O ultimo puritano
Era uma vez um velho, o Seabra, que eu de tempos a tempos procurava na repartição, porque tinha uma excellente mão de cursivo para tirar copias.
Sessenta e seis annos bem puxados, posto que elle não desse ao manifesto mais de sessenta.
—Sessenta—dizia elle—sessenta já cá estão!
E suspirava.
Não se sabia bem se suspirava com remorsos de estar mentindo ou porque, deitando as contas á sua vida, achasse que o mais prejudicado era elle...
Tinha visto muita coisa, muita politica, muita patifaria. Nada que vinha de novo o surprehendia.[{213}] Batera-se no Alto do Viso, trabalhára em varias eleições, e havia quarenta annos que saboreava, como premio de seus trabalhos e serviços, um pingue logar de amanuense cristalisado em seiscentos réis por dia.
Conhecêra muitos homens importantes, que tinham lucrado com a collaboração d'elle, e outros que taes, para subir ao poleiro, e que por mais de uma vez lhe haviam promettido tiral-o d'ali para coisa melhor.
Pois apesar de lhe faltarem a todas as promessas, de o trazerem enganado durante quarenta annos, elle tratava-os sempre com o mesmo respeito, cumprimentava-os muito reverente:
—Sr. conselheiro, criado de v. ex.ª
Era um praxista. Não cumprimentava ninguem sem ter descalçado primeiro a luva da mão direita, nem saía da repartição sem ir perguntar ao chefe, entreabrindo a porta do gabinete:
—V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?
E o chefe, que estava conversando com amigos, muito entretido, nem o ouvia.
Mas elle, insistindo, reperguntava:
—V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?
E o conselheiro, se d'essa vez tinha ouvido, respondia:
—Adeus, Seabra, até ámanhã.[{214}]
Algumas vezes lhe fallei do chefe, para sondal-o.
E o Seabra dizia-me:
—É dos novos; mas boa pessoa.
Cheguei a entender o sentido d'estas palavras: é dos novos. Não era praxista, não respeitava as tradições e os regulamentos da burocracia, mas o Seabra reputava-o boa pessoa.
Alma generosa, a d'esse velho amanuense! que, em respeito ao seu chefe, que o tratava simplesmente por Seabra, não ousava dizer d'elle senão que era dos novos... mas boa pessoa.
Se o Seabra tivesse nascido meio seculo mais tarde, não entreabria a porta do gabinete do chefe para se despedir; mas, se o fizesse, e elle lhe respondesse com um «adeus, Seabra», pespegava-lhe uma tarea nas gazetas.
Para um praxista como o Seabra, aquelle homem, que estava dentro do gabinete, conversando com os amigos, era seu chefe, e isso lhe bastava.
Ora uma das praxes observadas pelo Seabra era a de consultar sempre, antes de sair da repartição, o seu espelhinho d'algibeira.
Elle tinha apenas duas farripas de cabello branco, muito bem penteadas ao longo da cabeça. Mas essas duas farripas mereciam-lhe todo o cuidado e attenção. Vendo-se ao espelhinho, passava a mão por cima das farripas, brunia-as com os dedos, alisava-as.[{215}]
Depois observava a gravata, que era ordinaria, mas sempre bem tratada, sem sombra de pó.
Por ultimo, segurando o espelhinho com a mão esquerda, escovava a sua velha sobrecasaca com a mão direita.
E feito todo este serviço, depois que o chefe lhe dizia o «adeus, Seabra», guardava o espelhinho na algibeira, a escova no armario, e seguia para sua casa, a passos mesurados, muito vagaroso, pela rua do Oiro até Santa Martha.
Inculcaram-m'o uma vez como tendo excellente letra para tirar copias. Apresentaram-m'o. Por varias vezes lhe dei trabalho, meu e alheio. Era pontualissimo na entrega das copias, e honestissimo nas contas que fazia. Arredondava sempre as quantias contra elle. Se, trabalhando a tanto por pagina, o seu trabalho importava por exemplo em 1$085 réis, não queria nunca receber mais de dez tostões.
Comprehende-se que precisasse muito d'estas achegas para poder viver, visto que o seu logar lhe rendia apenas 600 réis diarios.
Todas as noites saía para vir ao Rocio conversar n'uma loja até ás nove horas. O logista era um homem do tempo d'elle. Tratavam-se por tu. Ás nove em ponto, o Seabra despedia-se, ia para casa trabalhar até á meia noite, tirar copias a 120 réis a pagina.
Não vi nunca pobresa mais resignada, nem[{216}] mais elegante. Parecia um principe arruinado, a passos mesurados, pela rua do Oiro. Era só então que elle via o mundo, uma vez por dia. Mas via-o bem, depois de se ter preparado tambem para ser visto. Não saía da repartição sem o espelhinho lhe ter dito: «Estás correcto, Seabra.»
Na rua do Oiro encontrava um conselheiro. Cumprimento respeitoso.
—Criado de v. ex.ª, sr. conselheiro.
Não deixava nunca de vêr os conselheiros, apesar de todo o seu gosto, ao passar na rua do Oiro, consistir em vêr as mulheres ou, mais propriamente ainda, em vêr os pés das mulheres.
