Antonio Rodrigues Sampaio

O maior elogio de Sampaio está precisamente n'esta phrase que todos têem repetido: «É um homem que faz falta.» Fazer falta, n'uma época em que todos julgam servir para tudo, é uma glorificação.

São a rodo os jornalistas e os politicos; em nenhum tempo houve tantos como agora. Desde o artigo de fundo até á pasta vae augmentando todos os dias o formigueiro dos homens celebres, que pretendem caminhar para o poder carregados, como as formigas, com o peculio do seu trabalho ou das suas honras vans. Pois no meio d'esta enorme concorrencia, n'esta conflagração geral de pretensões e vaidades, os mais egoistas e os mais vaidosos são os primeiros a confessar que Antonio Rodrigues Sampaio faz falta.

E assim é.

Faz falta, porque era um homem superior, tinha o seu logar na imprensa e na politica, chegou a elle sem pressa e sem impaciencia, não pisou ninguem, não{64} acotovelou os invejosos, foi andando e parando, e quando chegou ao apogeu das honras sociaes já toda a gente o esperava lá, todos reconheciam que devia ahi chegar, e alguns, os mais justos, estranhavam que não tivesse chegado mais cedo.

Tendo um passado politico, foi ministro depois de o ter. No nosso paiz isto é raro. Muitos escalam o poder pela trapeira; elle entrou pela porta da rua, e da primeira vez que foi ministro (1870) não passou do patamar da escada. Outro qualquer, n'essas circumstancias, em lhe dizendo que lá em cima, no primeiro andar, estava a dictadura, haveria galgado os degraus quatro a quatro, para que se lhe não escapasse a occasião de ser dictador como Cesar. De mais a mais, tendo por guarda-costas a espada prestigiosa do marechal Saldanha, poucos fariam o que elle fez: pôr o chapeu na cabeça e sair.

Tinha luctado pela liberdade; repugnava-lhe firmar-se no poder pela dictadura. Mas de que modo elle havia luctado! Como um forte, um valente, um athleta; os nossos revolucionarios de hoje são ridiculos se os medimos com Sampaio. Quanto a nós, essa é a phase mais gloriosa de toda a sua vida. Com a sua penna e a sua coragem, elle só, deu que fazer ao governo dos Cabraes. O ministerio empregava todos os meios ao seu alcance para supprimir o jornal e inutilisar o jornalista. Andavam açulados os Argus da espionagem ministerial no empenho de farejar o esconderijo de Sampaio, e, durante quasi um anno, esse jornal, tão perseguido officialmente, apparecia em toda a parte, até dentro das pastas dos ministros!

Os revolucionarios de hoje seguem um caminho muito mais commodo: mediante uma estampilha de dois réis e meio fazem-se lêr pelas suas victimas.

Depois da perseguição, da caça ao jornalista por parte do governo, vieram as tentativas de suborno. Sampaio repelliu-as nobremente. Appellou-se para a{65} provocação. Sampaio foi reptado: bateu-se em duello. Era um homem, um verdadeiro homem de lucta. E, quando o conde de Thomar caiu, quando para Sampaio chegára a hora de receber a féria, recusou ao ministerio Palmella todas as vantagens que este lhe propunha. D'isto não ha hoje; o ultimo exemplar d'esta raça de homens foi ha annos sepultado no cemiterio dos Prazeres. Eis o seu epitaphio, a sua glorificação:

Faz falta.

Tendo conhecido os homens e os tempos, tratando de perto todas as vaidades irritantes e todas as ambições irritadas, conhecendo bem o mundo, atravessava-o com a serena philosophia do seu bom humor habitual, por que o bom humor era n'elle uma philosophia.

