Actores celebres

Conheci muito bem no Porto o actor Marcolino, já alcachinado pela terrivel doença que o matou. Soffria da spinal-medulla; estava perdido. Vivia n'um pequeno chalet alcandorado pittorescamente sobre a praia dos Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por piedosa convenção, o ar do mar.

Marcolino era um actor comico de subido merecimento, muito estimado em Lisboa. A doença afastou-o do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto que o conheci, e eu podia então dizer com Thomaz Ribeiro:

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;
mãe de sabios, de heroes, crime e virtude;
golfão de riso e dôr, que ora serena,
ora referve e escuma em sanha rude.

Mal pensava eu então que, annos volvidos, viria fixar residencia em Lisboa, mais attraido pelo seu movimento litterario e artistico do que pelas magras sopas que o orçamento me offerecia n'um prato de estanho.{140}

Concorri com Marcolino, durante tres noites, a um oiteiro no convento de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes de hoje não sabem o que era um oiteiro. Pois deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus litterarios, que a tradição da extincta Arcadia conservou ainda por muito tempo. O oiteiro era o festival com que se celebrava a eleição da abbadessa em cada convento. Durava tres dias e tres noites. N'outro tempo, as freiras diziam das janellas para o pateo os motes que os poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador de oiteiros. No meu tempo, as coisas tinham mudado já. Havia recepção na grade da abbadessa. O feminino superior do convento sentava-se, dentro da grade, em semicirculo, dando a presidencia á prelada recentemente eleita. Fóra da grade havia um piano, um bufete permanente, e o masculino preciso para mundanisar a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se. O mote era ainda obrigado, mas não constituia o unico elemento essencial da festa, como n'outros tempos.

Foi n'esse oiteiro que eu ouvi Marcolino recitar, não uma poesia comica, como se poderia esperar do genero que elle tão distinctamente cultivava no theatro, mas uma poesia lirica, A borboleta, de Thomaz Ribeiro, que elle disse com um notavel primor de interpretação.

Estou a vêl-o, e a ouvil-o ainda:

Eu conheço-a! oh, se a conheço!
sempre volitando anciosa,
esbelta, fugaz, airosa,
esquiva, amante, esquecida,
eterno enygma na vida!...
Eu conheço-a! ah, se a conheço!
Estimo-a; estimal-a é grato;
quero entendel-a... endoideço!

As freiras (comquanto n'esta designação generica fossem incluidas muitas coristas, algumas d'ellas gentilissimas) ficaram encantadas de ouvil-o, e nós, os homens,{141} tambem. Marcolino teve uma ovação estrondosa: creio que foi a ultima da sua vida.

Eram duas horas da noite quando saimos da grade, e eu lembro-me ainda de que me despedi em verso n'um improviso de que apenas sei hoje as ultimas rimas:

Tenho esta noite glosado
Versos a esmo, a granel.
Consenti, minhas senhoras,
Que eu d'esta feita termine
E que a vossos pés se incline
Vosso servo: Pimentel.

Eu era então uma creança. Mal me penujava o buço. Mas que alegria, que felicidade a minha n'aquella noite! Á saida, as gentilisimas pensionistas vieram ainda despedir-se de nós á portaria. Uma d'ellas era filha natural de um antigo conde do Minho; morreu pouco depois. Outra era minha prima: quarenta annos e uns olhos, que não tinham mais de vinte. Tambem já morreu. Em Lisboa ha uma unica pessoa que póde lembrar-se do oiteiro de S. Bento, porque tambem lá esteve: o escriptor Souza Viterbo, que, n'essa noite, com grande applauso da assistencia, glosou um mote n'um soneto, façanha comparavel á de ter mettido uma lança em Africa.

Foi tambem no Porto que eu conheci o Santos Pitorra, como dizia toda a gente, sem embargo de elle ser, pelo seu altissimo valor artistico, o grande Santos.

A companhia do theatro de D. Maria II, de que Santos era então um dos empresarios, dera alguns espectaculos no Porto, eu frequentava os espectaculos e os ensaios, o palco e o foyer, e escrevi por essa occasião, julho de 1873, uns versos, que se intitulavam Lirios, e que Emilia Adelaide recitára.

Por tal signal que Emilia Adelaide saltou, por deficiencia de memoria, dezenas de versos, o que eu julguei, n'aquella occasião, um desastre irremediavel.{142}

Fiquei surprehendido de ver que o publico applaudia; mas, a breve trecho, encontrei a explicação do facto. A memoria da actriz prejudicára os versos; comtudo a belleza da mulher era ainda bastante a perdoar todas as faltas da actriz.

