VI
Por que foi que D. João III escolheu, entre todos os prelados portuguezes, o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, para ir á fronteira esperar a princeza?
Houve, para isso, razões especiaes.
Frei João, religioso eremita de Santo Agostinho e varão distincto em letras, tinha sido mestre do herdeiro da corôa e de seu irmão D. Filippe[[28]], alem de ser prégador e confessor de el-rei, o que bastaria a explicar a preferencia.
[28] D. Filippe foi o 6.o filho de D. João III. Pela morte de seus irmãos, chegou a ser jurado herdeiro do reino. Falleceu com seis annos de edade.
Das virtudes que a Historia genealogica[[29]] attribue a D. Frei João Soares, não se pode falar com tanta segurança como de suas letras; Alexandre Herculano[[30]], baseando-se n'umas instrucções de Paulo III, attribue lhe audacia e ambição; vida dissoluta; espirito de rebellião contra a Santa Sé.
[29] Tom. III, pag. 552.
[30] Da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal.
É verdade que os diocesanos de Coimbra o estimaram; que os pobres e os necessitados recebiam d'elle esmolas; que favoreceu a Misericordia d'aquella cidade; que doou á respectiva Sé muitos guisamentos, entre os quaes um valioso cális de oiro; e que na mesma Sé mandou construir a capella do Santissimo, de galante e excellente architectura[[31]].
[31] Noticia historica e descriptiva da Sé Velha de Coimbra, por A. M. Simões de Castro.
Toda a diocese o pranteou na morte, o que parece mostrar que era mais estimado em Coimbra do que em Roma.
As instrucçóes de Paulo III, citadas por Herculano, tambem o dão como frade de poucas letras.
Ora isto não é exacto. D Frei João Soares produziu obras varias[[32]], em que affirmou competencia doutrinaria e dicção gentil. Como prégador, se a principio não agradou em Portugal, porque discursava em castelhano muito cerrado, pois havia estudado em Salamanca, chegou depois, quando readquiriu o manejo da lingua portugueza, a ter grande fama e clientela. Não se pode exceder o elogio que lhe faz Frei Luiz de Souza: «Foi eminentissimo no ministerio do pulpito; tanto que os maiores pregadores do seu tempo lhe reconheciam a vantagem, e como a segundo Demosthenes o veneravam[[33]].»
[32] Veja-se Dicc. Bib., de Innocencio, vol. IV, pag. 38, vol. X, pag. 350.
[33] Vida de D. Frei Bartholomeu dos Martyres, liv. II, cap. XVII.
Alem d'estes predicados literarios, possuia especial graça no dizer, dom natural que não seria o menos attractivo para lhe conquistar sympathias e facilidades na côrte.
D. Frei João Soares nasceu em S. Miguel de Urró, concelho de Arrifana, hoje Penafiel. Parece que pertenceu a uma familia illustre, pois que elle algumas vezes assignou tambem o appellido Albergaria.
Foi deputado do Santo-Officio, e governou a diocese de Coimbra desde 1545 até 1572; como prelado portuguez, assistiu ao concilio de Trento, onde o respeitaram como orador e theologo.
Falleceu com 65 annos de edade a 26 de novembro de 1572. Por humildade quiz ser sepultado no chão, fóra da capella do Santissimo que mandára edificar.
Se algum defeito toma maior vulto na individualidade d'este prelado, é o gosto pela ostentação.
Conta Frei Luiz de Sousa que se apresentou no concilio de Trento com um fausto proprio de principe secular, fazendo-se representar com esplendor e magnificencia notaveis.
«E porque se visse--diz o chronista dominicano--que fôra isto força do estado, mais que de animo vão, passada a occasião do Concilio se poz em caminho de Jerusalem recompensando com a moderação de peregrino voluntaria, as superfluidades de senhor forçadas.»
Talvez que este procedimento fosse determinado por indicação ou censura da Santa Sé, a qual, como já vimos, não lhe era demasiadamente affecta.
A tendencia do prelado conimbricense levava-o effectivamente para a ostentação.
