Antonio Maria Pereira
Quando eu fazia parte da redacção do Jornal do Porto, onde recebia apenas 500 réis diarios por o encargo de traduzir o noticiario estrangeiro acumulado muitas vezes com o trabalho de rever as provas das edições que o proprietario do jornal, Cruz Coutinho, vendia no seu estabelecimento de livreiro, escrevi um dia, no apuro de augmentar a escassa receita do meu orçamento, ao editor lisbonense Antonio Maria Pereira, propondo-lhe a acquisição de um romance original.
Dois dias depois recebia a resposta, que me surprehendeu vivamente.
Estava tão habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que qualquer sorriso da boa-fortuna me parecia, por excepcional, irrealisavel.
Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se não viessem ordinariamente na idade em que o coração é forte e a imaginação exaltada?!
O sr. Pereira não só respondia acceitando a minha{117} proposta, mas dirigia-me palavras de amabilissima cortezia. Offerecia-me o seu prestimo como auxilio á minha vida litteraria, que sabia ser trabalhosa. Declarava concordar com todas as condições que eu lhe propuzesse.
Esta fidalga resposta destoava do juizo que então se fazia dos editores em geral.
Balzac, nas Illusões perdidas, tinha deixado a ethopea do editor. Era uma anatomia. Contavam-se dezenas de anecdotas que depunham em favor do escalpelo de Balzac. Um editor lisbonense rejeitára um livro de poesias por lhe achar pouco peso. O poeta respondêra que voltaria com os seus versos copiados em papelão. O tempo dos Mecenas tinha passado, e os editores não pareciam resolvidos a substituil-os.
Nunca a celebre phrase de Villemain fôra tão verdadeira como applicada áquella época: «Les lettres ménent à tout, à condition de les quitter.»
Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se. Arnaldo Gama vivia com difficuldades. Evaristo Basto, o brilhante folhetinista portuense, mendigára um logar publico.
Os jornaes principiavam a dar vasão, com o estipendio de 500 réis por dia, ás ambições litterarias dos novos.
O que os estreantes queriam era sequer ao menos encontrar guarida na imprensa periodica, esquecidos, ai d'elles! de que, como disse Roqueplan, o jornal é uma galé de que de dez em dez annos se evadem dois forçados, que aliás ficam sempre com o ferrete de o terem sido.
Eu havia ido refugiar-me no Jornal do Porto, onde a vinda de Ramalho Ortigão para Lisboa deixára aberta uma vaga. Confiei a essa vaga o meu fragil batel, mas a carga, por demasiado pesada, ameaçava naufragio. Tornava-se necessario recorrer de quando em quando, financeiramente, a uma boia de salvação, que só poderia ser o livro. Mas os editores eram difficeis, e hoje,{118} ainda o são mais, porque a febre das gazetas, e a variedade de materias a que a concorrencia as obriga, têem posto o livro pelas ruas da amargura. Os jornaes enxameam, pululam, atropelam-se, esmagam-se. E no meio d'este conflicto de interesses similares, o livro, como a cidade sitiada, espera, privado da sua liberdade de circulação, que a revolução dos jornaes acabe, tendo morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes. Gutenberg experimenta a lei de Darwin. Dos trezentos novos jornaes que se publicam cada anno, apenas 50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta bastam para prolongar a crise que o livro vem atravessando ha dez annos a esta parte.
O que não deixa de ser curioso é que, justamente no momento em que o mercado mais falta ao livro, o publico exige, como está acontecendo, que o trabalho tipographico do livro seja não só perfeito, mas brilhante.
De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado pela lettra redonda dos jornaes, só se deixa tentar pela belleza dos chromos. Tudo o que não seja isto, cheira-lhe a jornal, e de jornaes está farto o consumidor. Mas o editor é que tem de aguentar-se nas aventuras, sempre dispendiosas, das impressões de luxo.
Tempo das edições em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos, em que tambem era singela a toilette dos livros, passaste á historia, és uma recordadação apenas, nada mais!
A resposta do sr. Pereira não só teve para mim o encanto de uma surpresa pelo que respeitava á difficuldade de encontrar um editor accessivel, mas tambem a refulgencia de uma aurora polar que deixava cair, sobre a minha longa noite de incertezas, um clarão doirado irradiando de estipendio certo.
Puz mãos á obra. Escolhi o assumpto e o titulo do romance. Chamar-se-ia O testamento de sangue. O Jornal do Porto e o ensino livre absorviam-me o dia; foi pois á noite, depois de um dia inteiro de labutação litteraria,{119} que eu tracei os primeiros capitulos d'aquelle romance.
O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com que eu entraria no mercado lisbonense pela mão de um editor acreditado, fez que por mais de uma vez, conversando com Cruz Coutinho e com os meus collegas de redacção, alludisse ao Testamento de sangue.
Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando no Jornal do Porto se deu o que eu chamarei uma crise de folhetim. Estavam ali sendo publicados Os dramas de Paris, de Ponson du Terrail, arranjados sobre uma edição lisbonense. A publicação da obra atrazára-se em Lisboa, de modo que era preciso acudir á secção do folhetim com um romance que não fosse tão longo que prejudicasse a sequencia dos Dramas de Paris, nem tão breve que deixasse de preencher um compasso de espera.
—Se o teu romance não estivesse destinado para Lisboa, poderia servir para o jornal, dissera alguem.
Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com uma insistencia, que me deixou embaraçado. Allegavam que eu não tinha marcado prazo ao sr. Pereira, nem estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois publicar O testamento de sangue no Jornal do Porto, e escrever outro romance para Lisboa. Observei em primeiro logar que não tomaria resolução alguma sem ter previamente consultado o sr. Antonio Maria Pereira; em segundo logar, que estando apenas traçados os primeiros capitulos, eu teria, para a publicação em folhetim, de escrever os outros dia a dia, o que certamente obstava a um tal ou qual acuro que eu queria dar á novella.
Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr. Pereira, e, para que o romance pudesse ser retocado, comprometteu-se a publical-o em volume depois de ter sido publicado em folhetim.
Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me,{120} na volta do correio, que me editaria um livro, qualquer que fosse, e quando me aprouvesse. A sua carta era gentilissima de amabilidade.
Comecei então a escrever precipitadamente o romance, a fim de satisfazer ao pesado encargo de um folhetim diario—encargo que eu acumulava com a minha collaboração no noticiario estrangeiro, e outras occupações quotidianas.
Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto de forças. Morava eu então no predio n.º 456 da rua do Almada. Da minha janella avistava-se a quinta do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo á faina de todos os dias. Nem elle, nem eu paravamos nunca.
No livro Nervosos, lymphaticos e sanguineos deixei consignada, a pag. 86, uma recordação d'esse moinho com que eu tão irmanado estava—pelo destino. Arranco-a, para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre da Conceição, com quem eu sustentava polemica epistolar no Jornal do Porto.
«A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,—o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas vizinhas para a refeição matinal, a canceira com que um moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro com os seus quatro braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu.»
Pude vencer a canceira que uma tal acumulação de trabalho importava. Escrevi o romance dia a dia, e no mez de setembro, finda a publicação em folhetim, revi-o, para sair em volume. O pequeno prologo que o{121} precede é de todo o ponto exacto quando explica a pressa com que o Testamento de sangue fôra escripto.
No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois livros novos, A Porta do Paraiso e Entre o caffe e o Cognac. Tive então occasião de conhecer pessoalmente o sr. Antonio Maria Pereira.
Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta n.° 50, 52. Seriam duas horas da tarde. Um calor abafadiço pesava sobre a cidade baixa. A loja, que o filho e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar alargando-a, tinha uma só porta e a montre. Sobre o balcão havia uma grande agglomeração de livros e folhas impressas. Ao fundo da loja, de pé a uma escrivaninha, estava um homem que, ouvindo perguntar pelo sr. Antonio Maria Pereira, levantou a cabeça. Era elle. Á ilharga d'esta escrivaninha havia outra em que trabalhava um homem de barba e cabello preto: era o antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa. Em frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em que um rapaz, de bigode, parecia tomar notas. Era o Francisco, o segundo caixeiro da casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos do caldeireiro Lourenço, proximo vizinho.
Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balcão cumprimentar-me. A phisionomia um pouco arabe d'este editor era insinuante; e as suas maneiras distinctas. Bigode e cabello grisalhos, com uns tons luminosamente argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A face morena e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia os labios, inspirava confiança. Estava todo vestido de preto, e, na occasião em que entrei, fumava charuto.
Fóra do balcão havia dois bancos de palhinha. Fez-me sentar n'um d'elles, e debruçou-se no balcão conversando comigo. Poucas palavras haviamos ainda trocado, quando entrou um mocinho imberbe, cujas feições tinham uma notavel similhança com as do sr. Pereira.{122} Era seu filho, o actual editor[10]. Tempo antes, seguindo o exemplo paterno, havia começado a trabalhar, emprehendendo a publicação de uma Encyclopedia litteraria, para a qual tivera a amabilidade de solicitar a minha collaboração.
Escrevi ahi uns versos, Virgens loiras, cuja inspiração me parece hoje bastante macrobia: vinte e tres annos pesam sobre elles, e as Virgens, que devem estar decrepitas—como os versos.
Desde a hora da minha apresentação, ataram-se entre mim e o sr. Antonio Maria Pereira relações de agradavel convivencia.
Eu arrendei casa na rua Nova de S. Mamede, aos Caldas, perto do palacio do marquez de Penafiel, onde por signal entrei no dia do leilão e assisti ao desalfaiar d'aquellas opulentas salas, que deram brado em Lisboa.
Poucas pessoas terão como eu um tão affectuoso apêgo bairrista. Custa-me realmente sair do meu bairro, tanto me affeiçôo ás arvores e ás pedras que estou costumado a ver. De modo que o giro dos meus passos habituaes era limitado pelo Rocio, oude morava o meu editor Mattos Moreira, e a loja do sr. Pereira, na rua Augusta.
Muitas noites ia eu conversar á loja do sr. Pereira, onde havia, quando menos, dois cavaqueadores: o dono da casa e o bibliographo Innocencio.
Digo-o francamente: aprendia sempre alguma coisa n'esses serões litterarios, que se prolongavam ordinariamente até ás dez horas, e ás vezes até ás onze.
O sr. Pereira, que jantava muito tarde, voltava depois de jantar ao seu estabelecimento, disposto a distrair o espirito na conversação de um pequeno grupo de amigos. Havia quasi a certeza de o encontrar a essa{123} hora, e disse quasi, porque ás vezes, durante o estio, elle fugia alguns dias para o Alfeite ou para Cintra, e apreciava muito essas fugidas á sua labutação quotidiana.
Taes são as recordações, agradaveis e saudosas, que eu conservo d'esse illustrado editor, que prestou relevantes serviços ás lettras portuguezas pondo em evidencia o talento de muitos homens já hoje fallecidos[11]—graças talvez, e não pareça isto desacerto, á felicidade de haverem encontrado quem lhes abrisse a porta da gloria—editando-lhes os primeiros livros.
[10] Falleceu prematuramente, minado pela doença nas asperezas do exhaustivo trabalho quotidiano—a que elle chamava a vinagreira.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.
[11] Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco, Pinheiro Chagas, etc.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.
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