Os principes do Perú
Vem já ahi caminhando ao nosso encontro a bella festa do Natal. Não tarda nada. Os batedores, a guarda avançada, chegaram com a sua costumada pontualidade. Cá temos o frio e o perú passeiando ambos pelas ruas de Lisboa, um muito afiado e cortante, o outro gluglujante e luzidio.
Esta solemne festa do anno tem o condão de sorrir a todas as idades, de lisonjear todos os paladares, de encantar todas as imaginações.
As creanças pensam, cheias de jubilo, no seu Presepio, na sua arvore do Natal, na bonecada e nos bolos.
Os namorados estão já arregalando o olho amoroso para a missa do Gallo, que é boa capa para entrevistas hombro a hombro, de mãos dadas, emquanto se finge rezar muito devotamente...[{222}]
Os velhos, que são ordinariamente gulosos, começam a afinar o olfacto para descobrir, nas lojas de confeiteiro, os mais saborosos petiscos.
Os ambiciosos de qualquer idade e sexo sonham com a grande loteria de Madrid, esse ideial de felicidade que todos os annos lhes faz negaças á imaginação fogosamente credula.
As beatas estão já antegostando a delicia de oscular mysticamente as carnes rosadas e divinas do pequenino Jesus.
No meio de todo este côro de alegrias só uma nota discordante poderia soar, mas o perú, a principal victima do Natal, não tem decerto a consciencia do perigo que a esta hora está correndo,—felizmente para elle.
Pobre perú! Ahi o vemos fazendo descuidosamente a sua ultima avenida, dando o seu ultimo passeio de condemnado á morte, sem pensar em disposições testamentarias, tão felizes são os perús!
As pessoas do norte do paiz não teem, como o lisboeta, a tradição do perú do Natal. No Minho, na Beira, em Traz-os-Montes pensa-se agora em mil guloseimas, que não tardarão a encher de aromas a cosinha e a mesa, mas o perú setemptrional não tem que receiar-se da faca do cosinheiro, porque a tradição local não exige como victima senão a gallinha gorda e o gallo nedio.[{223}]
Eis aqui a rasão por que um rapaz da Ponte da Barca, que, ha annos, andava estudando em Lisboa, ficou muito surprehendido com o pedido que lhe fizera a mais astuciosa das suas namoradas lisboetas.
Ella era filha de um servente de repartição, creio eu, que vivia cheio de difficuldades, porque a mulher lhe havia dado uma prole numerosa: tres filhas e quatro filhos.
Emquanto todos os sete foram pequenos, era com profunda tristeza que o marido e a mulher viam passar na rua, pelo tempo do Natal, os bandos de perús luzidios e gluglujantes. Não podiam chegar-lhes, elles! Dez tostões não era quantia que um servente de repartição, cheio de filharada, podesse dispender. Isto ralava-o. Mas o pobre homem dizia muitas vezes á mulher:
—Deixa crescer a raparigada, e verás que não nos faltarão perús.
A mulher sorria com desalento e replicava:
—Pensas talvez que estão á espera d'ellas tres principes muito ricos, que hão de ser nossos genros?!
—Não é isso. Eu cá tenho a minha ideia. Deixa crescer a raparigada, e verás.
Os annos foram passando, e as tres filhas do servente cresceram, principiaram a revelar um palminho de cara menos mau. A mais nova tinha quinze annos; a mais velha dezesete.[{224}]
—E então os tres principes do Perú? perguntava a mulher ao marido, fazendo um calembour inconscientemente.
—É agora. Vae começar este anno, cá pelo que eu tenho observado. Elles ahi estão a bater á porta...
—Os principes?
—Não, os perús.
—Fia-te n'essa, pateta!
—Ora dize-me uma coisa: Teem ou não teem já as raparigas o seu derriço?
—Sim... acho que teem. E d'ahi, homem?
—D'ahi, tem paciencia, e espera. Eu logo vou conversar com as raparigas, porque todo o bom pai precisa aconselhar ajuizadamente as suas filhas.
O Natal estava por um fio, chega não chega. Fazia frio e luar. O estudante da Ponte da Barca não fôra a ferias, porque n'aquelle tempo ainda o caminho de ferro não tinha encurtado as distancias.
O rapazote, achando-se sem obrigações escolares, principiou a entregar-se exclusivamente á cultura de namoros desde pela manhã até á noite.
Ora ia vêr uma das suas bellas, ora ia catrapiscar a outra, mas a filha do servente, a dos quinze annos, era de todas as namoradas a que mais o prendia talvez, não só por esse orgulho natural de ter inspirado um primeiro[{225}] amor, como tambem porque o estudantelho era poeta e a rapariga parecia-lhe romantica.
