Gostos não se discutem

Tem cada um sua maneira especial de se divertir. Chega a haver n'isso uma tal variedade como nas physionomias.

Ha quem não possa divertir-se com os outros, e quem não esteja bastante divertido sem os outros.

Ha quem goste dos outros só por algum tempo, de modo que nos acontece ás vezes encontrar um sujeito que nos abre os braços e exclama nadando em jubilo:

—Ora ainda bem que o encontro! Ha quanto tempo! ha quantos mezes! Temos muito que conversar! Vamos a isso! vamos a isso!

Fica a gente horrorisada com a perspectiva de uma maçada enorme. Mas não ha remedio senão fazer cara alegre e acceitar as coisas como ellas são.

—Pois vamos lá a isso![{107}]

Conta-nos o sujeito duas lerias, fugitivamente, como se o tivesse de fazer por simples cumprimento.

E, de repente, estendendo-nos a mão, parecendo ter já dito tudo:

—Adeus! meu amigo. Estimei muito vel-o.

Aqui está um exemplar de sujeito que gosta da companhia dos outros por algum tempo apenas.

O grande prazer que sentiu encontrando-nos aguou-se tão de pressa, que só abandonando-nos de repente poude continuar a divertir-se.

Conheci um alto cavalheiro, pessoa de estimação, que folgava immenso de que outro, que em tempo havia feito despachar para certo logar da alfandega, o seguisse por toda a parte, vestindo-lhe o casaco á saida dos theatros, pegando-lhe na bengala se queria atar o cache-nez, acompanhando-o a casa todas as noites, dizendo-lhe na rua o nome das pessoas que o iam cumprimentando.

Um dia o fiel protegido adoeceu, e o protector tão aborrecido se encontrou da sua falta, que resolveu ficar em casa emquanto o outro não melhorasse.

Pelo contrario, ha pessoas a quem uma tão solicita e dedicada gratidão incommodaria enormemente.

Andrade Corvo, conversando comigo, dizia uma vez:[{108}]

—A gratidão que persegue a gente, é das coisas mais secantes que se conhecem. E offende até certo ponto, porque dá a entender que fazemos um favor para sermos servidos toda a vida.

Como n'esse dia estivesse de notavel bom humor, exemplificou:

—Ora imagine que se dá um espirro e se ouve dizer logo do lado: «Dominus tecum, sr. conselheiro.» Imagine que tira a gente um charuto da algibeira, e que a gratidão acode a cortar-nos o passo exclamando: «Aqui está o meu lume ás ordens de v. ex.ª, sr. conselheiro!» Olhe que chega a fazer perder a paciencia!

Ha pessoas que se divertem passeiando sem fallar e sem olhar para ninguem.

Recolhe um desses a sua casa e pergunta-lhe a mulher:

—Encontraste muita gente conhecida?

—Não sei.

—E tiveste muito calor, filho?

—Olha que tambem não sei.

Outros, porém, gozam andando devagar, pasmando para tudo, parando de vez em quando a observar todos, descobrindo mysterios, surprehendendo segredos.

Conheço um destes; que me disse ha poucos mezes:

—Fulano, quando chegar a ministro, não faz caso de ninguem.[{109}]

—Por que?

—Eu lhe conto. Outro dia encontrou elle um amigo na rua da Boa Vista. Você conhece de certo o Silveira?

—Muito bem.

—Pois era esse o amigo que elle encontrou. Eu vinha atraz e ouvi toda a conversa. Ambos queriam o americano que fosse para o Rato. N'isto passava o carro que ambos desejavam. De repente o outro, que lobrigára um só logar vazio, larga o Silveira, trepa para o americano, e diz-lhe de lá adeus com a mão. O Silveira ficou com cara de parvo.

—Mas que tem isso?!

—Ah! então você não costuma aproveitar as lições que a observação de todos os dias lhe vae deparando! Está arranjado! Aquelle americano era uma especie de carro do governo, em que o outro, logo que teve occasião, tratou de arranjar logar, sem se importar com os que ficavam atrazados.

—Sim. Mas não me parece...

—Homem! qualquer coisa define uma pessoa. Os que gostam de fazer paciencias divertem-se comsigo mesmos: em tendo um baralho de cartas, prescindem bem dos outros.

Um d'esses taes estava em casa uma noite. Passou um amigo, e entrou.

—Pensei que estivesse gente de fóra! disse o amigo ao entrar.[{110}]

—Enganaste-te. Estou eu só a fazer paciencias.

—E a sr.ª D. Ismenia?

—Sahiu.

—Foi para o theatro?

—Tambem não sei bem. Sahiu com a mãe.

—E tua filha?

—Sahiu com o tio.

—E tu por que não sahiste tambem?

—Por que não precisava.

—Mas sempre é bom passeiar depois que se janta.

—Para passeiar, meu amigo, basta que saia alguem da familia.

Outros são de feitio opposto: amam a sociedade, a companhia, a convivencia.

Encontra a gente um ou outro, á meia noite, quando recolhe a casa.

—Que pressa tem você de se deitar? pergunta elle.