Na commissão que desempenhou com o duque de Aveiro, quando foi á raia de Castella buscar a princeza D. Joanna, já havia pompeado o mesmo esplendor e magnificencia que depois exhibiu no concilio de Trento.
Um manuscripto de Pedro Alvares Nogueira, existente no cartorio do cabido de Coimbra, diz sobre o modo por que o bispo desempenhou aquella commissão: «Levou muita gente de cavallo mui bem concertada, no que gastou muito de sua renda».
A Chronica attribuida a D. Manuel de Menezes ainda é mais explicita quando diz:
«Não menos adornado (que o duque de Aveiro) veiu o Reverendo Bispo D. Frei João Soares, com grande numero de cavalleiros, nobremente ataviados, conforme o seu estado; e a sua divisa, que trazia nos reposteiros eram suas Armas, e a letra que dizia: Soli Deo honor et gloria, e quer dizer: A honra e gloria se dê somente a Deus. E isto com muitas trombetas, e charamelas, e outros instrumentos, e cantores para o effeito de tão regia funcção, como convinha».
O chronista Francisco de Andrade afina pelo mesmo diapasão, dizendo:
«O bispo de Coimbra tambem por sua parte se apercebeu para esta jornada com o fausto e apparato, que se requeria para a honra d'este reino, para a auctoridade de sua pessoa, e para o grave negocio para que fôra eleito, porque ajuntou para o acompanhar muita e muito lustrosa gente de cavallo, e os que o acompanhavam a pé tambem iam da mesma maneira, e não lhe faltou então cousa alguma de quantas se uzam, e são importantes e necessarias nos negocios d'esta qualidade, sem perdoar por isso a grandes gastos e despesa».
Apenas uma voz zombeteira se levantou para tirar effeitos comicos do apparato com que o bispo de Coimbra entrou em Lisboa quando se dirigia á raia de Castella.
Apenas um carcaz despejou todas as suas settas, vibradas por adestrada mão, em menoscabo do cortejo que rodeiava o bispo de Coimbra, conde de Arganil, senhor de Coja, alcaide-mór de Avô.
Essa voz foi a de Antonio Ribeiro, o Chiado, cuja carta sobre este assumpto lembra os artigos dos jornaes republicanos de hoje em dia quando procuram amesquinhar a pompa das festas monarchicas.
N'aquelle tempo, não deixou de ser um acto de perigosa audacia a satyra com que o Chiado visou tão alta personagem como era o bispo de Coimbra, em occasião tão solemne para a côrte como era o casamento do principe herdeiro da corôa.
Aggravado o bispo, el-rei o desagravaria contra quem quer que fosse, se elle se queixasse.
Do valimento do prelado conimbricense junto de D. João III não ha que duvidar; bastava a justifical-o a sua qualidade de confessor d'el-rei, e não chega a ser preciso admittir, como se diz nas instrucções de Paulo III, que a pretexto da confissão obtivesse a solução de muitos negocios.
Chiado era, porém, destemido como todos os bohemios e dizidores do seu tempo, incluindo o proprio Camões. E a fortuna ajuda os audazes... pelo menos algumas vezes. Não consta que Chiado fosse molestado por causa d'esta sua satyra em prosa, de que talvez o bispo nem chegasse a ter conhecimento.
Simula o auctor escrever a um seu amigo de Coimbra, visto que lhe diz--«estas novas da entrada do vosso bispo.»
É um artificio literario, para justificar a origem da satyra. Manifestamente, vindo o cortejo de Coimbra, não precisava ninguem d'aquella diocese que lhe dessem novas do modo como vinha organizado. Lá o saberiam perfeitamente ou perfeitamente o poderiam saber.
Tambem, por outro artificio literario, diz o Chiado «que não viu a entrada do bispo em Lisboa». Mas tão minuciosamente a descreve que bem se reconhece ter sido testemunha presencial. D'este modo, abria uma valvula de segurança para o caso de lhe imporem a responsabilidade da satyra: teria feito obra por informações inexactas.
Claramente se percebe que o Chiado viu a chegada do cortejo plantando-se entre a multidão em alguma rua do transito e chasqueando no meio de um grupo de clientes que lhe admiravam a veia sarcastica.
