A livraria de Sampaio

Não ha nada que me entristeça tanto como assistir ao leilão de uma livraria, e comtudo attraem-me sempre esses espectaculos que me são dolorosos, e que se repetem em Lisboa quasi todos os dias.

São ordinariamente duas as causas que determinam este genero de leilões: a pobreza ou a morte. Qualquer d'ellas faz uma profunda impressão a todos quantos estimam os livros, não para os revender com lucro, mas para os ler com interesse. Os livreiros de profissão assistem a um leilão de livros com a indifferença profissional com que um medico assiste a uma operação cirurgica, e um enfermeiro á agonia de um moribundo. Estão á vontade, de chapeu na cabeça, fumando, commentando na giria do negocio o que se vae passando em torno d'elles, mas acompanhando sempre, com um fino olhar de raposa, a apparição dos livros e os movimentos do leiloeiro. E para um lado: Comprou bem; para outro lado: Comprou mal; ou, para um espectador{72} que lhe diz:—Quem comprou bem foi o senhor,—como se um livreiro pudesse comprar mal algum dia: Acredite que não ganho senão a encadernação.

Trata-se ás vezes de um livro, de uma obra que foi por muitos annos talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo fallido ou fallecido. Não a podia comprar por ser pouco vulgar no mercado ou muito elevado o seu preço; mas pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a possuiam, corría todos os alfarrabistas a procural-a, havia muitos annos; fez porventura um grande, um enorme sacrificio para a comprar, mas finalmente achou-a, adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria, mostrava o seu thesouro com orgulho: Veja lá isto! Que me diz a isto?—uma edição muito bem conservada, uma verdadeira preciosidade!

Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este mundo, excepto para os livros. A Victor Cousin emprestaram de uma vez um manuscripto de Mallebranche. Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser n'essa occasião ministro da instrucção publica em França, o dono do manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente. Cousin recusou-se a restituil-o. «Mas o manuscripto foi apenas emprestado, disse o intermediario; o dono exige-o, tem o seu direito.» «Sim, respondeu Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha paixão.» Nós cá, em Portugal, tambem temos bibliophilos d'este feitio, que se desculpam com a sua paixão, e vão ficando com os livros dos outros.

Livre preté, livre perdu, diz um proverbio francez. Os proverbios são filhos da experiencia, e convém por isso respeital-os. Gifanius respondeu uma vez a Gaspar Schopp, que lhe pedia emprestado um manuscripto de Simmaco: «Pedir-me emprestado o meu Simmaco! É como se me pedisse emprestada minha mulher!»

Uma livraria é um edificio que se constroe lentamente, dia a dia, e a que o proprio constructor não chega nunca a pôr a cupula. Por muito longa que seja{73} uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca, que se deixa sempre incompleta no momento em que a vida foge. Se essa bibliotheca é de livros antigos, se é classica, por muito que o bibliophilo investigue o passado, não consegue, á força de canceiras e dispendios, reconstruir toda a litteratura dos seculos que o antecederam. Ha sempre um thesouro encanado que elle não póde descobrir, que não póde achar. Se é moderna, é tão precipitado, tão febril o movimento litterario de nossos dias, que não seria possivel acompanhal-o ainda quando elle se não perdesse de vista um momento.

Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora a hora, com uma perseverança apaixonada, com um enthusiasmo sempre vivo, com uma fé sempre nova, e muitas vezes, por uma cruel sentença da sorte, desmoronado pela propria mão d'aquelle que o erigiu, e que primeiro despedaça o coração antes de derrubar a sua obra querida. Um dia vê-se obrigado a vender os seus livros, a atirar—elle mesmo!—esses volumes, tão amoravelmente guardados e lidos, para as mãos mercenarias dos livreiros—os gatos pingados da bibliographia—que fazem todos os funeraes das livrarias com a mesma indifferenca com que os outros arrancam os cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar na voragem do cemiterio.

«Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das grandes desgraças da vida? Vendei os vossos livros.»

Quasi todos os bibliophilos são ciosos dos seus livros; não consentem que ninguem lhes toque, muitos não querem que ninguem os veja. O cardeal Passionei tomou para o seu serviço um bibliothecario ignorante, e dava a razão d'isso: «A minha bibliotheca é o meu serralho: portanto, faço-a guardar por um eunuco.»