Se parava uma carruagem á porta de uma loja, tambem elle parava, com delicado disfarce, para vêr saltar do estribo uma dama.
Não tinha esta escola moderna dos que fazem tudo descaradamente, parando e observando com petulancia. Nada disso. Elle via o pé, media-o com os olhos, calculava, pelo pé, as dimensões da perna, ficava sabendo a côr e a qualidade da meia, mas, se alguem, encontrando-se com elle, lhe adivinhava a intenção, disfarçava a olhar para uma vitrine ou a lêr um cartaz.
Só ao cabo de alguns annos de convivencia, eu consegui conquistar a familiaridade precisa para lhe fallar nos pés das mulheres.[{217}]
—O sr. Seabra pella-se por vêr um pé bem feito!
—Gósto!... gósto!
E d'ahi a pouco parou uma carruagem, apeiou-se uma senhora, que deixou vêr, sobre o estribo, um pé digno da admiração do Seabra.
—Então, sr. Seabra! disse-lhe eu. Repare, que vale a pena.
—Não! nunca! respondeu elle um pouco atrapalhado.
Jámais eu o tinha visto, em nenhum caso da sua vida, tão contrariado como naquelle momento.
—Aquelle pé—pensei eu—é talvez uma recordação para elle.
Mas reflexionei. A dama era, relativamente, nova. Podia ser filha do Seabra.
—Será talvez filha?
E architectei um antigo romance de amor, que tivesse deixado ao Seabra uma filha natural.
Se fosse assim, eu poderia conseguir talvez que elle me contasse o seu romance.
Tentei o assumpto.
—Mas então, meu caro sr. Seabra, porque perdeu esta occasião propicia?
—Não! nunca! tornou elle a responder.
Devorado pela curiosidade, insisti:
—Era talvez sua parenta?
—Qual! disse elle surprehendido. Era a mulher do meu chefe![{218}]
Fiquei a olhar para elle, aturdido, assombrado. Ó lealdade da velha burocracia portugueza! que, em homenagem á disciplina social, desviava os olhos para não vêr o pé da mulher a quem o chefe havia dado a mão! E tive tentações de o abraçar, em plena rua do Oiro, exclamando: «Honradissimo José do Egypto, cujos olhos largam a capa, quando a mulher do chefe da repartição expõe o pé á vista do publico! eu te admiro e te venero!»
Acompanhando-o pela rua do Oiro adiante, baralhavam-se-me no espirito casos que eu tinha ouvido contar, por mais de uma vez, de empregados publicos que captavam as boas graças dos chefes seguindo o processo opposto ao do Seabra.
Admiravel homem! pensava eu, que penteia as suas farripas para ir vêr as mulheres e que, não obstante querer vêl-as, não perde nunca de vista um conselheiro, para lhe cumprimentar a carta de conselho, nem a mulher do chefe, para evitar cumprimentar-lhe o pé!
Uma coisa que entristeceu muito o Seabra foi o ir perdendo a vista, e com ella o gosto de passar na rua do Oiro.
Mas, não obstante, não largou nunca o seu espelhinho. Tinha o mesmo cuidado em alisar as farripas e escovar a sobrecasaca. Sómente mudou de caminho, tomava pela rua da Prata, em vez de seguir pela rua do Oiro.[{219}]
Os seus collegas diziam:
—O Seabra agora está muito caido!
Na repartição, elle trabalhava com oculos, mas na rua nunca os punha.
Um dia insisti com elle em que viesse comigo pela rua do Oiro.
Pediu-me muitas desculpas, e recusou.
—Já não vejo nada! dizia elle.
—Mas por que não põe os seus oculos? perguntei-lhe eu.
E elle, muito sentencioso, respondeu-me:
—Eu sou de um tempo em que não era permittido confessar nenhuma fraqueza em publico: nem mesmo a da vista.
De uma vez, como sempre, o Seabra entreabriu a porta do gabinete do chefe.
—V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa? perguntou.
—Não, Seabra, até ámanhã.
O Seabra compoz, diante do espelhinho, as suas farripas, ageitou a gravata, escovou a sobrecasaca, fechou a escova no armario.
E metteu pela rua da Prata, na sua teima de não querer confessar em publico nenhuma fraqueza: nem mesmo a da vista.
Junto á Praça da Figueira andava-se concertando um cano, a rua estava esburacada.
O Seabra caiu tão desastradamente, que partiu uma perna. Foi conduzido em maca ao hospital de S. José. Logo que lá chegou,[{220}] cheio de dôres, despiram-no, metteram-n'o na cama.
E elle, dirigindo-se muito attenciosamente ao enfermeiro, disse-lhe:
—Quer ter a bondade, sr. enfermeiro, de recommendar todo o cuidado com o meu fato, e de me dar um espelhinho que está na algibeira das calças?
Passados dias fui visital-o, levei-lhe um romance para que elle se entretivesse, lendo-o.
—Não posso, disse-me elle. Deixei os oculos fechados na repartição.[{221}]