Peccadilhos metricos
Non bis in idem
Fazem ámanhã annos,
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Alberto Pimentel
......................Novidades, de domingo 27 de novembro de 1887.
Ainda ante-hontem dizia
Certo jornal que eu fazia
Annos no dia seguinte.
Comquanto o jornal ref'rido
Pertença a outro partido,
Era favor; não acinte.Mas, emfim, passa em julgado
Que eu seja tão desastrado
Que, já proximo dos enta,
Faça annos cada semestre?
Não: que o tempo é um grande mestre.
Tempo que passa, avelhenta.[{116}]Fazer annos em novembro,
Logo em abril repetil-os!
De tal coisa não me lembro!
Tomára diminuil-os,
Quanto mais, por triste engano,
Duplical-os em cada anno!Assim, se chego aos sessenta,
Contar-me-hão cento e vinte!
Pois cada semestre augmenta
Um anno, e outro o seguinte!
Faço annos no quente e frio
Como pago ao senhorio!!Não! Não pode ser! Protesto!
Porque eu trabalho, e de resto,
Pago de seis em seis mezes
Duas rendas, uma em annos,
Outra em metal! São enganos?
Mas eu pago duas vezes!Fique pois bem entendido,
Bem notorio, bem sabido,
Que só uns annos farei.
Quatorze de abril: é a data.
Dispenso flôres, cantata...
Mas protesto. E protestei.
29 de novembro de 1887.[{117}]
DEPOIS DO INCENDIO DO THEATRO BAQUET
(Versos recitados pelo actor Firmino, uma das victimas sobreviventes d'aquelle incendio, no beneficio que realizou no theatro da Trindade.)
Venho d'entre as ruinas e das chammas,
Onde tudo perdi. Sabeis a historia,
Que o vosso coração ainda contrista.
Perdoai a vaidade ao pobre artista...
Eu sonhava essa noite com a gloria.Monstruosa ironia! A gloria! A gloria!
Tive por ovação prantos, clamores.
Ossadas por cortejo. O incendio e a fama
Disputaram ali. Venceu a chamma.
Eram chammas o palco e os bastidores...E ali n'essa sinistra apotheóse
Ficaram sepultados meus thesoiros,
Amigos que eu perdi,—tão dedicados!
Minha pobre familia,—os meus cuidados,
Doces cuidados que eu pref'ria aos loiros!...Sou agora a mim proprio quasi extranho,
Um viajante perdido no deserto,
N'esse infindo deserto da saudade.
Sinto ainda a desgraça muito perto...
Mas sinto ainda mais perto a caridade!Se vivo, é só por ella. Em seu regaço
Choro o meu abandono, as minhas dôres.
Refunde-se a minha alma em muitas almas,
Vale um consolo o que não valem palmas...
Vivo, meu Deus! graças a vós, senhores!...[{118}]
UMA DAS VICTIMAS DO INCENDIO
(Etelvina Julia d'Almeida.)
Vi-a n'um baile, ha muitos annos, quantos!
Da sua face bella as frescas rosas
Deviam ter suavissimos encantos
Se os beijos, namoradas mariposas,
Fossem sorver, ha muitos annos, quantos!
Da sua face bella as frescas rosas.Mas quem hontem logrou reconhecel-a
Entre as negras ruinas sepultada?...
Mas quem poude affirmar, dizer: É ella!
Ella que fôra outr'ora alva e rosada!
Já não poude ninguem reconhecel-a
Entre as negras ruinas sepultada.
1.º DE DEZEMBRO
Filippa de Vilhena!
João Pinto Ribeiro!
Palavra, que faz pena
Ver o despenhadeiro
Em que isto agora vae!
E como o paiz cae!Agora é só dinheiro.
Está campando em scena
Sómente o deus Milhão!
Filippa de Vilhena!
João Pinto Ribeiro!
Palavra, que faz pena...
Agora é só dinheiro...
E os que lá vão lá vão!
1887.[{119}]
EMILIA
(Minha irmã.)
Nunca tu azas tiveras,
Que te elevassem ao ceu.
Nunca tu voar poderas
Co'as azas que Deus te deu.Por mais que tu procuraste
Reprimir-lhe o ancioso vôo,
Eras tão debil! cansaste.
Deus quiz o anjo, e levou-o.Tinha reflexos tão doces
O teu olhar doce e brando,
Que logo pensei que fosses
Lirio que veio voandoD'essa translucida esphera,
Tão cristalina e tão alta,
Onde a eterna primavera
Sentiria a tua falta.Então as flôres celestes
Chorando saudosamente
Vestiram lutuosas vestes,
Feitas de seda somente.E, debruçadas nas sépalas,
Choraram pranto divino
Sobre o justilho de pétalas,
Polvilhado de ouro fino.Deus viu-as tristes, chorosas.
