A sepultura d'um traidor
Devo começar por dizer quem fosse o sr. D. Ruy, porque eu, posto a contar historias, tenho ainda o mau costume de começar pelo principio.
O que faz com que seja alguma coisa massador... pelo menos.
O sr. D. Ruy era o filho unico da fidalga da Gésteira e do morgado do mesmo nome.
Sobre aquelle menino pesava uma nobreza de sete gerações, e uma riqueza talvez mais pesada ainda do que uma tal arvore genealogica.
Pela sua parte, elle não precisaria ser tão nobre nem tão rico para se fazer estimar e adorar.
Era, realmente, uma creança insinuante, meiga[{138}] e intelligente, quasi nada voluntariosa apezar dos extremos, por vezes ridiculos, com que era tratada.
A mãe parecia viver da vida do filho. Se elle ria, ria ella tambem; ás vezes adoeciam, mãe e filho, da mesma tristeza: chamava-se logo o medico para ambos, porque o morgado, depois de ter vivido no mundo, prescindira da sociedade que tanto o prendera outr'ora, para se limitar a viver para a mulher e para o filho, isto é, para uma só alma partida em dois corpos.
No solar da Gésteira havia ainda uma outra pessoa, que fazia parte integrante da familia: era o padre João, capellão da casa.
Padre João accumulára tambem as funcções de preceptor do sr. D. Ruy durante a primeira infancia do fidalguinho. Ensinara-o a lêr e a rezar. Umas vezes por outras fallava-lhe do sr. D. Miguel de Bragança, que, segundo elle, era o Desejado dos tempos modernos.
Mas o sr. D. Ruy foi crescendo, e chegou um dia em que se pensou no que se devia fazer d'aquelle menino.
O que havia elle de ser no mundo para melhor fazer sobresair a sua riqueza e a sua fidalguia?
A mãe, no egoismo do seu amor, dizia que o melhor era não se pensar mais n'isso, que o sr. D. Ruy já sabia lêr o bastante... para não ser analphabeto.[{139}]
Padre João concordava com a fidalga: que sim, que a sabedoria era boa para os pobres.
O morgado protestava. Elle mesmo era bacharel em direito, e queria que o filho o fosse.
Vivendo amarrado ás tradições de familia, queria que o filho se graduasse em leis, como elle, fazendo o que seu pae fizera, tendo um cavallo para passeiar, como todos os estudantes nobres d'aquelle tempo, exhibindo-se, n'uma palavra, em toda a plenitude das regalias que uzufruiam os morgados em Coimbra.
Padre João concordava tambem com o morgado: que sim, que o saber não ficava mal a ninguem.
A morgada zangava-se, e dizia:
—O padre João está fallando assim por comprazer com meu marido. Já lhe tenho ouvido dizer que a sabedoria é boa para quem não tem outra coisa.
O bom do capellão via-se enleiado, tomava a sua pitada, rufava depois com os dedos sobre os joelhos:
—Sim, quero eu dizer, minha senhora, que nem tanto ao mar nem tanto á terra. Uma envernizadella ao espirito não faz mal a ninguem...
—Uma envernizadella! replicava o morgado. Mais do que isso. Uma carta de bacharel. Póde nascer-se morgado, sem a gente o querer; doutor é que não. O padre João já viu alguem nascer doutor?[{140}]
—Eu, não, sr.
—Pois se não viu, é porque para o ser é preciso estudar e saber alguma coisa. E a honra é tanto maior quanto o individuo, pela sua posição social, menos precisa das cartas de um curso para viver. Hoje os tempos mudaram, e um fidalgo ignorante já ninguem o toma a serio. Eu quero que meu filho vá a Coimbra.
A fidalga punha os olhos no chão, ficava calada e triste.
—Mas isso não é por ora, tornava o morgado; escusas de estar ahi a abalar de tristeza, Christina. Has de habituar-te pouco a pouco a viver sem o teu filho, como minha mãe se habituou. O habito é uma segunda natureza. Primeiro entrará o Ruy n'um collegio. Vamos viver para o Porto,—e olha que faço n'isso algum sacrificio, porque já me custa arrancar-me á vida da provincia. Para que elle tambem se habitue a viver sem nós, mettemol-o n'um collegio, no da Guia, por exemplo, porque tenho boas informações a respeito d'essa casa de educação. Iremos vel-o sempre que queiras. Pelas ferias, sahirá, viremos para a Gésteira, a fim de que elle possa saborear, de tempos a tempos, o bem estar da casa paterna, conservar as tradições de familia, que eu tanto prezo, e tu tambem.
De sahir da Gésteira, de deixar o seu querido Minho, é que padre João não gostava;[{141}] mas, chamado a conselho pelo morgado, não tinha remedio senão concordar.
Finalmente, resolveu-se que o sr. D. Ruy iria para o collegio da Guia estudar preparatorios.
