Conselheiro Viale
Um dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me ao Porto uma carta dos srs. Lucas & Filho, proprietarios da Bibliotheca Universal, convidando-me para escrever um romance historico.[13]
Puz as minhas condições, que foram acceitas, e o romance Annel mysterioso começou a ser publicado em fasciculos.
Ia em meio a publicação, quando nova carta dos srs. Lucas & Filho me instigou a escrever outro romance, para seguir-se immediatamente ao Annel mysterioso.
Aquelles editores davam como razão d'esta proposta o facto de ser recebido com agrado o meu romance que estavam publicando.
Confesso francamente que me encontrei n'uma situação embaraçosa lembrando-me de que é sempre difficil agradar na repetição, e de que a empresa editora poderia ser prejudicada pela aventura de querer que eu succedesse a mim proprio. Non bis in idem, diz o proloquio. Escogitei então na escolha de um assumpto que lograsse despertar maior interesse do que o Annel mysterioso,{160} e ao cabo de dois ou tres dias pareceu-me haver encontrado a chave do enigma. Não estando ainda explorada a lenda piedosa que se havia formado em torno do sarcophago de D. Pedro V, afigurou-se-me que esse assumpto valeria por sua mesma popularidade. Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em meu favor a abundancia da fonte. Acabada a publicação do Annel mysterioso, seguiu-se immediatamente a da Porta do Paraiso, chronica do reinado de D. Pedro V. E assumpto foi esse tão simpathico aos leitores, que deixou lucros á empresa editora. Lucas filho morreu pouco tempo depois, mas ainda vive o pae,[14] com tipographia na rua dos Calafates, e esse poderá dar testemunho de que é inteiramente exacta a minha narrativa.
Comecei a escrever a Porta do Paraiso no Porto. A meio do romance, caiu-me em casa um despacho para a secretaria da Procuradoria Regia de Lisboa, e vim tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos da novella. Voltei ao Porto, e continuei lá trabalhando. Vim definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui os ultimos capitulos.
Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como um Creso na rasão de 600 réis por dia...
Perdão! Não era isto o que eu queria dizer.
Foi depois da minha installação definitiva em Lisboa que conheci o conselheiro Antonio José Viale. Fui-lhe apresentado por Silva Tullio na Bibliotheca Nacional. Como eu não vim occupar uma posição brilhante, d'estas que logo põem em evidencia um homem, ainda que elle valha pouco, fui vagarosamente fazendo a minha provisão de relações sociaes, conhecendo hoje um politico notavel, ámanhã um litterato distincto; hoje um actor, ámanhã um jornalista: construindo eu proprio, laboriosamente, o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia.{161}
Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca Nacional, quando eu cheguei com Silva Tullio. Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua cabeça de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma lente para fixar a minha phisionomia. Estive em foco alguns momentos. Falando-me com extrema amabilidade, destacava as suas palavras n'um tom gravemente conceituoso, que o habito do professorado explicava. E na sua maneira de pronunciar havia um tic original, que fazia retinir algumas sillabas.
Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado das lettras, quizesse espontaneamente conhecer um velho academico. Fez sentir que o grito de guerra, dos arraiaes litterarios, era «Place aux jeunes», ainda que para abrir logar aos moços fosse preciso demolir os velhos.
Viale tinha sido varias vezes tratado com injustiça pelos que chegavam. O seu resentimento era fundado. A injustiça desmandára-se até á jogralidade. E elle, que sabia profundamente o muito que sabia, magoava-se com razão de que a multidão dos novos passasse sob a sua janella, em tumulto revolucionario, apupando-o, ridicularisando-o no seu apego a Homero, no seu fanatismo por Pindaro. A maior parte dos novos não sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o.
Falou-me da Porta do Paraiso, disse-me que o livro lhe avivára recordações saudosas de el-rei D. Pedro V é da rainha D. Estephania; que de ambos fôra professor; e que tendo ido á Allemanha, para ensinar portuguez á mallograda rainha, havia publicado a seu respeito um opusculo, que eu alias só conhecia por uma transcripção. Offereceu-me esse opusculo e mandou-m'o d'alli a dias: Apontamentos para uma biographia de S. M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima memoria, Lisboa, 1859, sem nome de auctor.
Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos evidenciaram-se logo ás primeiras palavras, denunciando{162} a firmeza convicta de um crente. Viale viveu sempre em plena religião. Catholico, adorava Deus e acatava profundamente a auctoridade da igreja romana; homem de lettras, adorava o classicismo, dormia, como Alexandre, com Homero á cabeceira, e adormecia talvez depois de ter rezado uma oração a Deus e recitado um trecho da Illiada ou uma ode de Pindaro.
Collaborou no Jornal da Sociedade Catholica, redigiu o Catholico, traduziu o primeiro canto da Odissea, o sexto da Illiada, os cinco primeiros cantos do Inferno de Dante, o episodio do conde Hugolino, e bosquejou em oitava rima a historia de Portugal, propagando pelas escolas de instrucção primaria as tradições gloriosas do passado.
A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da sua alma; traça com uma linha geographica os limites da sua honesta actividade intellectual. Educar pela lição grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do catholicismo, foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa.
Começou desde muito novo a trabalhar. Aos doze annos publicou um poema heroico, David triumphante, entrou no mundo das lettras pela porta da oitava-rima. Era a manifestação precoce de um espirito antigo, que parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla, invadida pelos turcos, salvando sobraçado o ultimo thesouro da civilisação greco-romana. Não chegou cantando o amor, como todos, adejando por sobre os rosaes floridos da poesia subjectiva. Não. Foi recolher-se na Italia, abrigar-se no palacio dos Medicis em Florença, conversar em Roma com Leão X e Julio II, preparar em espirito a Renascença. Assistiu mentalmente á dieta de Spira, e assim como apoiou os papas na resurreição artistica do passado, apoiou-os tambem na lucta tenaz do catholicismo contra Luthero. Partindo da Renascença, parou horrorisado deante da Reforma. Áquem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolição do passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convicção{163} era de tal modo pura e profunda, entrincheirava-se tão fortemente n'um baluarte de sciencia, que conseguiu atravessar o mundo, até á extrema velhice, sem que os desgostos, as injustiças, os sarcasmos lograssem fazel-o vacillar um momento.
Eu tenho aqui, deante de mim, as Tentativas Dantescas do conselheiro Viale, a sua traducção do Inferno prefaciada por uma notabilissima carta de elrei D. Pedro V.
As palavras que o traductor me dirigiu, traçadas de seu proprio punho, na sua calligraphia senilmente arqueada, constituem a mais amavel das dedicatorias.
Eu era por esse tempo professor de historia de seu filho Luiz Filippe, um moço que ha de honrar largamente, nas lettras patrias, a tradição erudita do pae. O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo, as mais subidas provas de consideração em que eu não deixei nunca de enxergar o coração affectuoso do pae através dos repetidos favores com que o academico, o professor, o hellenista confundiam a minha humildade de homem de lettras. Eu não havia de ser o juiz official dos meritos de seu filho, não dependia de mim a sentença do seu exame, mas comprehendia que Viale me pedia, de um modo captivante, que ensinasse áquelle que devia ser o successor do seu nome tudo quanto na exiguidade do meu peculio historico lhe pudesse ministrar.
Desde essa época, sobre a qual já vão passados alguns annos, nunca mais tornei a avistar-me com o conselheiro Viale.
Maio de 1889.
[13] Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião de ter declinado o convite que elles lhe dirigiram.—Nota da 2.ª edição.
[14] Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram com a tipographia, que ainda subsiste.—Nota da 2.ª edição.
{164}