O marquez de Caraccioli chamava a isto gaieté philosophique, alegria philosophica; pois seja. «Feliz o homem, diz elle, que contente com a sua sorte e com o seu paiz, procura tornar-se a vida agradavel por uma maneira de pensar que, permanecendo inalteravel, repelle os pesares como tentações, e só procura os objectos consoladores. É por um tal sistema de felicidade que se consegue resistir ás impertinencias e aos soffrimentos, e eis aqui por que eu chamo alegria philosophica a esse contentamento da alma, que se não altera nem pelos remorsos, nem pelas inquietações.» Os espinhos do poder! repetia muitas vezes Sampaio, isso é apenas uma metaphora. E tinha razão, porque elle exercia o cargo de ministro de estado com a mesma alegria philosophica, a mesma honestidade tranquilla com que exercia todos os outros cargos. Sentindo-se velho e pesado, apreciava sobremodo o poder andar de trem. Era, depois de cair, que elle começava a achar os espinhos da lenda, por se ver obrigado a passar do trem para o americano. Dizia-o muitas vezes, rindo.

Rindo, desarmava a colera dos adversarios, que acabavam rindo tambem. J'ai ri, me voilà désarmé. Rindo, sabia perdoar. Ninguem o podia tratar de perto sem{66} ficar sendo seu amigo. Na vida intima, poucos homens haverá tão bondosos, tão infantilmente bons. Custava a comprehender como esse velho placido e alegre, cheio de bonomia e de serenidade, se transmudava de um momento para o outro no ardente articulista da Revolução de Setembro, semeando ás vezes resentimentos pessoaes que poderia ter evitado.

De uma vez certo titular vieille roche foi pedir-lhe um favor politico.

—Custa muito, dissera elle a Sampaio, andar por aqui a pedir favores de chapeu na mão.

—Pois ponha-o na cabeça e fale, respondeu Sampaio.

Um politico muito conhecido em Lisboa e na provincia procurou Sampaio para se oppôr ao despacho de um governador civil.

Sampaio respondeu-lhe:

—Meu caro amigo, você já governa em vinte districtos; consinta ao menos que o ministro do reino governe n'um.

Eu, que acabava de passar tormentosamente pela vida administrativa, combati algumas disposições do codigo de 1878 n'um capitulo do livro intitulado Viagens á roda do codigo admistrativo.

Quando em 1881 alguns amigos de Sampaio e meus apoiavam a minha candidatura pelo circulo de Sinfães, Sampaio, consultado a esse respeito, foi á sua bibliotheca buscar o livro e disse com bondosa tranquillidade:

—Elle zangou-se muito comigo por causa do codigo, mas eu não me zangarei com elle por causa do circulo. Que venha á camara, e ficaremos amigos como d'antes.

A minha eleição foi causa indirecta da transferencia de um empregado. Passados dias, estava eu já eleito, Sampaio mandou-me chamar pelo seu correio.

Fui immediatamente saber o que elle queria.{67}

—Dei corda para me enforcar, disse-me abruptamente Sampaio.

—Por que? perguntei eu muito intrigado.

—Por que, meu caro amigo, as influencias locaes, que o elegeram, mandaram de casa mudada um afilhado meu.

—Mas, conselheiro, eu fui estranho a tudo isso.

—Tambem eu. Agora, mandei-o chamar para que trate de remediar o mal que está feito. Vá ter com o ministro F. e combine com elle o remedio.

Assim fiz; assim se fez.

Deve notar-se que Sampaio era então presidente do conselho de ministros.

Na imprensa, Sampaio respondia a todas as accusações, e a todas as injurias.

Pouco antes de morrer andava em discussão accesa com Eduardo Tavares, que redigia então as Instituições.

Certo dia as Instituições chamaram a Sampaio pedaço d'asno, com todas as lettras.

No centro regenerador discutiu-se á noite se Sampaio tambem responderia a isto ou se deixaria de responder. Eu apostei que responderia. No dia seguinte corri a ler a Revolução de Setembro. O artigo de Sampaio principiava assim: «O homem das Instituições chamava-nos hontem pedaço do seu todo

Soberbo!