Os fidalgos da Gésteira sahiram para o Porto, e arrendaram casa, uma bella casa de trez andares, na rua de Santa Catharina.
A fidalga queria ficar perto do collegio,—o mais perto possivel.
Marcou-se o dia em que o sr. D. Ruy devia entrar no collegio. O director, o Daniel Navarro, tinha ordem de se não poupar a despezas para amenizar a iniciação do joven collegial. Esse dia, era uma segunda feira. Mas no domingo á noite a fidalga chorou tanto, que o morgado achou prudente deixar passar mais alguns dias.
Por sua parte, o sr. D. Ruy estava um pouco vacillante entre as saudades da mãe e o desejo de entrar no collegio. Um dia o pae levara-o lá. Era á hora em que os alumnos estavam no recreio: todos elles pareciam alegres, riam, vozeavam, corriam pelas ruas da quinta, jogavam as escondidas, baloiçavam-se no trapesio. Aquillo não lhe desagradou; demais a mais o Navarro fizera-lhe muita festa, foi mostrar-lhe as aulas, os dormitorios, a casa de jantar, e disse-lhe:
—Olhe que isto não é mau.[{142}]
E o sr. D. Ruy sorrira, sentira-se forte, imaginava que se havia de dar bem ali, com os outros, brincando como elles.
Mas ao chegar a casa, chorára vendo a mãe, e ella chorára tambem, abraçada n'elle.
—Bem! dissera do lado o pae, tu não desgostaste, pois não é verdade:
O sr. D. Ruy, com os olhos chorosos, meneára affirmativamente a cabeça.
—Então entrarás segunda feira... está dito!
E passára a mão pela face da fidalga, afagando-a.
—É que se o rapaz ainda não vae d'esta vez, disséra, fica sendo o D. Sebastião do collegio da Guia. Eu não quero que os outros lhe ponham alcunhas, que ficam depois para toda a vida.
—Nem eu, replicára a fidalga com vivacidade.
A ideia de que seu filho poderia ter uma alcunha, ser chamado o D. Sebastião do collegio, sobresaltára-a. E desde logo protestou a si mesma que o deixaria ir na primeira segunda feira.
—Ó mamã, dissera o pequeno, sabe que numero eu vou ter no collegio?
—Qual?
—Sou o 416.
Esta novidade, o facto de ir ser o 416, agradava-lhe. Era uma variante á monotonia do seu[{143}] tratamento habitual. Toda a gente lhe chamava D. Ruy, o sr. D. Ruy, mas d'ali em diante iam chamar-lhe o 416. Que bom!
No domingo, o morgado tornou a levar o filho ao collegio. Quando entravam, os rapazes sahiam arregimentados. Iam ouvir missa á Lapa, e depois dariam um passeio até Paranhos. O morgado disse ao prefeito que tambem os acompanharia, para habituar o filho á sua nova vida de collegial.
Na egreja da Lapa, emquanto esperavam pela missa, o sr. D. Ruy fez relações de amisade com um rapaz, filho de um fidalgo da casa de Villa Pouca, em Guimarães. Era o 86. O sr. D. Ruy gostou d'elle, e gostou de se vêr tratado familiarmente—por 416, apenas.
Veio para casa contar á mãe o que tinha feito. Estava enthusiasmado. E a segunda feira tardava-lhe. A mãe alegrou-se um pouco da alegria do filho. Pela manhã lavou-o, penteou-o, ella mesma, chorando umas vezes, sorrindo outras, soffrendo e amando.
Padre João foi com o morgado acompanhar o 416. A fidalga veiu para a janella. Chorava. Chegára finalmente o momento terrivel, que ella temia tanto. Mal viu o filho na rua, limpou as lagrimas, procurou sorrir. O sr. D. Ruy ia bem disposto, sentia-se forte, disse adeus á mãe sem chorar, mas á esquina da rua, quando a janella ia desapparecer, o valoroso 416 voltou-se[{144}] ainda uma vez para traz, e limpou duas lagrimas ao canhão da jaqueta.
É que, por muito leviano que se seja quando se é creança, sempre se tem consciencia de que uma mãe faz muita falta.
O 416 deu boa conta de si no collegio da Guia. De dia, as aulas e o recreio absorviam-lhe a attenção; á noite, nos primeiros tempos, arrasavam-se-lhe sempre os olhos de lagrimas, quando, antes de adormecer, pensava na mãe. Faltavam-lhe os beijos d'ella, que se inclinava sobre o leito a compor-lhe a almofada, e a conchegar-lhe a roupa. A cabeça de Christina tomava então o aspecto de uma aza protectora. O 416, no collegio, enrolava-se no lençol, soluçando, e adormecia assim, rezando ao anjo da guarda, como padre João lhe ensinára. Mas, pela manhã, a disciplina escolar não lhe dava occasião para pensamentos tristes: era saltar da cama e começar a lide.