Santos atára com Guilherme Braga e comigo estreitas relações de amizade. Lembro-me ainda com saudade de um jantar que tivemos os tres no Hotel Francfort, onde elle estava hospedado. A esse jantar, tão alegremente conversado, assistiu tambem a actriz Amelia Vieira. Quando cheguei a Lisboa, Santos deu-me um banquete romano na sua casa da rua do Amparo. Estavam á mesa, entre muitos, Julio Cesar Machado e Miguel Queriol. Foi outra a actriz que assistiu a este festim: Emilia Letroublon, já então louca, mordia por vezes as mãos dos convivas.

Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor Santos, abro o pequeno livro das suas memorias, que elle publicou já acorrentado ao leito da morte como o Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escuridão com que a cegueira o quiz habituar á noite eterna do sepulcro, dilacerado o peito amante pelo abutre implacavel da saudade...

N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja de sagrado como os epitaphios, encontro uns versos meus escriptos para a noite do seu beneficio no theatro de D. Maria em 16 de maio de 1874.

Paro um momento a lel-os:

Foi aqui—a historia o conta...
Que entre flôres, palmas, himnos,
Dos talentos peregrinos
Brilhou a constellação.
Era um loureiral a scena,
O theatro escola e templo,
Cada talento um exemplo,
Cada palavra—lição.{143}

Formoso e esplendido quadro!
As bellas frontes rasgadas
Resplandeciam banhadas
Em misterioso fulgor...
Grupo onde tudo era grande
Merecia moldura d'ouro,
Se tantas cordas de louro
Não o cingissem melhor.

Foi o tempo devastando
As maravilhas da tela.
Onde a loira Manuela?
Onde Epiphanio, o pharol?
Onde Sargedas, a graça?
Onde Tasso e a sua gloria?
Mais quatro nomes na historia,
Mas não é posto inda o sol.

Não é. O quadro tem vida.
Move-se, agita-se, fala
Remurmuram n'esta sala
Os eccos da sua voz...
Supponde muitas palmeiras
Rasgando do céu as brumas...
Quando o vento prostra algumas,
As outras não ficam sós.

Dos velhos heroes da scena
Descem hoje sobre o espolio,
No theatro-Capitolio,
Flôres d'antiga ovação.
É que um talento robusto,
Honrando um nobre legado,
Resuscita hoje o passado,
Renova as flôres d'então.

E a sua voz, que domina
Da ovação a anciedade,
É a voz da posteridade,
Que da scena aos velhos reis
Diz como um brado da historia:
«La vos honrei o legado;
«Se vos prostrou o passado,
«Não sois mortos. Reviveis...»{144}

E de todos estes versos, a que unicamente a saudade de José Carlos dos Santos poderia dar segunda edição, ha um em que a minha attenção particularmente se detém:

Mas não é posto inda o sol.

Então, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro. O theatro de D. Maria fazia lembrar n'esse tempo um vasto pantheon onde alvejavam as urnas funerarias dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia das Neves não tinha ainda morrido, mas a velhice aniquilava-a. Já se não contava com ella senão para relembrar-lhe a gloria. E n'esse venerando cemiterio, onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens, Santos sacrificava em honra de tantos mortos illustres, sacerdote solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as corôas e as palmas que elle proprio ganhava para perpetuar a tradição gloriosa do velho theatro normal.

Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo interposto a um dia de victoria e a uma noite de decadencia.

Não era posto ainda o sol, porque elle era a luz crepuscular; não estava inteiramente deserto o templo, porque Santos o povoava ainda.

Mas não havia outro laço vivo a prender o passado ao presente senão elle.

Como Emilia das Neves, o Rosa e o Theodorico estavam velhos e doentes; Taborda principiava a retirar-se.

Santos, de pé, combatia intrepidamente sobre a barricada que ia render-se.

Uma fatalidade enorme viera fulminal-o de subito. Cegára tão rapidamente como se fechasse os olhos para dormir. E ao cair no seu posto de honra, similhante ao soldado abatido por uma bala, a medicina prophetisára que elle não tornaria a vêr a luz senão passada a barreira da eternidade...{145}

Santos quiz luctar ainda com a fatalidade que o ferira: appareceu cego no palco tres vezes, uma no theatro de S. Carlos, outra no theatro do Principe Real, a terceira no theatro da Trindade.

Já não era elle... O seu corpo estava ali, mas a alma confrangia-se sob as azas negras da cegueira. Era uma sombra que falava, uma realeza condemnada como a de Luiz XVI—que tantas vezes reproduzira—passando através dos bastidores, venerada ainda pelos velhos cortezãos, mas insultada já pelos estragos da doença.

Era aquelle um transito doloroso para a guilhotina, porque os actores morrem no dia em que são obrigados a abandonar o theatro.