Talvez por ser alegre foi que logrou conservar-se forte na velhice. L'homme gai ne vieillit point, et paroit toujours se bien porter, observa o marquez de Caraccioli. Os artigos da Revolução punham bem em evidencia esta verdade. Sampaio até no ataque era jovial; ria combatendo. E os seus profundos conhecimentos de latinidade traziam-lhe á memoria e á mão, a maior parte das vezes, citações que elle aproveitava habilmente para acerar a mordacidade com que sabia rir da má situação em que deixava os adversarios politicos, ou em que elles proprios se collocavam.{68}

Em 1881 foi feito dictador como Sganarello foi feito medico, malgré lui. Mas nas suas mãos a dictadura foi uma arma completamente inoffensiva; depois de cobrar os impostos partiu-a, atirou com ella para o mesmo armario em que a havia fechado em 1870. Estava-se em dictadura, e ninguem dava por isso. O dictador Sampaio distraia-se ás noites no Passeio Publico, e dizia como o feroz Sylla ao povo: «Lisbonenses, aqui estou para vos dar conta do sangue derramado.» E o povo deixava-o estar. Sabia que era um homem bom, e ninguem receia a dictadura de um homem bom.

*
* *

No delirio, que precedeu a morte, Sampaio disse: «É preciso defender a monarchia.»

Esta phrase, na bocca do velho liberal moribundo, deve ser recebida como um evangelho.

Quando uma idéa nos tem preoccupado vivamente o cerebro, até no sonho nos avassala. O delirio da febre deve ser alguma coisa de nebuloso e de vago como o sonho, e o pensamento constante de toda a nossa vida deve enlear-se-nos no espirito, em spiraes dominadoras, tanto mais apertadas quanto mais o espirito lucta para desembaraçar-se e partir.

Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario da realeza. A monarchia havia saido ungida, sagrada do baptismo da liberdade. Sampaio guerreava à outrance o ministerio de 1846, porque entendia que esse ministerio, apoiando-se na força e na oppressão, desvirtuava a idéa de liberdade que na Europa progressiva servira de base á reconstrucção monarchica.

Se depois do estabelecimento do regimen constitutional a monarchia se desprestigiasse prematuramente, seria um sistema perdido, uma fórma de governo apodrecida antes de amadurecer. Como adversario valoroso{69} do antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas raizes do absolutismo que tinham ficado ainda arraigadas em derredor do throno constitucional.

Depois da organisação regular dos partidos politicos, Sampaio foi sempre um monarchico, e muitas vezes atiçava a lucta jornalistica entre esses partidos, porque perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria as fórmas de governo degeneram na tirannia ou na anarchia: ou uma só facção dispõe de todos e de tudo, ou todos governam em tudo. Elle claramente percebia que a divisão dos partidos é um elemento de fiscalisação e de estimulo na gerencia dos negocios publicos, e de correcção e aperfeicoamento para o regimen estabelecido.

Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas, em interesse da monarchia. Frequentando o paço, foi sempre um monarchico, nunca foi um aulico. Para os monarchicos sinceros é esse um justo-meio difficil de conservar. Elle nunca o ultrapassou.

Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo do conflicto pela inversão violenta dos principios estabelecidos, pela postergação desordeira dos direitos sociaes, pelo desacato ás leis vigentes do reino, e pela irreverencia ás garantias que o codigo fundamental do estado concede a todos e a cada um.

Sampaio viveu muito; viu muito.

Ainda teve tempo para vêr isto. E como n'esta hora morria, era com essa idéa que sonhava no delirio da febre: «É preciso defender a monarchia.»

E é.

Os campos politicos estão claramente definidos, nitidamente demarcados: monarchicos a um lado, inimigos da monarchia a outro lado.

Os meios, que os nossos adversarios escolheram, são de sua inteira responsabilidade: nada temos com isso. Empreguemos nós os nossos, purifiquemos os nossos costumes politicos, procuremos fazer uma administração{70} rigorosa, firmar o credito nacional, velemos á porfia pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos as nossas escolas e as nossas industrias, aproveitemos os serviços dos homens de boa vontade que nos offerecem a sua cooperação, e veremos depois quem triumpha.

Mas para que o consigamos é preciso não adormecer: é preciso defender a monarchia.


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