A sua narração é a de um impressionista, que surprehendeu o espectaculo em flagrante.
E tal homem como o Chiado não poderia estar calado nem indifferente por muito tempo, quando toda a população de Lisboa se alvoroçava para assistir a um acontecimento anormal, muito annunciado e não menos pomposo.
A carta de Chiado é, segundo o moderno falar, uma charge; pertence aos dominios da caricatura escripta, que madrugou com os primeiros alvores da nossa literatura, antecipando-se alguns seculos á caricatura desenhada.
Assim é que já no Cancioneiro da Vaticana encontramos a seguinte chistosa caricatura de um cavalleiro da idade-média:
caval'agudo que semelha forom, em cima d'el un velho selegon, sem estrebeyras e con roto bardon, nem porta loriga, nem porta lorigon, nen geolheiras quaes de ferro son, mays trax perponto roto sen algodon, e cuberturas d'un velho zarelhon, lança de pinh'e de bragal o pendon, e chapel de ferro que x'i lhi mui mal pon; e sobarçad' un velh' espadarron; cuytel'a cachas, cintas sen forcilhom, duas esporas destras, ca sestras non som, maça de fusto que lhi pende do arçom.
Etc.
Este fragmento é o avô da caricatura portugueza nos dominios da literatura.
Vamos vêr como Antonio Ribeiro o Chiado, navegando nas mesmas aguas, caricaturou ao correr da penna a entrada do bispo de Coimbra em Lisboa com todo o seu cortejo de pagens, escudeiros, varletes, azemolas, trombetas, atabales e charamelas.
Diz o documento, tal como se me deparou na miscellanea, que pertenceu á livraria do convento da Graça:
Carta que o Chiado escreveu a um seu amigo da entrada do Bispo de Coimbra em Lisboa, quando veio para ir pela Princeza a Castella que é mãe d'El-Rei D. Sebastião.
Quereis saber quanto póde a importunação, que muito contra minha vontade vos escrevo estas novas da entrada do vosso bispo n'esta cidade, só por cumprir com o que tanto me tendes rogado. Vêde-as em nome de quem quizerdes, que eu não quero senão fallar comvosco.
Deixarei sua estada no Lumiar, que durou tres dias, onde preparou e proveu de sapatos, de pescoços[[34]] e atacas[[35]] toda a sua gente, que vinham algum tanto damnificados do caminho.
[34] Como quem diz--gargantilhas
[35] Ligas, correias, etc.
N'este tempo foi Sua Senhoria mais nomeado por Lisboa que assada quente[[36]] e todos com olhos longos por sua entrada, a qual eu não vi. Dizem que a 25 de outubro de 553 annos ás tres horas depois do meio dia entrou o vosso bispo, o qual vinha na maneira seguinte, todos de dous em dous, como cachos em redea[[37]], sómente as azemolas, se o eram, vinham um cacho por redea:--Primeiramente vinha deante de tudo um villão, por nome Amador Colaço, a quem a natureza negou barbas, o qual foi moço de pé d'este bispo, que a ventura bem casou nessa cidade, em cima de um rocim de meia sela, chapeu branco, vestido preto com peças d'ouro em certos logares, que denunciam festa, o qual, como se o villão do almocreve, desordenava, tornava atraz e tirava o pé do estribo, que era um madeiro, e pegava-lhe, cousa que lhe fazia mostrar as bragas que o capotim de côr traria coberto de más linguas.
[36] Allusão ao pregão das castanhas assadas.
[37] Restea de uvas; isto é, reste de cachos de pendura (Moraes). Reste, corda feita de peças trançadas; v. g. uma reste de alhos, de cebolas, etc.
Quarenta bestas vinham n'esta ordem, suas mataduras cobertas com reposteiros que lá se fizeram. Já sabeis quejandos eram.
No couce vinham duas escolhidas para aquella hora, que traziam cama e cofre, acompanhadas de seis villãos, cada um com sua partezana nas mãos, tão frouxos que os desarmariam sem gafas[[38]]; e logo no rabo vinha um estribeiro, que o outro bispo creou, tão triste e descontente que parecia que se arrependera do que accettara.