—Preciso levantar-me cedo.

—Mas durma depressa, homem!

—Durma depressa! tem graça!

—É o que lhe digo. Quer você ouvir um caso? Olhe que ainda é cedo. Uma vez estava eu em Villa Franca, em casa do Tiberio. Jogava-se o voltarete. Havia hospedes: um d'elles era o major Noronha, que tinha de ir no comboio da manhã para Santarem. O jogo enremissou-se. A dona da casa, muito constrangida,[{111}] lembrou que era melhor deixarem as remissas para outra occasião, porque o major tinha de levantar-se cedo. E vae elle, muito amavel, respondeu: «Não tem duvida, minha senhora, porque eu estou habituado a dormir depressa.» Faça você o mesmo, e dê dois dedos de cavaco.

—Sim... mas é já tarde.

—Olhe cá, a proposito de voltarete e remissas... Você sabe que o Castilho dizia que o voltarete era um jogo impio?

—Impio?

—Porque a cada passo ouvia dizer aos que o estavam jogando: Arre missas! (Ha remissas).

—Tem graça, tem! Adeus, que já é tarde.

E o pobre homem, que só com os outros se diverte, fica aborrecido por se achar só na rua.

Lembra-lhe talvez ir pedir lume ao guarda nocturno para accender o charuto,—como um pretexto para armar cavaqueira.

Depois de accender o charuto:

—Ó sr. guarda! n'esta rua ha muitos namoros?

—Já houve mais.

—Por que?

—Têem ido casando.

—É mal feito!

—Bem ou mal feito, é lá com elles.

—Mas o senhor fica muito prejudicado![{112}]

—Ora essa!

—Porque quantos menos namoros houver, mais só vae ficando a rua.

Eil-o aqui a pensar como se elle proprio fosse o guarda nocturno. Ah! se o fosse, valer-se-ia até talvez da carta anonyma para desfazer casamentos, porque os namoros podem succeder-se, mas os casados, em geral, não se namoram... depois.

Ha pessoas secantes que se divertem ralhando sempre, e que gostam do jogo, porque lhes dá occasião de bater murros na mesa e de gritar.

A um d'estes grasinas faltava certa noite um parceiro para jogar o whist de perna de pau.

—Se viesse por ahi alguem! exclamava elle espreitando pelas vidraças para fóra.

N'isto tocaram a campainha.

—Ah! é você! Ainda bem! Vamos lá jogar o whist.

—Não jogo.

—Por que não joga?

—Porque você ralha sempre!

—Hoje não ralho. Palavra de honra.

—Com essa condição, vamos lá.

Meia hora depois dizia o dono da casa:

—Esta stearina está hoje detestavel!

Passados cinco minutos:

—Parece que cá em casa não fazem hoje tenção de servir o chá![{113}]

De repente os outros dois pegaram-se a discutir o jogo.

—Ah! elle é isso! exclama o dono da casa. Pois então sempre lhe quero dizer a você (o tal, que tirára a condição) que já ahi fez uma grande asneira quando eu me queixei da stearina, e outra quando fallei no chá. Da primeira vez você devia ter vindo a oiros.

Entra o criado com o taboleiro do chá.

—Leva lá isso, que ainda é muito cedo! E da segunda vez porque devia ter vindo a copas, que era o que se lhe pedia.

Epaminondas, segundo resa a historia, nem por gracejo mentia, tanto gostava da verdade,—até para se divertir.

Outros, porém, só mentindo é que estão nas suas sete quintas.

E isso cria-lhes difficuldades, põe-n'os em graves apuros, mas dá-lhes tanto gosto, que perdoam o mal que ás vezes lhes faz pelo bem que lhes sabe... o mentir.

Contava um n'uma roda de amigos:

—Ver a morte! Quatro vezes a tenho eu visto já! imaginem que andando á caça no Brazil, alonguei-me pela roça fóra, e tinha descido a uma chã quando vi que um preto, que eu havia castigado dias antes, corria atraz de mim de espingarda na mão.

—E depois?

—Depois o preto, que chegára á borda do[{114}] outeiro, apontou-me a espingarda. Vocês sabem que os pretos têem uma pontaria infallivel!

—Como diabo escapaste tu?!

Chegado a este ponto, tambem elle proprio não sabia ainda como poderia ter escapado.

—Sim! Como escapaste tu?!

Nova hesitação do narrador.

—Não escapaste!

—Homem, isto é serio. Fosse em razão do odio que me tinha, ou do cansaço da corrida, o preto teve uma apoplexia fulminante e veiu cair-me aos pés. Dei-lhe um pontapé, e continuei a caçar.

Conheci um rapaz, que morria por andar de calças brancas.

Eu disse-lhe algumas vezes:

—Que diabo de gosto o teu! Não te parece que andas em ceroulas?

Elle respondia-me sempre:

—E a ti não te parece que metteste as pernas n'um tinteiro!

São gostos, e gostos não se discutem. Mas se toda a gente, em questão de gosto, tivesse a mesma opinião, quanto seria difficil... casar, por exemplo![{115}]