I
Minha mãi era nervosa, hypocondriaca, apprehensivel.
Eu nasci portanto sob a influencia fatal da predisposição hereditaria; recebi ao nascer um patrimonio do que se chama em medicina affecções dynamicas.
Era eu uma creança de sete annos e vivia sob a vigilancia d'uma criada fanatica, que me fallava todos os dias, ao anoitecer, da resurreição dos mortos, do inferno e do diabo.
Minha mãi, que não assistia a estas praticas quotidianas, não abdicava porém todos os seus direitos educativos.
Quem me educava o espirito era a criada; quem velava pela minha saude era minha mãi. Resguardava-me{190} o peito com flanellas, prohibia-me que comesse fructas, e não me deixava expôr ao ar, no quintal.
Meu pai, cuja vida agitada o trazia sempre por fóra de casa, oppunha-se, nas poucas horas que demorava no lar, a este regimen anti-hygienico. Todavia, como eu estava sempre ao pé de minha mãi, cada vez se me arraigavam mais no espirito os seus habitos.
N'esse tempo a gymnastica era um exclusivo dos acrobatas. Uma creança que subisse ao trapezio nivelar-se-hia com os filhos dos saltimbancos.
Meu pai, que tinha lido por curiosidade um pouco de hygiene, propoz tomar-me um mestre d'esgrima e de gymnastica. O preconceito d'aquelles tempos oppoz-se. Meu pai, que não tinha tempo para estas luctas familiares, desistiu.
Estudava eu instrucção primaria.
O professor dizia a minha mãi que eu tinha certa vivacidade intellectual, e que me devia destinar para um curso superior. De dia estudava as minhas lições; á noite lia a Biblia á mesa do chá.
Iamos poucas vezes ao theatro.
As noites de nossa casa eram tristes.
Meu pai jogava com alguns amigos; minha mãi seroava; eu lia, e a criada rezava ao som da minha leitura.
Não sei porque, mas eu odiava o theatro.
Talvez pela criada velha me ter dito um dia que se não salvava quem morresse n'um espectaculo...{191}