Antonio Augusto de Aguiar

Quem ha que não tenha, umas vezes com fundamentada tristeza, outras vezes com vaga tristeza—que é talvez o estado mais doloroso da alma—desejado a morte?

Com razão ou sem ella, porque exageramos as nossas amarguras ou porque sejam realmente grandes, todos nós temos mais ou menos pensado, com uma certa caricia da nossa imaginação, na hora suprema em que o corpo ha de adormecer para sempre e a alma ha de partir para um mundo desconhecido, que, por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto bem mais tranquillo do que este...

Não creio que haja uma só pessoa, por mais feliz que pareça, que não tenha desejado a morte uma vez sequer.

A felicidade é um dom celeste que parece ter fugido de nós para os outros, e que os outros dizem sempre que nós possuimos e elles não.

Como dom celeste que é, não póde a felicidade aclimar-se{99} na terra. Ave do azul, é no azul que passa ás vezes, mas tão alto, tão alto, que se por um momento a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar só de a haverem acompanhado cá de baixo n'uma grande avidez deleitosa...

Esse encanto desfaz-se breve, essa visão encantadora é ephemera, e o que fica depois é a realidade triste das coisas terrenas, a lucta, a batalha da vida, sangrenta e contínua, cheia de amarguras e desalentos, para os quaes a idéa da morte é como um doce raio de sol, ambicionado e querido.

Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado a morte, quando ella passa perto de nós para ir fazer uma victima, quando sentimos o frémito das suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o, quando o seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um céu caliginoso, faz-nos horror a morte, põe-nos medo a sua aproximação e a sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera de misterio e silencio...

Por que não hei de eu dizer francamente que no combate da existencia, n'esta lucta de todos os dias, cada manhã renovada, algumas vezes a idéa da morte me tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade dolorida? A verdade é essa, e todos me hão de comprehender, porque todos somos iguaes. Mas a verdade é tambem que ainda esta semana, segunda feira, eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso que se chama a Morte, e cuja obra de devastação parece assombrar tanto mais quanto mais rapida é.

Estavamos, não sei quantos—poucos eram—no club da Ericeira. Jogava-se o voltarete n'uma tranquillidade paradisiaca, como poderia ser a do pae Adão, antes do peccado, se o voltarete já então houvesse sido inventado, e elle o estivesse jogando de quatro, com os seus tres filhos. Uma senhora ou uma creança tocava piano na sala proxima, esboçando apenas a musica,{100} com uma grande timidez de execução. O sol, alegre e bom, entrava docemente pelas janellas, como poeira de oiro finamente coada atraves de um crivo azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som aspero do choque das bolas, ou de uma contada do taco sobre o pavimento. De resto, o mar parecia ter-nos aqui prisioneiros n'uma região remota, longe, muito longe de Lisboa—essa grande cidade ruidosa, que dizem ser feita de marmore e de granito, e banhada por um bello rio portentoso, mas de que nós, aqui na Ericeira, apenas conservavamos uma vaga recordação...

Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que tambem acumula a funcção de sala de leitura, o carteiro da villa, com o boné em uma das mãos, a mala de couro na outra.

O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram para o carteiro.

É preciso saír de Lisboa para comprehender bem o interesse que se póde ter em receber uma carta ou um jornal ainda que só esperemos banalidades.

Era o correio que chegava. Iamos receber noticias de Lisboa, essa longinqua cidade, de que apenas conservamos a vaga recordação de ser construida de marmore e de granito e banhada por um bello rio magestoso.

O carteiro começou a despejar a mala sobre a mesa de leitura: mólhadas de jornaes—progressistas, regeneradores, republicanos—e algumas cartas, poucas, sobretudo em relação aos jornaes, que constituem uma verdadeira alluvião.

E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo para um lado e para o outro:

—V. ex.ª hoje não tem nada.

—Aqui estão os seus jornaes.

—V. ex.ª tem só uma carta.

—Está no correio uma encommenda postal para v. ex.ª{101}

Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala uma noticia profundamente dolorosa e inesperada:

—Morreu o Aguiar!

—Quem? O que?!

—Morreu o Aguiar!

—O Antonio Augusto?!

—Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo...

E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente o jornal, procurando os pormenores, lendo e dizendo:

—De repente... de uma angina pectoris... ainda ante-hontem saiu... bem disposto... tinha jantado no restaurant Rosa Araujo com o Luciano Cordeiro e com outro.

Dizer-lhes quão pungente foi a impressão d'esse momento de tanta surpresa, é-me hoje impossivel. Ficámos fulminados, assombrados, como se Aguiar acabasse de morrer á nossa vista, tão rapidamente como os jornaes o referiam.

Então cada um de nós começou a lembrar-se da ultima vez que lhe falára, da boa disposição em que elle estava, do que dissera, do que contára. Havia apenas quinze dias que o ultimo banhista chegado á praia o tinha visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel aniquilar um homem de valor em quinze dias. Todavia os jornaes que estavamos lendo eram d'aquelle mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doença de Aguiar fôra rapidissima, apenas de duas ou tres horas, na madrugada de sabbado para domingo.

Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas do Club a noticia da morte de Aguiar. Os jornaes passavam de mão em mão, qualquer novo pormenor era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases soltas, resumiam, no primeiro momento, a impressão geral:

—Um homem serio...{102}

—Um homem de talento...

—Um homem de saber...

—Um bom caracter...

—Um homem digno...

Sim, é verdade, tudo isso elle era, tudo isso elle fôra, e todavia quantas vezes o ridiculo, a calumnia, e tambem a troça, não saiu ao encontro d'esse homem serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de saber, d'esse bom caracter, d'esse homem digno?!

Tudo isso elle fôra, e sem embargo algumas vezes lh'o contestaram, porque ha pessoas que parece quererem aggredir os vivos para terem que humilhar-se deante dos mortos.

Não, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado dar o seu a seu dono, a Deus o que é de Deus, a César o que e de César. Qualquer que fosse a sua posição politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma consideração e o mesmo respeito. E de todas as suas qualidades a que eu achava que tornava maior as outras era a serenidade com que elle recebia todos os golpes, por mais envenenados e injustos que fossem. Ainda poucos dias antes de se fechar o parlamento, no momento de se commentar no corredor da camara dos pares a má intenção com que ás vezes, na politica, se deturpavam as palavras e os factos, elle dizia accendendo tranquillamente o seu charuto:

—Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica.

Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito e da sua consciencia, o bem-estar interior, a paz inalteravel de um caracter sem manchas e sem remorsos.

Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam ás vezes que era vaidoso. Não era, não. Era menos hipocrita do que os outros. Cada homem representa uma somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se esquece do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos{103} sabem mais ou menos quanto valem, mas ha homens que recuam para avançar e homens que preferem ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem sem recuar.

Eu gosto mais d'estes ultimos.

1887.


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