[38] Sem gafas, o mesmo que--sem esforço, nem violencia. Gafa era o gancho com que se puxava a corda da bésta para armal-a.
Nas costas d'estes todos vinham a procissão da gente, onde não faltaram cavallinhos fuscos. Só o sagitario esqueceu.
Vinha deante um molho de trombetas; em vez de virem vermelhas vinham amarellas, e logo os atabaleiros que já não traziam braços.
Os das charamelas, já sabeis que são pão de rala, não puderam mudar cor. Como uns acabavam uns versos, outros começavam, sempre os ouvidos tinham que fazer, como os olhos que vêr. As cavalgaduras d'estes todos eram ossos sem posta de polpa.
Detraz vinham trinta moços da camara, todos almagrados,[[39]] os quaes parece que os comprou o bispo por junto e lhes deram as encavalgaduras todas em cima, e de chapeus brancos, como romeiros, e os mais delles com calças e sapatos, sem espadas, gente religiosa, algum tanto no vestir castelhanos, porque quem levava luvas faltavam-lhe as esporas.
[39] Pintados de almagre ou almagra; isto é, de vermelho.
E logo na dita ordem vinham os coimbrãos tão tristes e descontentes, que pareciam que perderam todos suas fazendas. Nomear um por um será muita honra sua e canceira minha e enfadamento vosso; basta que alguns d'elles traziam frenos[[40]] de ouro, mas mal pelas mulheres que ficam sem arrecadas, todos em cavallos de tornas, tirando o chanceller que vinha momo feito, outrosim pagem do arremeção,[[41]] que não havia mais no sel'o.[[42]]
[40] Freios.
[41] Talvez pagem da lança, porque arremessão (melhor graphia que arremeção) significava, segundo o Dic. da Academia, qualquer arma missiva ou de arremesso, como lança, dardo etc.
[42] Isto é, mais acabado e perfeito.
Inofre Francisco vinha bem acompanhado e bem encavalgado, todos os seus feitos rosmaninhos[[43]] e bem encavalgados. A todos pareceu bem; só um senão lhe acharam, que não levava o ferro do arremeção esfolado.
[43] Engalanados. Hoje diriamos--uns palmitos.
O meirinho Gaspar Dias não se achava ahi sem vara, acompanhado de dous beleguins, que lhe foram sempre fieis, um lhe trazia um cabresto com que vinha silhado, o outro lhe trazia uma ferradura que lhe cahiu no campo de Alvalade.[[44]]
[44] O Campo Grande actual, com a differença de que n'aquelle tempo era bosque silvestre, muito povoado de rouxinoes, como se vê da Ulysippo de Jorge Ferreira de Vasconcellos, quando diz (acto IV, scen. 5.a): «Vós estaveis mais namorado que um rouxinol de Alvalade.»
Só no reinado de D. Maria I foi que o campo de Alvalade começou a ser transformado em alameda publica.
Os mais, que aqui não vão, traziam tanto que dizer que será nunca acabar. Quando nos virmos ambos, então vos representarei a farça.
Passado este chuveiro d'escudeiros tornou melhor dia, Arthur de Sá e Francisco Pereira, seu irmão, honestos no trajo, confiados na fidalguia. Mas então disseram que trazia Arthur de Sá feita a petição do morgado, perguntando uns aos outros quanto renderia o praso.
E n'isto appareceu Dom João, Bispo Conde, tres pessoas, um só frade, cercado de vinte e tantos villãos, que todos pareciam paes d'orfãos de Jesus, desazados, barbas d'estrigas, todos molares, sem vir entre elles nenhum só duvazio, vestidos em uns alqueceres[[45]] brancos e azues, que lhes davam pelos artelhos. O mais que de S. S.a disseram, não direi eu por não pôr a mão em sagrado.
[45] Alquice ou alquicer, capa mourisca.