Mas se o bibliophilo se vê obrigado a vender os seus livros, a noticia de todos esses thesouros misteriosos, a revelação de todo o segredo da sua riqueza litteraria vae ser assoalhada em longos catalogos impressos, que{74} se espalham de graça, com uma publicidade profana, e esses proprios thesouros vão ser expostos a um publico de amadores e de vendilhões, de interessados e de interesseiros, que caem famintamente sobre elles, que os devoram com o olhar, que os disputam na praça, como se se tratasse apenas de uma barregã que se offerece ao publico, e se vende a quem mais der.

Até ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que alimentavam o fogo sagrado do espirito. Com ellas ninguem communicava profanamente. Só o sacerdote d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel, como o da festa da Bona Dea na Roma antiga. Mas uma chusma de Clodios ousados e sacrilegos invade o santuario, desacata-o, profana-o, commette um sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se Messalinas, offerecem-se do alto das estantes, com uma crua impudicicia mercantil, á cupidez daquelles que não duvidam abrir a bolsa para satisfazer um capricho da sua phantasia.

Mas n'um leilão de livros, que se faz pela morte do seu dono, a profanação é ainda maior—talvez!

Pensei n'isto durante o leilão da bibliotheca de Antonio Rodrigues de Sampaio.

Este homem que a posteridade não poderá esquecer, comquanto houvesse nascido obscuro, chegára no seu paiz ás mais altas honras politicas, fôra ministro varias vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente do conselho de ministros.

Á porta da sua casa—aquella mesma casa—ordinariamente fechada, batêra muita gente, timidamente, respeitosamente, para solicitar de Sampaio um favor. Todo o pretendente era introduzido por um criado na saleta, e ahi esperava, com o coração ancioso, que apparecesse, com o seu grande ar de bonomia, o velho Sampaio. Elle sabia bem o que era ter começado de baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau, e, ordinariamente, não se fazia esperar muito.{75}

Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena porta á esquerda: era a sua livraria. Estava ali sempre, quasi sempre, de dia. Á noite, recebia os seus intimos, e tomava regaladamente o seu chá, com o guardanapo ao pescoço, como um bibe, mostrando-se guloso por bolos finos.

Pois desde que o leilão começára, a porta da rua estava aberta de par em par, escancarada, franca para todos os que passavam, e que subiam á vontade, falando uns com os outros, rindo, não encontrando criado algum que lhes tomasse o passo, não vendo em logar nenhum o correio do ministro do reino, que por tantos annos fez estação n'aquelle portal—ninguem, nem uma só das pessoas que tambem por tantos annos habitaram n'aquella casa.

A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas, arregaçadas; das antigas alfaias apenas restava o candieiro de cristal. No sitio onde estivera o piano, entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de bibliophilos que esperavam o principio do leilão. Á porta do escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a que os livreiros abancaram. Enquadrada na porta, a ampla figura do pregoeiro, que mascava um charuto, emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros que primeiro haviam de ser postos em praça.

N'uma palavra, a morte profanára aquelle recinto que estava, para assim dizer, impregnado da individualidade de Sampaio. Havia em tudo aquillo um ar de terrivel devastação; parecia que o vento ardente do deserto passára por ali resequindo o coração de quantos haviam conhecido Sampaio. Sentia-se o simoun da morte que, ao passar, derrubara as alfaias e os livros, muitos dos quaes estavam amontoados no chão...

Não havendo catalogo impresso, o publico não sabia o que ia comprar. Esperava um pouco ao acaso que passasse por diante de si um livro bom; por isso, quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam{76} sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em pé estendiam curiosamente o pescoço para ler-lhe o titulo—ao menos.

Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos seus livros.

No leilão, vendeu-se um exemplar dos Sophismas parlamentares, de Bentham, edição de 1840, prefaciada por Elias Regnault. Arrematei-o para offerecel-o a Julio de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha traços sinuosos, rapidamente lançados, denotando certamente que Sampaio estava lendo com interesse e que, desejando marcar um pensamento original, não queria retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do que com o lapis; deixava apenas no papel um rapido signal indicativo para facilitar a busca.

Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por Sampaio.

No prefacio de Regnault estão marginados todos os que se referem ao poderio politico da imprensa. Por exemplo: «Á imprensa pertence a iniciativa; á camara, a sancção; á imprensa, a invenção; á camara, a realisação.» «Antigamente, as communas tinham um simples direito de petição para obter a reparação dos aggravos, hoje, a imprensa é uma petição perpetua.»

