Pessoas conhecidas de vossas excellencias

Temos visto cair de anno para anno, um a um, os mais antigos habitués de S. Carlos.

Por que não começaremos pelas testas coroadas? O seu dilettantismo é tão humano como o dos outros habitués. Primeiro el-rei D. Fernando, um espectador certo, mesmo já quando a voracidade lethifera de um cancro lhe ia roendo a face. D. Fernando punha o seu parche de seda preta, e ia para S. Carlos, para S. Carlos onde elle havia brilhado outr'ora em plena mocidade feliz. Depois D. Augusto, que parecia amar a temperatura elevada de S. Carlos, apesar de ser um cardiaco. Em seguida, el-rei D. Luiz, que tinha pela musica a paixão nativa de todos os Braganças. Já doente, pallida e flaccida a face, n'um esphacelamento lento que o rosto denunciava, ia uma vez por outra[{198}] a S. Carlos como para se despedir da musica, que sempre adorára.

Cá em baixo, nas cadeiras, desapparecêra primeiro o dr. Alvarenga, que passára a vida a tratar o coração dos outros, embora, para o atormentar, lhe bastasse o seu, de que soffria muito.

Lembram-se do dr. Alvarenga? Sempre de casaca, gravata preta, oculos escuros, e um crescente mais dilettante do que cathedratico. Lembram decerto.

Depois o José Carlos Poeta, grande peitilho lustroso, casaca de amplas lapellas, calva ostentosa e lusidia.

Tinha conhecido a avó de cada cantora que ia apparecendo, e decerto gosava, ouvindo a neta, mais do que nós, porque vivia da saudade deleitosa que as suas recordações lhe avivavam.

Foi-se um dia, de repente, alli ao fundo da rua do Alecrim.

Julio Cesar Machado, muito correcto dentro da sua casaca, sempre de gravata preta—querendo assim mostrar que já se não tinha na conta de moço, comquanto se tivesse ainda na conta de dilettante—foi, como uma estrella cadente que parece procurar outra no ceu, ver se encontrava pelo azul fóra a alma do filho, que era a estrella querida do seu coração affectuoso.

Agora, ultimamente, o duque de Albuquerque, uma só pessoa, que fornecêra a S. Carlos[{199}] dois habitués: o conde de Mesquitella e o duque de Albuquerque.

O seu chinó, sempre tão fallado nas chronicas de S. Carlos, era como que a pagina mais eloquente do seu gosto pelo mundo: queria fingir de mais moço cada vez que S. Carlos abria, não obstante ser mais velho um anno.

E, depois de certa idade, nada ha que envelheça tanto como cada anno que vae passando...

Julio Machado raras vezes subia a um camarote para visitar alguem; e tambem raras vezes assistia, nos ultimos annos, a um espectaculo todo.

Parecia um pouco cansado do mundo: entrára no periodo em que a gente vive principalmente de recordações.

O duque de Albuquerque, pelo contrario, entrava em todos os camarotes, visitava todas as damas, e apenas saía de S. Carlos... quando os outros saíam.

Tinha razão, porque elle ia lá não só para ouvir as operas, como tambem, para ver os outros.

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José Carlos de Freitas Jacome alternára uma grande parte da sua vida em occupações que profundamente contrastavam uma com outra:[{200}] a prosa dos tribunaes e a poesia da opera. De per meio, e de passagem, plantára o seu loureirosinho no jardim das Musas, era escrivão do civel na Boa Hora, dilettante em S. Carlos, e poeta por desfastio nas horas em que da prosa dos autos ascendia á região da harmonia. Fôra bastante escriptor para não ser unicamente escrivão, e, fóra da Boa Hora, esquecia-se de ser escrivão, para ter as predilecções e as honras de escriptor.

Bom homem a valer, amavel, sabendo vestir uma casaca, tendo o segredo de fazer espelhar, com uma limpidez de cristal, o peitilho da sua camisa. Nunca perdeu, apesar de velho e doente, os seus ares de homem elegante, os seus habitos mundanos. Gostava do mundo, e tinha bom gosto, porque mal se chega a comprehender a mania, que teem alguns, de se sepultarem em vida na solidão da misantropia.

Duas coisas lhe não esqueceram nunca: as suas luvas, e uma flôr.

Nas bellas noites de S. Carlos, Freitas Jacome enflorava sempre a lapella da casaca.

E no theatro, na egreja, na rua, na Havanesa, jámais lhe esqueceram as luvas, que ás vezes não calçava, mas que não abandonava nunca.

Dava gosto vel-o na sua cadeira de S. Carlos, grave, attento, tendo o ar de um diplomata pomposo. Tendo visto nascer o romantismo em[{201}] Portugal, fôra romantico de convicção e, como tal, adorava a musica italiana, saboreava-a, a goles de audição, como se fosse um licor esquisito, divino.

Verdi servia-lhe á phantasia uma especie de champagne capitoso, que o embriagava docemente.

Bellini e Rossini, dois copeiros da cava celeste, enchiam-lhe a taça do prazer de um tokay generoso, unico.

E, de resto, tinha rasão, porque ainda não houve quem lhes podesse apagar os nomes na grande téla da immortalidade. Meyerbeer, uma aurora boreal, Mozart, uma estrella, Wagner, uma nublosa, passam hoje por todos os palcos do mundo, mas, sem embargo, as partituras italianas hão de illuminar-se sempre d'esse doce luar de sentimentalismo, que faz a delicia do coração.