Toda a outra clerezia vinha má com boa, como romãs de Castella, esta ordem levaram todos pela Rua dos que padecem martyrio,[[46]] levando nas unhas[[47]] o Rocio e toda a Rua Nova[[48]] até chegarem ao Terreiro do Paço, donde muitos descavalgaram sem criados, ficando os ginetes tão mansos, que nem as apupadas dos rapazes, nem o rumor da gente teve poder para os fazer rinchar.
[46] Era a rua que, tomando se por ponto de referencia o Rocio, conduzia ao Campo de Santa Barbara, então chamado da Forca (Lisboa antiga, 2.a parte, tomo V, pag. 65 e 78; tomo VI, pag. 65 e 68.) Não quero asseverar que correspondesse á actual rua direita dos Anjos, porque o Campo da Forca era muito mais vasto então; estendia se desde o sitio dos Anjos até ao actual largo de Arroyos.
[47] Ainda hoje dizemos «na ponta da unha» para designar a maxima velocidade.
[48] A Rua Nova dos Ferros correspondia, approximadamente, á actual rua dos Capellistas. Diz-se que foi mandada construir por el-rei D. Diniz.
El-Rei nosso senhor, com a Rainha e Principe, os esperavam na varanda, onde lhes S. S.a beijou as mãos e lhe fizeram arrazoado agazalhado. Acabado elle os dous irmãos Sá Pereira fizeram outro tanto e apoz estes, «cabeça em cu, que não fique nenhu». Alvaro Mendes, contador da Universidade, foi por cá.
Acabado o officio, tornou-se Sua Senhoria a seus paços, e ao descer da escada encostado a um pagem, que dizem ser seu sobrinho, o qual fez muito ruins mesuras, vinha caiado de novo, trazia umas pontinhas de ouro no capello da capa d'onde nunca tirou o olho, que tão recatado vinha da tezoura.
Ao bispo tornaram a arripiar carreira algum tanto a procissão desfeita, fazendo cada um caminho para suas pousadas, e de maneira os enguliu Lisboa, que nunca mais appareceram nem fizeram mossa.
Isto tudo passou na verdade, que m'o disseram homens de respeito. Se mais quizerdes peitae lampreas[[49]], que os homens d'essa terra n'isso desenfornam todos seus cumprimentos. Nosso Senhor vos dê muita saude e vida e muito dinheiro, e vos livre d'estas trovoadas que o tiram e gastam.»
[49] Comprai-me, subornai-me com lampreas. Vê-se que sempre tiveram grande fama as lampreas do rio Mondego; e que de Coimbra as mandavam como mimo para outras terras do paiz. Era gentileza vulgar dos conimbricenses. A lamprea cozinhada na famosa estalagem do Paço do Conde foi, em nossos dias, um piteo muito celebrado por estudantes.
Esta carta, que não pudemos encontrar em 1889, não completa ainda o espolio literario do Chiado, porque não tem sido possivel encontrar exemplares de outras especies, taes como o Auto de Gonçalo Chambão, que, segundo Barbosa, teve nada menos de trez edições.
Mas constitue um achado, que reputei feliz, e que me deixou contente quando se me deparou n'uma epoca em que eu versava com enthusiasmo assumptos literarios.
Se hoje dou a lume esta carta de Chiado, foi porque para esse effeito encontrei as maiores facilidades n'uma empreza editora, que se tem assignalado por bons serviços ás letras patrias.
Não é que eu fie do exito d'esta monographia e fique imaginando que hão de acudir a compral-a numerosas legiões de leitores.
Em Portugal só o romance francez tem procura no mercado.
Qualquer outra especie literaria representa um desastre de livraria.
Por haver chegado a esta convicção é que nunca pensei em fazer segunda edição das Obras do poeta Chiado, que bem podia ter sido enriquecida com a materia do presente opusculo e com varias correcções que me foram indicadas, sobre a difficil interpretação dos textos, pelos srs. visconde de Castilho, Antonio Francisco Barata e professor Epiphanio.
Mas seria perder tempo, e o tempo é a vida. Esperdiçal-a era desatino. Poupemol-a.
Estou n'este ponto de vista ha muito tempo.
Lisboa, 9 de julho de 1901.