Gonçalves Crespo

Tendo de escrever a respeito de Gonçalves Crespo, deixei-me ir ao sabor da saudade, pelo mar das recordações em fóra, até o encontrar nos primeiros annos da sua vida, e da minha.

Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual eu comprehendi melhor que nunca toda a verdade e toda a philosophia que se encerram n'este pensamento de Garrett:

Saudade, gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho.

Comprehendi bem, melhor do que nunca, é certo, toda a observação psichologica que essa bella antithese contém; comprehendi Garrett n'esses dois admiraveis decassiliabos que já não esquecerão mais em lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel quando chama á saudade um mal de que se gosta, e um bem que se padece; comprehendi o rei D. Duarte quando{110} no Leal conselheiro escreveu da saudade com uns finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehensão d'esse agridoce sentimento, que ao mesmo passo despedaça e mitiga o coração...

Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho percorrido em poucos annos. A saudade fizera reverdecer todas as recordações, aquecêra todas as cinzas, despertára todos os mortos. Vivi por momentos a vida já extincta, enflorei-me das minhas antigas esperanças, remocei com as minhas illusões de outro tempo. Pareceu-me que essa reversão ao passado era completa e real, que tudo voltára effectivamente a ser o que tinha sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se, o sonho acabou, retrocedi pelo caminho que imaginariamente percorrera, e pareceu-me atravessar um deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e silencioso, onde tudo jazia sepultado na mudez da morte—esperanças deliciosas e amigos queridos, illusões que me fascinaram e pessoas que eu amei.

Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda enorme, eu só encontro a triste consolação de a recordar.

Tal é a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo providencial.

Assim é que os poetas a definem; assim é que eu a sinto agora—melhor por certo do que nunca.

Em verdade, as circumstancias em que me encontro, para escrever de Gonçalves Crespo, são muito especiaes. Elle teve muitos amigos, e merecia-os, mas as nossas relações vinham de longe, eram antigas na proporção da nossa idade, ataram-se no Porto quando eramos apenas duas creanças.

Estou a vel-o então, no meu quarto de estudante, rodeado de antigos amigos, quasi todos mortos já, apesar de moços.

Crespo tomava parte activa em todas as nossas façanhas mais ou menos habituaes, que eu já historiei{111} largamente no livro Atravez do passado—o meu primeiro livro de saudades.

Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com o criado da casa: o Angelo, um gallego.

Crespo era então o mais janota de nós todos, tinha a linha elegante e aristocratica. Mas desconcertava-se n'aquellas brigas nocturnas, gostava d'ellas tanto como nós, e não duvidava arriscar n'essa folia asselvajada o primor da sua toilette, quasi sempre irreprehensivel.

Coisa notavel! Crespo não era então para nós um poeta: um elegante, sim. Eu fazia versos de pé quebrado; Alfredo Leão lia chronicas e romances[8]; mas Gonçalves Crespo flanava a pretexto de estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento poetico com a publicação das Miniaturas.

Houve um periodo em que me separei de Gonçalves Crespo;—quando foi para Coimbra. Mas em quasi todas as ferias elle passava no Porto em direcção a Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos então e falavamos. Crespo frequentava o Café Portuense, na Praça Nova, e continuava a ser um elegante. Mas quando eu o via, sempre me perguntava pelo Angelo—recordando as nossas façanhas anti-ibericas.

Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitação que recebi, ainda antes de partir, foi de Gonçalves Crespo. Enviava-m'a de Coimbra. O que elle me dizia não posso, não devo eu repetil-o aqui, tão agradavel era para mim. A amizade cegava-o.

Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira pessoa que procurei ali foi Gonçalves Crespo. Conheci então o seu celebre quarto da Couraça de Lisboa, tão fielmente descripto por Candido de Figueiredo nos Homens e letras, e tão falado ainda na tradição academica. Crespo estava adoentado, e não me pôde mostrar{112} a cidade, mas encarregou d'essa missão, a que elle chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente está em Lisboa.

Crespo dera-me rendez-vous para a noite, na livraria do Melchiades. Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que era já muito respeitado pela academia. Laranjo tambem ahi estava. Demorámo-nos conversando de litteratura, porque não se falava então de outra coisa, e Gonçalves Crespo viera passar o serão comigo no Hotel dos caminhos de ferro, onde eu estava hospedado.

Foi lá que recitou muitas das suas novas poesias, com o primor que elle sabia dar á recitação. Burilador da phrase, um esmaltador do verso como Gautier o fôra da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas as bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril de artista. Tinha uma inflexão especial para cada meandro das phantasiosas filigranas que a sua musa tecia; de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua voz contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava todas as côres harmoniosas do verso. Miniaturisava com a voz como com o espirito. Via-se o que elle dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como poeta.

Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de costumes brazileiros sobretudo. Era tão primoroso, tão notavel nos quadros da vida americana, tinha uma visão tão delicada da natureza dos tropicos, que se me afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse genero. Desculpava-se allegando que o intimidavam as largas dimensões de um poema, e que se sentia á vontade nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava como o aço ao capricho da sua inspiração, e no soneto Animal bravio, offerecido a mademoiselle Eugenia Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptidão artistica do seu espirito:{113}

Preferiras um ramo caprichoso
De escolha rara e de um concerto fino,
Onde visses o cacto purpurino
E os nevados jasmins do Tormentoso.

Em vez do ramo exotico e oloroso,
Casto recreio d'esse olhar divino,
Acceita, Eugenia, este animal felino,
Que o meu braço subjuga vigoroso.

Tive artes de o amansar: eil-o sereno!
Acode a minha voz, e ao meu aceno
Como um jaguar a voz de um saltimbanco...

Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto!
E á doce Eugenia, do sorriso honesto,
A fimbria oscule do vestido branco!

Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commissão de instrucção publica. Crespo estava então em Lisboa. Certo dia recebi pelo correio um cartão de visita seu, que conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello soneto, que me offerecia, e que publicou depois nos Nocturnos:

ODOR DI FEMINA

Era austero e sisudo; não havia
Frade mais exemplar n'esse convento;
No seu cavado rosto macilento
Um poema de lagrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria
Folheava o triste um livro pardacento,
Viram-n'o desmaiar, cair do assento,
Convulso e torvo sobre a lagea fria.

De que morrera o venerando frade?
Em vão busco as origens da verdade,
Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.

Consta que um bibliophilo comprára
O livro estranho e que, ao abril-o, achára
Uns dourados cabellos de mulher.{114}

Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo escrevendo a minha biographia para o Diario de Portugal[9]. A sua antiga amizade foi tão prodiga de amabilidades para comigo, que eu cheguei a desconhecer-me, por muito favorecido do biographo. Mas o que principalmente me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade com que elle acompanhara todos os pormenores da minha existencia obscura. O seu espirito dedicado tinha-me seguido de longe como ao perto, com o interesse de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente agradavel e consoladora. Crespo era um homem de talento superior e de caracter honestissimo; a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão de alguns e das injurias de poucos.

Este homem, este amigo querido com o qual eu me encontrára na adolescencia e na litteratura, encontrara-o ainda a meu lado na politica e na camara electiva. O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade, porque eu teria um profundo desgosto em separar-me de Gonçalves Crespo por qualquer divergencia de opinião, grave ou insignificante.

O destino, porém, esse mesmo destino que parecia querer estreitar cada vez mais os nossos velhos laços de amizade, acabara por ser enganador e perfido.

Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde deviamos trabalhar em commum, promettia associar-nos na velhice como na mocidade, e tão depressa promettera como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço! elle, que tinha finalmente chegado a uma situação, que lhe permittia viver inteiramente tranquillo na decencia modesta que soube conservar em todos os actos da sua vida.{115}

A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu apostada em enfeixar esperanças para as despedaçar depois. A sorte havia dado a Gonçalves Crespo uma familia que elle tanto amava, uma esposa digna d'elle pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios de fortuna, considerações politica e honras litterarias, gloria, amigos e admiradores, e de emboscada, a morte, depois de lhe ter consentido que entrasse na Terra da Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo de transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o cobardemente aos trinta e sete annos de edade, enlutando para todo o sempre o coração da mais illustrada senhora que Portugal possue, e de todos quantos amavam e estimavam o notavel poeta das Miniaturas e dos Nocturnos.

Traçando estas linhas, deixei que a penna escrevesse da abundancia do coração. Outra coisa não fiz, nem de outra coisa curei. Emquanto Gonçalves Crespo esteve baloiçado entre a vida e a morte, na mais cruel das agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores dos Contos para os nossos filhos, colleccionados e traduzidos por Gonçalves Crespo e sua esposa, que pedissem a Deus pela saude de um dos traductores d'esse livro, que elles sabiam de cór. As orações de meus filhos não puderam disputar á morte a existencia preciosa do velho amigo de seu pae. Não me restava portanto senão o triste desafogo de escrever com lagrimas estas linhas que vão, adejando para o seu tumulo, levar-lhe o ultimo preito da minha amizade, o écco sincero do luto da minha alma.

1883.

[8] ATRAVEZ DO PASSADO: Na morte de um condiscipulo.

[9] Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o que aliás duplica o valor d'esta especie bibliographica.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.


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