No texto, estão sublinhados, além de outros, estes pensamentos de Bentham:

«Entre individuos que vivem no mesmo tempo, e na mesma situação, o que é velho possue, por esse motivo, mais experiencia do que o novo. Mas entre duas gerações, posto se chame velha á geração que precede outra, não se póde sustentar que tenha mais experiencia do que a que lhe succede.

«Por conseguinte, reconhecer como mais velhas as gerações primeiras, é cair n'um erro tão grosseiro como o de chamar velho a uma creança de berço.

«Qual é, pois, a sabedoria d'esses tempos denominados{77} velhos? É a sabedoria dos cabellos brancos? Não, é a sabedoria dos moços imberbes.»

«Um homem morto não tem rivaes, e não faz sombra a ninguem. Não se encontra no caminho com os ambiciosos; e estes, mudando repentinamente de linguagem, dão-se, louvando-o, uns certos ares de justiça e benevolencia, que não lhes custam nada. O respeito pelos mortos fornece-lhes occasião de satisfazerem o seu odio pelos vivos.»

«Deante d'este talisman (a imprensa) desappareceram de vez os diabos, os espectros e os vampiros. A agua benta fez-lhes muito menos mal que a tinta de imprimir.»

Ainda mais alguns aphorismos:

«Uma opinião insensata leva a um procedimento insensato; um procedimento insensato produz crueis desastres; d'esses desastres vem o mais util ensinamento.

«É pois, á loucura dos nossos antepassados, e não ao seu saber, que se deve pedir conselho; e é por isso que os sophistas invocam sempre a sabedoria dos velhos.»

«Em resumo, toda a formula que coarcta a soberania é absurda; toda a lei que a si mesma se declara irrevogavel, é perigosa.»

«Qualquer lei, feita em dadas circumstancias, não póde durar mais do que essas circumstancias.»

«A resistencia não é um direito; o triumpho, sim. Resisti, e Blackstone vos condemnará; mas triumphae resistindo, e Blackstone vos adorará.»

De quantos livros se venderam no leilão Sampaio, um dos mais annotados era com certeza a Histoire des origines du gouvernement representatif en Europe, de Guizot, edição de 1851. Duas passagens d'esta obra, sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas, que não pude entender. Mas as sublinhas a lapis são tão frequentes, sobretudo em certas passagens, que chegam a tracejar toda a pagina.

Um dos trechos sublinhados é o que respeita á theoria da soberania:{78}

«A idéa mais geral, que se póde procurar n'um governo, é a sua theoria de soberania; isto é, a maneira por que elle concebe, colloca, e attribue o direito de dar e de fazer executar a lei na sociedade.

«Ha duas grandes theorias de soberania.

«Uma procura-a e colloca-a nas forças reaes que existem sobre a terra, qualquer que seja a força: povo, monarcha, ou principaes do povo. Outra sustenta que a soberania de direito não póde existir na terra, e não póde ser attribuida a força alguma, porque não ha força terrestre que conheça e queira inalteravelmente a verdade, a razão e a justiça, unicas fontes da soberania de direito, que devem regular a soberania de facto.

«A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto, seja qual fôr a fórma de governo. A segunda combate o poder absoluto sob todas as fórmas, e não reconhece em caso algum a sua legitimidade.

«Não se diga que qualquer d'estas theorias reina exclusivamente nos diversos governos. Ao contrario, misturam-se n'uma certa medida, porque não ha nada que seja completamente destituido de verdade nem inteiramente isento de erro. Todavia é sempre uma ou outra que predomina em cada fórma de governo, e que póde ser considerada como seu principio.

«A verdadeira theoria da soberania, isto é, a illegitimidade radical de todo o poder absoluto, quaesquer que sejam o seu nome e logar, é o principio do governo representativo.»

O estudo feito sobre as passagens sublinhadas ou annotadas por Sampaio é altamente curioso como elemento critico para a caracterisação historica do annotador.

Não foi, porém, isso que desejamos fazer. Propuzemo-nos apenas lançar no papel as impressões que nos deixou o desmoronar da sua livraria. Ellas ahi ficam expostas com a sinceridade que sempre tivemos para com o illustre jornalista, e que elle sempre teve para comnosco.


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