Romantica, sim, senhor! Onde fôra ella aprender isso? Quem o podéra dizer! Foi uma qualidade que derivou talvez do fluido magnetico dos seus olhos negros e grandes. O pae era tudo o que podia haver de mais prosa em servente de repartição. A mãe era digna esposa de seu marido segundo os canones e a prosa. As irmãs só desejavam poder um dia comer bem e dormir melhor. Mas a rapariguinha dos quinze annos tinha suas reveries, contemplava o azul do céu, gostava de vêr o luar, o que o pae e a mãe muito extranhavam classificando de telhuda a filha mais nova.
Pois o Natal estava por um fio, chega não chega, como eu ia dizendo ainda agora.
O servente ressonava já ha muito tempo em competencia philarmonica com a cara metade. As outras duas filhas sonhavam talvez com alguem que lhes desse um vestido e um camarote, mas a Mariquinhas estava á janella, envolta no véu azul do luar, unico de que podia dispôr, a conversar idillios com o seu estudantelho do Minho.
—Tu és-me infiel, dizia-lhe ella.
—Eu! respondia elle. Eu adoro-te, Mariquinhas, e só penso em poder casar comtigo logo que seja alferes de cavallaria.
—São palavras... Não sentes o que dizes![{226}]
—Por que duvidas de mim?
—Porque tenho a certeza de que o teu coração não é sincero. Só te lembras de mim quando me estás fallando.
—Tambem isso são palavras, apenas.
—Nunca tiveste uma pequena lembrança que me désses, uma d'essas apreciaveis bagatellas que valem mais pelo que significam do que pelo custam. Agradece-se, estima-se a intenção, principalmente...
—E que gostarias tu que eu te offerecesse? Um ramo de flores?...
(Foi a coisa mais barata que lhe lembrou).
—Logo vi que havias de escolher uma coisa que durasse tão pouco como o teu amor. Eu gosto immenso de flores, mas tenho má fé com ellas no amor. São como que o presagio de que tudo acabará de pressa. As flôres duram tão pouco!
—Um leque, Mariquinhas, um leque?...
(Lembrou-se de ter visto na rua do Oiro uns que custavam oito vintens).
Ella replicou indignada:
—Eu não sou mulher que me requebre de leque na mão. Não sou d'essas mulheres levianas que andam pela rua a fazer fogo de vistas com a ventarola.
—Mas eu não te quiz offender, Mariquinhas.
—Talvez não quizesses. Eu sou uma rapariga honesta, que vivo á sombra de meus paes,[{227}] e que os adoro. Pésa-me de que elles sejam tão pobres e tão bons. Sabes no que eu penso? Em proporcionar-lhes um dia de Natal agradavel, como elles já não tiveram ha muitos annos...
—E como seria isso?
—Fazendo-lhes a surpreza de uma boa meia noite.
—Como?
—Comprando-lhes um perú sem o elles saberem.
O estudante sentiu uma punhalada no coração; duas punhaladas é que foram.
Primeira punhalada: Então ella, tão romantica, tão sonhadora, pensa agora n'um perú?
Segunda punhalada: Onde hei de eu ir arranjar dinheiro para comprar o perú?
Mas, emfim, era preciso não fazer má figura deante da Mariquinhas.
—Socega, querida. Has de fazer essa agradavel surpresa a teus paes.
—Quando?
—Ámanhã... decerto, visto que depois d'ámanhã é vespera de Natal.
—Ah! como sou feliz! exclamou a Mariquinhas.
E o estudante, quando sahiu d'ali, ia dizendo comsigo:
—Ella é muito exigente para um estudante, mas, em compensação, parece ser muito boa filha.[{228}]
No dia seguinte foi elle ao Rodrigues do Pote das Almas vender um Magnum Lexicon, umas grammaticas velhas, um Monteverde em menos mau estado. Apurou ao todo mil e duzentos. Comprou ao principio da noite, na Praça da Figueira, um perú por 1$100, e ficou-lhe ainda a tinir na algibeira o bello tostão para cigarros e café.
Á meia noite, eil-o debaixo da janella da Mariquinhas, de perú debaixo da capa. Momentos depois o perú subia suspenso por um cordel, e a Mariquinhas era feliz.
As outras irmãs dormiam, mas estariam sonhando ainda com alguem que lhes podesse dar um vestido e um camarote? Não. Sonhavam, o que era verdade, que tinha cada uma um perú, que ellas pediram aos namorados, por conselho do pae.
Foi assim que o servente de repartição, como havia planeado, pôde ter perú na noite de Natal, perú no dia de Anno Bom, perú no dia dos Santos Reis. Tres perús a tres filhas,—por cabeça.
E sentado á mesa, muito alegre e palreiro, ouvindo repicar os sinos para a missa do gallo, dizia elle á mulher:
—Ahi vem sua alteza o primeiro principe do Perú. Os outros dois estão ainda em palacio. Não te dizia eu que elles haviam de chegar?[{229}]