Ao cabo do primeiro mez, o 416 já adormecia melhor.
Como as suas relações com o 86 se houvessem estreitado cada vez mais, faziam ambos projectos para as ferias da Paschoa. O 416 levaria para a Gésteira o seu condiscipulo: já estavam solicitadas as respectivas licenças. Não havia duvida nenhuma. Fariam um Judas logo que lá chegassem. Houve apenas uma pequena divergencia, entre os dois amigos, sobre o modo[{145}] como vestiriam o Judas. O 86 queria que fosse de veterano. O 416 preferia um fato de hespanhol—com as respectivas castanhetas. A sua opinião venceu, com uma simples modificação: as castanhetas seriam substituidas por um pandeiro.
Padre João, n'uma visita ao collegio, disse que o fato de hespanhol não era proprio para Judas; que seria melhor vestil-o de judeu. Os dois collegiaes não quizeram saber d'isso, e o 416 encarregou o capellão de lhe comprar um fato de hespanhol, que o padre foi desencantar na rua de Santo Antonio, n'um guarda-roupa de carnaval.
Imagine-se a alegria com que todos partiram para a Gésteira! A morgada parecia ter a idade do filho: ria, fallava, apoiava calorosamente os projectos dos dois collegiaes sobre a queima do Judas, que devia ser espaventosa.
Na caixa do trem ia muito fogo de artificio para recheiar o apostolo... castelhano. Dentro da barriga tinham os dois amigos combinado pôr-lhe uma bomba, que devia rebentar como uma peça de artilheria. Na cabeça, outra bomba: o chapeu devia ir parar a casa do diabo.
Logo que chegaram á Gésteira, trataram de fazer o Judas. O arcabouço era de palha. Vestiram-lhe as pantalonas castelhanas, a jaqueta de alamares; ataram-lhe a faixa encarnada. Pozeram-lhe uma caraça de andaluz, e um sombrero[{146}] com debrum de velludo preto. As mãos eram duas luvas de algodão com recheio de palha; na esquerda tinha um pandeiro, e na direita a saca dos trinta dinheiros. Por um artificio sabiamente imaginado, a saca do dinheiro devia, quando se puxasse por um arame, bater no pandeiro, e fazel-o soar. Na bôca um charuto: era uma granada envolvida em folha de tabaco. Nos pés, esporas de lata, com polvora dentro.
O Judas ficou n'um vasto telheiro que, dentro do pateo, se encostava ao muro da quinta.
O machinismo do pandeiro e da saca dos trinta dinheiros, invenção do 86, levara muito tempo, e dera muito trabalho, de modo que só foi possivel acabal-o, á luz de lanternas, na sexta feira á noite. O Judas, finalmente prompto, estava de papo ao ar, no chão, hirto, inchado, apopletico. Pela manhã, os meninos levantar-se-hiam muito cedo para assistir á empalação.
Depois... só restava pegar-lhe fogo.
De madrugada, uma criada da casa fôra ao moinho buscar uns sacos de farinha, que trouxe n'uma jumenta. Descarregou a farinha e enxotou a jumenta para o meio do pateo, emquanto foi acondicionar os sacos na cosinha.
Não se lembrou a estupida de que o Judas era de palha, e de que as jumentas comem palha... ainda mesmo quando lh'a não sabem dar.
A jumenta, de focinho baixo, foi procurando[{147}] o que havia pelo telheiro. Vendo o Judas deitado no meio do chão, começou, desconfiada, a ladeal-o, mas, por fim, investiu com elle. Cheirou-lhe a palha, e com uma dentada esgarçou-lhe o peitilho da camisa. Achou dentro a palha, e começou a comer. Trazia fome. Tinha ido para o moinho de madrugada, e lá, emquanto esperava pela moedura, apenas poderá traçar com os dentes umas hervitas, de modo que aquelle almoço inesperado soube-lhe bem.
Quando os meninos se levantaram, correram ao telheiro. Do Judas... restava apenas a parte castelhana, isto é, o fato:, mas os intestinos tinham desapparecido.
Proromperam n'um choro atroador as duas creanças. Os morgados, os criados, acudiram todos. As lamentações dos dois collegiaes eram sentidissimas, clamorosas. E a burra, indifferente a tudo o que se passava, continuava a procurar com o focinho alguma cousa, na esperança de encontrar outro Judas.
N'um momento de cólera, o 86 e o 416 pegaram cada qual no seu fueiro, e começaram a desancar a jumenta. Levou muita lambada; até o padre João, para lisonjear os meninos, lhe dera um pontapé na trazeira, dizendo: Que grande burra esta!
Mas ella, com o falso apostolo na barriga, parecia ter a consciencia de que um traidor não merecia sepultura melhor.[{148}]