O que?! Pois não vos reputaes um homem feliz?!

—Sel-o-ia, se não fosse minha sogra, que volta e meia se lembra de vir visitar-me.

Já iam decorridos alguns mezes, sem que os conselheiros e validos do rei houvessem voltado ao paço para noticiar a sua magestade o achado de um homem feliz.

Esta demora tinha desanimado cada vez mais o rei, que, de quando em quando, gritava enfurecido:

—Pois não haverá sobre a terra um homem verdadeiramente feliz?!

Certo dia um dos conselheiros do rei ia jornadeando, sempre na faina de procurar um homem feliz, por uma serra muito agreste e solitaria.

Só de longe a longe avistava algumas cabras, que andavam roendo as raizes das urzes.

—Que serra tão triste! disse o fidalgo ao arreeiro.

—Por aqui só se encontra algum pastor; ninguem mais. Lá está um acolá, no alto d'aquelle rochedo, a tocar na sua flauta.

—É verdade! Quero fallar-lhe. Vamos lá.

Era grande a distancia. Mas á medida que se aproximavam iam ouvindo os sons rusticos da avêna e vendo o pastor a bailar, muito contente, sósinho, no topo do rochedo.[{90}]

—Parece impossivel, dizia o fidalgo, que não tenha medo de cair!

Chegaram perto do rochedo, e o fidalgo gritou-lhe:

—Olá, pastor!

O pegureiro interrompeu a musica e o baile. Tirou o chapeu, e ficou-se muito quieto.

—Anda cá, que te quero fazer uma pergunta e dar dinheiro.

O pastor desceu de um salto.

—Julgas-te feliz, meu rapaz?

—Sim, meu senhor, julgo-me feliz.

O conselheiro do rei receiou endoidecer de alegria.

—Pois então, pega lá todo este dinheiro, e vende-me a tua camisa.

—Meu senhor, respondeu o pegureiro, eu não tenho camisa...

Por mais que a gente possa invejar a felicidade dos outros, e desesperar da sua, o que é certo é que, ainda quando os outros lhe parecem felizes, sempre lhes falta alguma coisa: a camisa, por exemplo.[{91}]