Nos seus ethéreos jardins,[{120}]
E chorou co'as suas rosas,
Teve dó dos seus jasmins.E como o pranto divino
Tambem, como pranto, queima,
Deus co'a sua voz, um hymno,
Dissera ás azas: «Trazei-m'a.»E as azas, mal escutaram
A celeste melodia,
Obedeceram, voaram,
Qual d'ellas mais voaria.Quando esse lirio nevado
Chegou de novo ao empireo,
Ia triste e maguado,
Deus estranhou o seu lirio!E o que o lirio não dissera
Tudo Deus adivinhou.
Voando á celeste esphera,
Chorára emquanto voou.As flôres do azul sorriam,
Os lirios do ceu cantavam,
Meus olhos já te não viam,
Meiga creança, e choravam.Nunca tu azas tiveras,
Que te elevassem ao ceu
Nunca tu voar poderas
Co'as azas que Deus te deu.
24—2—87.[{121}]
JOÃO DE DEUS
João de Deus! De Deus... porque é divino.
João, ou seja o primo de Jesuz
Ou o outro que vela junto á Cruz,
É divino tambem.
E não atino
Senão co'esta rasão: foi prophecia
—Se já não foi destino—
De quem previu que João de Deus seria
Um poeta divino.
Ericeira, 21—10—90.
KERMESSE
O bem é como as auroras,
Que para tudo o que existe
Espalham luz e calor.
Seja alegre ou seja triste
A alma, o insecto, a ave, a flôr,
Tudo o que ri ou que chora
Sente nos raios da aurora
A esmola do eterno amor...Os beijos do sol aquecem
Tudo o que é velho ou que é moço,
O ephémero e o colosso.
As rochas e os corações,
Os lagos e as ondas bravas,
Emporios e solidões,
As lagrimas das escravas
E os sorrisos das rainhas,
As cavernas dos leões
E os ninhos das andorinhas.[{122}]E o bem é como as auroras.
Por isso ao bem não esquece
A creança, o ninho, a escola...Tu és como o sol, esmola!
És como a aurora, kermesse!
OS TREZ VELHOS
I
Cahiu um nevão na serra.
Desde a cumiada ao val
Alveja rútila a terra.
Não houve nevão egual!O ar gelado, cortante,
Passa sobre as povoações
Ceifando como um montante,
Rugindo como os leões.Arvores sêcas, esguias
Olham para o ceu, talvez
A soluçar elegias,
Carpindo a sua nudez.Cheias de fome, as manadas
Sobre as campinas despidas
Só róem urzes queimadas
E raizes ressequidas.A fome, a doença, a morte
Assentaram arraiaes
Junto ao casal e á corte,
Levando gente e animaes.[{123}]Famintas, as alcateas
Vem de noite ao povoado.
Tremem de medo as aldeas,
Ouvindo o lobo esfaimado...E desde o alto da serra
Abre a neve o seu lençol.
O que seria da terra
Sem ter um raio de sol?!
II
Entre a egreja e o presbyterio
Corre, caiado de novo,
O muro do cemiterio.
Vem ali juntar-se o povo.O sol, batendo no muro,
Aquece a pedra ao meio dia,
Torna o inverno menos duro,
Tempera a nortada fria.Lá se juntaram trez velhos
Sêcos, rijos, vermelhaços,
Expondo ao sol os joelhos,
Estendendo ao sol os braços.Emquanto o sol os aquece,
Riem-se elles da nortada.
Cada um seu mal esquece,
Vai tudo de patuscada.—Tem morrido muita gente
Com esta grande invernia!...
—Pois nunca o inverno foi quente!
—Salvo... este sol do meio dia.[{124}]—Este sol é a minha adéga:
Eu não quero outro calor.
—Você o vinho renega!...
—Lingua de mau pagador!—O vinho é caro. A cacháça
Custa agora...
—Isso que monta!
—O sol dá-o Deus de graça!...
—Mas beba vinho com conta!—Eu cá nunca fui borracho.
—Nanja eu. Mas acho-o bom.
—Diz um cacho a outro cacho:
Não bebas sem tom nem som!E n'esta mansa folia
Vão-se aquecendo os trez velhos
Ao doce sol do meio dia,
Rijos, sêcos e vermelhos.
III
—Lá vem enterro... Isto agora...
Não tem descanso o coveiro!
—Vem d'acolá d'onde mora
A mulher do Zé Cabreiro.—Foi o filho... É de creança
O caixão: eu inda vejo!
—O coveiro não descansa!...
—Inda hontem lhe dei um beijo!—A quem? Ao coveiro?!
—Irra!
Ao filho do Zé Cabreiro.[{125}]
—O frio as creanças mirra.
—Lá vem atraz o coveiro...—A morte leva os fedelhos,
Mata n'um dia um rapaz,
Emquanto que nós, os velhos.
