Alexandre da Conceição

Alexandre da Conceição estudava engenharia civil na Academia Politechnica do Porto quando eu tentava na imprensa a minha estreia litteraria. Era um dos poetas novos da phalange de Guilherme Braga, José Dias d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposição ao Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros, que haviam quasi abandonado as musas a esse tempo.

Principiou militando nas fileiras do romantismo, que era a corrente dominante da época. Em 1865 reuniu em volume as suas poesias sob o titulo de Alvoradas. E dez annos depois fez segunda edição augmentada com novas composições.

Como poeta, se não podia medir-se com a estatura genial de Guilherme Braga, era comtudo muito distincto. Dou como specimen aquella das suas poesias que teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livro Alvoradas,{178} póde ajuizar, pelo specimen, do valor de Alexandre da Conceição como poeta:

PERGAMINHOS

Não me esmagam, mulher, os teus sorrisos;
Eu tenho mais orgulho do que pensas
E rio-me tambem;
É debalde que tentas humilhar-me,
Porque eu ouso pensar—vê tu que insania!
Que tambem sou alguem.

Alguem que veio ao mundo sem familia,
Um producto do acaso, um paria, um misero,
Um engeitado emfim,
Um sêr sem protecção das leis canonicas,
Filho sem pae no assento do baptismo,
Mas um sêr, inda assim.

Levantou-me da estrada do infortunio
Um homem que entendeu que um filho espurio
Tem jus a protecção,
Um homem que entendeu que é vil e infame
Atirar para o lodo dos hospicios
Uma alma em embryão.

Este homem deu-me a força do seu braço,
Legou-me em vida o seu honrado nome...
Vestiu quem era nu,
Depois, quando me viu robusto e forte,
Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta,
Trabalha agora tu.»

Luctei, passei curvado sobre os livros
A mais florida quadra dos meus dias
Sereno a trabalhar;
Estudei, progredi, illuminei-me
E um dia para entrar em novas luctas,
Pude emfim descançar.

É que eu vi as premissas da victoria,
O applauso espontaneo dos estranhos
Incitar-me a seguir,
É que eu via deante dos meus passos
Rasgar-se ampla, infinita, luminosa
A estrada do porvir.{179}

Se alguma cousa sou a mim o devo,
Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,
Ao amor de meus paes,
Á força de vontade, á intelligencia,
Á sociedade pouco, ás leis bem menos...
E a ti não devo mais.

E és tu que vens fallar-me em pergaminhos?
E és tu que vens fallar-me nas riquezas
Que o destino te deu?
Eu não troco os meus louros de poeta,
As conquistas do estudo e o meu futuro
Por tudo quanto é teu.

És louca!... Sabes lá que orgulho é este
Do homem que a si só deve o que vale
E que espera valer?
Ha lá brazões illustres que equilibrem
Estes louros viçosos d'um triumpho
Que soubemos mercer?

És louca! Sabes lá como eu sou rico,
Rico de muita honra e muita esp'rança
E muito coração?
És louca! Mostra a escravos as riquezas,
Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro,
Sou bastante christão.

E quem te disse a ti que eu te invejava
Esse ouro, que é teu unico prestigio
E o nome a teus avós?
Orgulhosa!... pois julgas decidido
Qual seja, n'esta lucta de vaidades,
O mais nobre de nós?

Pois julgas que ser nobre é mero acaso,
Uma questão de berço ou de destino,
Uma questão de paes?
Não vês que se a nobreza fosse heranca,
Tendo eu e tu por paes Adão e Eva,
Seriamos eguaes?

E não somos, bem vês, porque a nobreza
Não se lega, conquista-a a intelligencia,
O talento, as acções;{180}
Ora eu, se me permittes a vaidade,
Colloco um pouco abaixo dos meus louros
Todos os teus brazões.

Devolvo-te portanto os teus insultos
E a suspeita de te adorar os risos,
Que nunca mendiguei;
Se és bella e tens orgulhos de rainha,
Mulher, entende bem, eu sou poeta,
Tenho orgulhos de rei.

Que é esta a nossa força; n'estes tempos
Em que a estupidez má enche as mãos d'ouro
Para nos insultar,
É modestia a orçar pela baixeza
Não fazermos sentir aos maus e aos futeis
Quem devem respeitar.