A elle condemnara-o a desgraça, não a velhice. Cedia a uma revolução, ainda como Luiz Capeto, a revolução das trevas contra a luz. A cegueira, como um sans-culotte implacavel, arrastava-o para o Temple, as quatro paredes do seu quarto, onde o carrasco, a doença, viria todos os dias annunciar-lhe a morte. N'esse angustioso despedaçar do corpo, ouvindo a voz do algoz que lhe disputava a vida, Santos mais de uma vez repetiria por certo a phrase notavel que Paulo Giacometti puzera na bocca de Luiz XVI: Ah! a natureza humana não tem força para mais!

O sacrificio havia de consumar-se, porque a sentença era irrevogavel. O condemnado sentira levantar os ferrolhos do Temple: era a sua familia que entrava para trocar com elle as effusões da ultima despedida. Despedida incomportavel! que devia durar cinco mezes, sem que os braços do amor pudessem afrouxar de tensão n'aquelle longo abraço, que era o derradeiro.

A morte parou respeitosa e timida ao limiar. O algoz commoveu-se. Tamanha era a magestade d'aquella realeza de infortunio!

Ghegou porém a hora fatal em que a terrivel sentença havia de cumprir-se. O condemnado offereceu a sua cabeça ao sacrificio, e uma familia coberta de luto{146} fôra regando de lagrimas, religiosamente, a via dolorosa por onde esse rei da scena era arrastado á tortura.

Mas, com a fronte mésta sobreposta ao grupo venerando de uma familia orphanada, o theatro portuguez soluçava n'um luto irremediavel, n'uma viuvez amarissima.

Era o Delphim que pranteava a morte do rei...


Do theatro antigo conheci muito bem tres actores: o Izidoro, o Theodorico, e o Rosa pae.

Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazer partidas: algumas conta elle proprio nas suas Memorias. Como actor comico, mereceu a celebridade que teve. Quando cantava com Taborda o duetto de Moysés, ou representava os Dois candidatos e Para as eleições, era da gente rebentar a rir.

Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto, estava doente, triste, muito velho. A troça indigena mettia a ridiculo a sua declamação emphatica, um pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente um defeito de escola, mas, em compensação, todos os artistas do seu tempo, incluindo elle proprio, sabiam representar. Muito escrupuloso, muito correcto, só tinha, para a nossa época, o defeito de haver envelhecido.

No trato particular, um perfeito cavalheiro.

Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces, dava todas as manhãs o seu passeio no Rocio, sentava-se a descansar n'um ou n'outro banco e, se a gente o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que pretendia então um logar na alfandega.

Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como em Lisboa, o Rosa pae. No Porto, ouvi-o recitar o episodio do Adamastor, de Camões, e o Firmamento, de Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'uma reprise do Marquez de lá Seiglière, que foi o seu cavallo de batalha.{147}

Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange de actores antigos capazes de investirem com a tragedia e com a epopea. Mas possuia, como Theodorico, os defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos tres, de que tenho falado, o mais poseur: toda a gente se lembra ainda de o ver passear nas ruas de Lisboa com um grande chapeu desabado e o sobretudo alvadio ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a até fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo botas.

Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros actores notaveis

*

Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O celebre alfaiate Humann dizia a respeito de Gavarni: «Não ha senão um homem que saiba desenhar uma casaca: é Gavarni.» O Catarro ou o Keil poderiam dizer, com igual justiça, a respeito do Tasso: «Não ha senão um homem que saiba vestir uma casaca: é o Tasso.»

A sua dicção, um pouco saccadée, era cristallina, sonora. Ainda não ouvi no theatro quem dissesse melhor do que elle. E decerto não tornarei a ver quem soubesse estar melhor em scena.

Vi o Sargedas no Gaiato de Lisboa, no theatro de S. João, do Porto. Era dos bons, antigos. Apesar de velho, fazia o Gaiato como se estivesse ainda em idade de jogar o pião. Estes milagres, que triumpham da velhice, só os consegue o talento.

Antonio Pedro é um morto de outro dia.

Fóra do theatro, a sua gaucherie passava em proverbio. No theatro era um grande actor por intuição, tropeçando por vezes em pequenas difficuldades de prosodia, simplesmente. Mas, no vôo impulsivo da sua assombrosa vocação theatral, esmagava, ao passar pelo palco, os que estudavam mais do que elle e lhe censuravam{148} a ignorancia manifesta em questões de arte dramatica.

Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma modestia phenomenal, aos que o elogiavam: «Isto calhou assim.» Esta phrase, tantas vezes dita por elle proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua organisação artistica.

*

Com o Tasso convivi durante uma tournée, no Porto; com Sargedas nunca tratei pessoalmente. Rectifico assim uma inexactidão que só agora notei na 1.ª edição d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer diabrura tipographica.

Já isso vai ha tanto tempo!


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