III
Quiz meu pai que eu frequentasse o lyceu.
Estudei francez, e logica nas aulas publicas.
Os rapazes que me cercavam eram alegres, inquietos, robustos.
Esta circumstancia prejudicou-me ainda; eu comparava-me com os meus condiscipulos e achava-me rachitico.
Vencidas estas disciplinas, estudei inglez e geographia.
Comecei a gostar muito dos poetas inglezes, e a interessar-me pela poesia.
Um dia, um rapaz meu condiscipulo emprestou-me a Menina e moça de Bernadim Ribeiro. Esse livro produziu-me uma impressão suavissima; pedi mais livros, e li-os todos.{194}
Quando meu pai fez annos, escrevi-lhe umas quadras que conservo ainda; eram simplesmente desastradas.
Todavia continuei a ler, e, quando acabei os preparatorios, estava doudamente namorado pela litteratura.
Os negocios de meu pai corriam mal, e tive de renunciar a idéa d'um curso superior. Meu pai propoz-me o commercio, e eu aceitei o alvitre. A esse tempo tinha esboçado um poemeto no genero archaico. Quando entrei para um escriptorio commercial, estava ainda o poemeto incompleto. O meu patrão era boçal. A sua presença exercia no meu animo uma influencia tyrannica.
Quando elle voltava costas, ia eu escrevendo no poemeto. Um dia surprehendeu-me nas minhas lucubrações poeticas, quiz ver o meu autographo, desatou a rir alarvemente, e despediu-me. Entrei em casa triste, concentrado, apprehensivel.
Tinha então dezoito annos.
A criada velha havia-me perguntado muitas vezes se eu já tinha sido convidado para a maçonaria.
Certo dia li n'uma folha um artigo que desvendava a cegueira popular sobre a maçonaria.
Eu não conhecia bem o espirito d'esta associação, mas sympathisei com a maneira porque o jornal desfasia os preconceitos do povo, que eram tambem os meus. Comecei então a pensar na grandeza do problema social que a imprensa se propunha resolver. O{195} jornalismo afigurou-se-me a mais poderosa alavanca dos povos modernos, porque tinha o seu ponto de apoio no pensamento humano.
Informei-me sobre a dignidade dos periodicos de aquelle tempo, e soube que o mais digno era portanto aquelle com que mais eu sympathisava.
Procurei o redactor, e pedi-lhe um lugar na sua folha. O jornalista procurado, que me pareceu um cavalheiro, sorriu do meu denodo, das minhas illusões talvez, e aceitou-me. Comecei por ser traductor e revisor, e tirava d'essa tarefa salario de que repartia com meu pai.{196}
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