Não me compares, pois, a horda ignara
Que te adora os sorrisos pelo ouro...
Eu tenho coração,
Tenho por pergaminhos o trabalho,
Por thesouros a minha intelligencia
E a honra por brazão.

Nós, os homens que andamos procurando
Á luz do coração por este mundo
Os caminhos do bem,
Como trazemos alto o pensamento
E a fronte erguida ao céo, temos orgulho,
Bem vês, como ninguem.

Em 1867 publicou o poemeto Abençoada esmola, que considero inferior á maior parte das composições incluidas nas Alvoradas.

A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de o ser. O theodolito prejudicára a inspiração. Sem embargo, sente-se ainda na Abençoada esmola a destreza de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado a prosaicas occupações.

E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar poesia na mathematica, que se via obrigado a cultivar. Era talvez um processo para illudir-se. A este respeito{181} discutimos n'uma serie de cartas publicadas no Jornal do Porto desde dezembro de 1871 a março de 1872.

A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos do que eramos antes. Uma das minhas primicias litterarias fôra justamente beliscada por Alexandre da Conceição n'um folhetim do Nacional. Quando a questão rompeu no Jornal do Porto, tudo fazia suppôr que viesse a azedar-se, mas quiz por excepção a minha boa fortuna que eu ficasse sendo favorecido d'ahi em deante com a estima cordealissima de Alexandre da Conceição, sem embargo das nossas frequentes divergencias de opinião, especialmente em politica.

Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido em que militava, sobretudo como jornalista. Muitas vezes veio á imprensa, com nobre independencia, affirmar e defender as suas convicções. Não havia conveniencia de situação que lhe atasse os braços. O seu caracter era resoluto na expansão das suas convicções.

Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera peleja litteraria com Camillo Castello Branco, a proposito do Euzebio Macario, historia natural e social d'uma familia no tempo dos Cabraes.

Na dedicatoria declarava Camillo o intento que o demovera a escrever essa novella humoristica: «Perguntaste-me um dia se um velho escriptor de antigas novellas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os tics do estylo realista. Respondi temerariamente que sim.»

O Euzebio Macario foi a justificação d'esta affirmativa, d'este compromisso espontaneamente tomado.

Camillo, o inexcedivel romantico do Amor de perdição, provou o seu pulso de escriptor realista no Euzebio Macario e, depois, na Corja. Evidenciou, com uma superioridade indiscutivel, que, na esphera da litteratura, não havia para elle barreiras que lhe tolhessem o impeto, processos que lhe desnervassem o braço.{182}

Alexandre da Conceição que principiara, como todos os litteratos do seu tempo, por ser romantico, evolutira em philosophia para o positivismo, e em litteratura para o realismo.[16] Exagerou o seu enthusiasmo, fazendo-se talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. Não viu deante de si o homem eminente que se chamava Camillo Castello Branco. Cuidou ver apenas no Euzebio Macario a pretensão de lançar o ridiculo sobre a escola realista.

D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se transviou em aggressões pessoaes. As demasias de Camillo tinham uma natural explicação no facto de ser reptado violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham do afôgo com que elle abraçava os processos litterarios da escola realista.

O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De parte a parte não houve trepidação que esfriasse o ardor do primeiro momento. Camillo era um polemista insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os excessos que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, aguentou-se rijamente no combate.

Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal têem o seu lado triste, e esta mais que todas, porque Alexandre da Conceição, no fundo da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios do seu contendor.

Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885, no Café Marrare, n'uma calmosa manhã, em que ali entrámos.

O combate foi tão aspero como longo. A curiosidade publica acompanhou-o, commentou-o e, faz pena dizel-o, divertiu-se. Mas estou plenamente capacitado de que{183} nenhum dos dois guardou duradouro resentimento d'essa cruel peleja.

... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que resta? Camillo, irmanado na grandeza da desgraça a Milton, agonisou privado da luz dos olhos até que, revoltado contra as trevas, arremessou a sua alma para as alturas, que as estrellas e as auroras illuminam. Alexandre da Conceição, adormecido na immobilidade da morte, não é mais do que o envolucro decomposto d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella alma ardente, mas fidalga.

E, o que é profundamente lacrimavel, tres creanças ficaram ao desamparo, sem pae e creio que... sem pão.

[16] Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais tarde (1882) compilados no livro a que deu o titulo de Notas, ensaios de critica e de litteratura.Nota da 2.ª edição.


{184}