N'essa atmosphera fôra educado Freitas Jacome. Nos combates romanticos, da musica e da poesia, fizera as suas primeiras armas. Seguia o exemplo de Garrett no vestir e no pensar, amava o romantismo em si e nos outros. Não podia nivelar-se com esse grande homem na riqueza do intellecto, mas, no que podia ser assimilavel, imitou-o. Não podia medir-se litterariamente com Castilho, mas versejou a exemplo d'elle em honra das divas do Olympo lyrico, porque Castilho, com ser cego, glorificou[{202}] na lyra o feminino da opera, a Agostini, a Bernardi, a Gazzaniga. Admirador de Herculano, uma das tres entidades gloriosas da trimurti romantica, não o imitou nos processos de vida rustica e meditativa: para solitario não tinha geito Freitas Jacome.

Faz-me pena vêr morrer um homem que soube aproveitar o mundo como elle é e que, já combalido pela doença e desalentado pela velhice, poz o seu chapeu, pegou nas suas luvas, e foi para a rua esperar a morte, que não ousou atacal-o de cara, como a todos os tristes e a todos os fracos.

Freitas Jacome morreu em plena rua, como Molière morreu em plena scena, n'um esforço de coragem.

Lisboa, esta Lisboa que elle tanto amava, viu-o passar no seu ultimo passeio de vivo minutos antes de cahir morto. Mesmo doente, a vida exterior attraira-o. Em vez de pedir uma tisana ao medico, planeou o seu jantar d'aquelle dia, saiu, recebeu o ultimo golpe de luz que cahia do ceu de Lisboa, e morreu ouvindo o ruido da grande cidade, que fremia em torno d'elle.

E todavia Freitas Jacome era provinciano!

Muitas vezes lhe ouvi dizer que nascera em Thomar, cujas bellezas naturaes recordava, mas para um homem que gostava do mundo, e que tanto se interessava por elle, o mar de lona de[{203}] S. Carlos era mil vezes preferivel á corrente authentica do rio Nabão.

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Fallava-se muito dos irmãos Andrades, que já tinham cantado no Porto com a Sembrich, mas, cantar em Lisboa tendo nascido em Lisboa, caso era para uma certa curiosidade, direi mesmo para um certo receio.

Todos nós nos lembravamos de ter visto esses dois rapazes pôr pela primeira vez chapeu alto.

Foi outro dia, ainda.

E quando se principiou dizendo que elles cantavam bem, havia sempre uma voz judiciosa que ponderasse:

—Ora adeus! Se elles ainda outro dia pozeram chapeu alto!

Christo dissera uma vez uma palavra profunda e sabia, como todas as suas palavras: que ninguem chega a ser propheta na terra em que nasceu.

Por que será isto assim?

É porque, talvez, o que em grande parte contribue para fazer a gloria dos homens é não tanto o seu merecimento como a sua lenda.

Desde o momento que a gente apenas conheça, nua e crua, em toda a sua exactidão, a[{204}] biographia de qualquer homem, vê-o unicamente pelo que elle possa ter de vulgar, de vulgarissimo, e julga que tudo o que constitua a individualidade d'esse homem ha de ser vulgar, vulgarissimo, tambem.

Mas, quando se dá exactamente o contrario d'isto, quando primeiro se conheceu a lenda do que a biographia, então principiamos a vêr o semi-deus no homem, divinisamol-o ao capricho da nossa imaginação e da dos outros, porque a lenda não é outra coisa senão o que a imaginação de muitos sonha a respeito de um só...

Se nos disserem que, no dia em que Adelina Patti nasceu, um rouxinol foi cantar sobre o seu berço, como para prophetisar-lhe que ella seria a rainha do canto, acreditamos facilmente.

Ainda mesmo que a Patti tenha nascido no inverno, ainda mesmo! acreditamos que o rouxinol cantasse.

Por que? Porque da Patti o que primeiro conhecemos foi a lenda, e, como já estamos habituados á lenda, nem mesmo chega a fazer-nos mossa ouvir cantar um rouxinol no inverno.

Mas dos Andrades o que primeiro conhecemos não foi a lenda, foi a biographia. Tanto peior para elles.

Viessem dizer-nos que quando os dois irmãos nasceram, seu pae, o tabellião José Justino, viu[{205}] e ouviu um rouxinol começar a cantar sobre o berço de um e outro, como se o rouxinol viesse milagrosamente a vaticinar que o Antonio havia de ser tenor, e que o Francisco havia de ser barytono! Pois sim! Conta-lhe d'essas!—diriamos nós—rouxinoes! quaes rouxinoes nem qual historia! o que elle ouviria talvez seriam os pintasilgos da casa de jantar... Sempre o José Justino tem coisas!

Depois, todos haviamos conhecido os dois Andrades ainda pequenos, todos os tinhamos visto assistir aos espectaculos do Gymnasio no seu camarote de familia.

Por tal signal que riam a bandeiras despregadas com as pilherias do Taborda. E todos haviamos verificado que elles riam como as outras pessoas,—um pouco estavanadamente como todos os rapazes da sua edade.

Onde estava n'isto a lenda?

Voz podiam elles ter; lenda é que não tinham.

Pois foi n'estas circumstancias, realmente difficeis, que os dois Andrades appareceram no palco do theatro de S. Carlos.

Receiava-se...

Suspeitava-se...

Tremia-se!...

Que falta faz uma lenda!

Mas os dois artistas antepozeram o gosto de cantar na sua terra natal a todas as considerações[{206}] pelas reticencias e pelas reservas dos seus conterraneos.

E, uma vez resolvidos a cantar,—cantaram.

E, depois que cantaram, ficou-se sabendo que elles sabiam cantar.[{207}]