Vamos ficando p'ra traz!—A morte é uma gulosa,
Gosta de bocados finos.
Carnes que cheirem a rosa,
Polpa de tenros meninos...—Póde ser!...
—Pois certamente!
Nós cá, ossos esburgados,
Nem para a cova de um dente
Lhe chegavamos, coitados!No alto mar me contava
Um velho de Guimarães
Que a terra se embebedava
Com as lagrimas das mães...—Por isso lhes leva os filhos!...
A gulosa!... Quer banquete!
—Quem tem filhos tem cadilhos.
Morreram-me. Eu tive sete!...—E eu nenhum.
—Nem eu.
—Agora,
Sem ter filhos nem mulher,
Visto que ninguem nos chora,
Nem mesmo a terra nos quer!...
Janeiro de 1891.[{126}]
AS POMBAS
(De Theophilo Gautier.)
Na collina dos mortos, entre os tumulos,
Ergue a bella palmeira a verde pluma,
E á tarde as mansas pombas de azas candidas
Vão aninhar ali, uma após uma.De manhã, quando o sol desperta rutilo.
As brancas pombas vão, cortando o ar,
Como um solto collar no azul ethéreo,
Longe do ninho um tecto procurar.Minha alma é como a solitaria arvore
Onde enxames de loucas illusões
Poisam á noite. Fugitivos hospedes,
Vão-se co'a luz as pombas e as visões.
8—2—87.
MULHER E GATA
(Paul Verlaine.)
O vel-a até dava gosto
Brincando co'a sua gata,
Branca mão contra alva pata,
Na penumbra do sol posto.Mitene, que a mão recorta,
Por dissimular trabalha
Unha d'ágatha, que corta
E brilha como navalha.Mas a gata, disfarçada
Tambem, com prazer ronrona[{127}]
E ensaia a unha acerada...
Não é melhor do que a dona!E os dois labios purpurinos
Enchiam de riso o ar,
Onde se viam, felinos,
Quatro phosphoros brilhar.
N'UMA SALA
A um canto, os politicos fallavam
Com um certo mysterio
Do modo como as coisas caminhavam,
Se estava forte ou fraco o ministerio.Alguem que se mostrava resentido,
Abanava a cabeça—era um symptoma
De que a seu vêr o mundo está perdido
E tudo cae,—como caíra Roma!
Elle só, por sciencia e por estudo,
Era talvez capaz de salvar tudo...N'outro canto da sala gorgeiava
A musica do riso e d'alegria
Um grupo que sorria e que fallava
De quanto ouvia e via.
Era o grupo formoso das solteiras,
O grupo dos vinte annos,
Que é capaz de passar noites inteiras,
Rindo de tudo,—até dos desenganos!D'este grupo gentil como é que eu posso
Desenhar o esboço?
Precisaria ter as tintas finas,[{128}]
O magico pincel
De que dispunha o grande Raphael!
Em vez de uma... eram quatro Fornarinas.Quereriam talvez as bellas damas
Vêr no papel traçado o seu perfil?!
N'essa não caio eu...
Quem é capaz de retratar abril?
De transportar á tela o que é do ceu?
De copiar as flôres?
De imitar as estrellas?
De dizer á manhã: Roubei-te as côres?
Tende paciencia, ó minhas damas bellas,
Incumba cada uma o seu Romeu
D'esse arrojo inaudito.
Eu cá por mim, repito,
N'essa não caio eu...E de mais eu bem sei, minhas senhoras,
Que me attendestes n'um serão inteiro
Por não haver na sala algum solteiro...
Sois boas, não sejaes enganadoras.Eu já tenho trez filhos, eu sou velho,
Disse-m'o ha pouco tempo uma visinha,
E o maldito do espelho
Tem-me mostrado até... pés de gallinha!...Vão muito longe as minhas primaveras.
De mais a mais, senhoras, a aza branca
Da musa ideal que eu tive n'outras eras
Desplumou-se a pensar em Salamanca,
No imposto sobre o sal,
A estudar as questões do parlamento,
O orçamento geral,[{129}]
—Diabo de orçamento!
Que é o livro maior que ha em S. Bento!
Assim se foi rasgando, creio eu,
Essa aza branca que me erguia ao ceu!..Vede, senhoras, se ha tormento igual!
O que me resta só,
Para de todo errar da sorte o alvo,
E vêr-me, um dia, calvo,
E descer á miseria... de um chinó.N'estas alturas, minhas damas bellas,
Não posso ser pintor.
Quereis vêr-vos, senhoras, retratadas
Formosas como sois, e delicadas?
Mirae-vos n'uma flôr...N'essa não caio eu...
Fazer-vos o retrato?!
Mas, em compensação,
Com a vossa adhesão
Estou prompto a fazer um syndicato.[{130}]