Julio Cesar Machado
No dia em que elle se matou, a graça, a flôr dos espiritos alegres, pendeu amortecida como essa outra flôr, que no campo chamam bons dias, quando a tarde principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo...
A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris, que desperta voltada para o oriente, e que sempre vae seguindo o sol, aquecendo-se n'elle para melhor sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida por uma dolorosa noticia...
A anecdota, que bem póde comparar-se a esses bellos cachos de glicinia que, nas estradas monotonas, espreitam ás vezes sorrindo do alto dos muros das quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar por elle, que jámais havia feito uma jornada litteraria sem lhe dar um momento de attenção em passando...
A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes{185} com a sua sorte, esta flôr que, nas mais agrestes paragens, parece cantar na festiva expansão do seu perfume, dizendo a toda gente que ella está ali, bem florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe, para occultar a sua commoção, como tambem ás vezes a madresilva se encobre com as folhas da hera, que nos braços verdes a vae levantando ao alto das grandes ruinas...
A modestia, a violeta timida que não faz alarde da sua delicadeza, e que é o caracteristico das almas boas e simples, chorou sobre a terra que não tardaria a devorar, no seu seio egoista, o cadaver do homem que melhor a personificou no mundo...
Mas como póde este Julio, tão alegre, tão moço sempre, tão costumado a rir, tão interessado pelo mundo, tão apegado á vida, que até parecia não estar disposto a envelhecer jámais, tão delicado e gentil nos seus pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, n'um drama de sangue, que só de recordal-o sente a gente o coração confranger-se?!
Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se suicidem, comprehende-se, explica-se de algum modo. A vida era-lhes pesada, não tanto por si mesma, como por que elles proprios exageravam o peso da vida.
Mas o Julio, tão despreoccupado, tão pouco dado a scismas e presentimentos, tão bem disposto sempre a não extrair de toda a agua de uma nuvem mais que uma lagrima—apenas!
«Não se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle (o livro Scenas da minha terra); tel-as-ha trazido alguma nuvem ligeira, que um raio de luz mais ligeiro ainda haverá logo enxugado; são irmãs dos meus sorrisos, essas lagrimas...»
«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sair da sua{186} terra, e até cuidam que o barco se ha de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle é que o barco não se perderá. Muito pouco merecem, pois, a Deus, os medrosos que assim se temem d'elle.»[17]
«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma ineffavel felicidade; nem entendo que se possa viajar para passar o tempo; passar o tempo, é morrer!»[18]
«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas; deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e á sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante o altar da anecdota!»[19]
Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de 1888. Dois annos depois, contados quasi dia a dia, Julio Cesar Machado acabava tragicamente, mais tragicamente ainda do que o seu mestre e amigo Lopes de Mendonça, porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu o tempo preciso para que nos habituassemos a esperar a catastrophe final.
O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira a uma allucinação de momento, e desde esse dia toda a felicidade de Julio Cesar principiou a desmoronar-se, como um talude do qual, em se despegando um punhado de terra, nada fica de pé dentro de poucas horas.
Todos nós nos lembramos do Julio passeando com o filho pela mão, muito ufano d'essa creança de calção e blusa, a quem falava curvando-se, a quem sorria escutando-a.
Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho, desempenado e de feições miudas, valia mais para Julio Cesar do que o referirmo-nos com louvor ao seu livro mais querido, Os contos ao luar.{187}
—Ó Julio, o teu prologo dos Contos leio-o ás vezes para me sentir tão moço como ha vinte annos. «... E depois, eu não sei bem por que chamei ao meu livro Contos ao luar!» Bonito, como eram então as coisas bonitas!
—Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor do que o livro... respondia-me elle uma vez.
E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos...
Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o pequeno Julio levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se nas costas de um amigo do pae, que o recebeu amavelmente. D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o reprehendeu. Não tardou que o pae, com as lagrimas nos olhos, saisse com o filho, depois de haver apertado a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora as suas relações com o outro amigo que o reprehendera.
Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o allucinou, que o perdeu;—basta por si mesmo a explicar a contradicção que em Janeiro de 1890 resaltou entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado.
Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que nos impelle para todo aquelle que nos sorriu na hora em que tentavamos uma empresa arriscada.
Foi no livro Manhãs e noites que elle saudou com excessivo favor os meus primeiros trabalhos litterarios, as Peregrinações na aldea e o romancesito Idyllios á beira d'agua. Não me conhecia pessoalmente, elle vivia em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado algumas cartas.
Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, onde eu, recemchegado, sondava hesitantemente o meu destino.
Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um livro que me haviam comprado no Porto: Photographias de Lisboa.{188}
Reproduzo uma pagina d'esse livro:
«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa do Moreira, está o escriptor: tudo simples, alegre, baralhado e artistico. Quadros, retratos, livros, jornaes, flores, estatuetas, bengalas, charutos, um labirintho em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo homem. Eu explico a phrase, que póde parecer descomposta. É que as mulheres, por naturalmente timidas, facilmente se confundiriam no cahotico atelier do Julio.
«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor no ménage, é um valioso album em que a par dos authographos figuram os retratos das maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado pela photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, Victor Hugo, Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca Magalhães, Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas.
«A proposito dos escriptores francezes do album, falamos, á segunda vez que nos viamos, de litteratura franceza. Não sei qual de nós passou dos talentos masculinos da França para os femininos. Provavelmente foi o Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de Sophia Gay, mãe de Delphina Gay, depois madame de Girardin, lamentei não haver encontrado o seu nomeado livro Physiologie du ridicule. É effectivamente raro este livro, cuja primeira edição data de 1833.
«—Ás vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo a sua livraria, encontra-se a felicidade onde se não espera. Todavia é mais facil encontral-a debaixo d'um telhado do que debaixo d'uma pedra, d'onde a desencantou o nosso Camillo.
«E tirando para fóra um livro:
«—Ora se você póde reputar felicidade instantanea o encontrar a Physiologia do ridiculo, alegre-se que vae vêl-a.{189}
«E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou:
«—E lel-a.
«O Julio havia escripto:
«Ao seu amigo Alberto Pimentel—lembrança de Lisboa em outubro de 1873.
Julio Cesar Machado.»
«E entregando-me o livro:
«—E tel-a.
«Era impossivel recusar; acceitei.»
Depois d'esse dia, as nossas relações de amizade tornaram-se familiares, intimas, o tu veio consolidal-as como entre dois bons amigos de collegio, que se conhecessem desde a infancia.
Em 1888, nas Caldas da Rainha, fizemos a nossa estação de aguas alegremente, e, por acaso, retiramos no mesmo dia. Elle ficava na Durruivos, com a sua familia; eu, com a minha, seguia para a Ericeira. Uma bella tarde de verão declinava, e o que quer que fosse de leve saudade consoladora pairava no ar. Julio Cesar, sua esposa e seu filho apearam-se n'uma estação que não sei dizer ao certo se era o Bombarral ou o Ramalhal. Todos tres muito alegres, muito despreoccupados, saboreando a sua modesta villegiature.
Já elle ia saindo da estação, e eu gritei-lhe:
—Scenas da minha terra! Scenas da minha terra!
É o seu livro que mais fala da Durruivos.
Julio Cesar voltou-se rapidamente, abriu os braços como para receber as minhas palavras, e depois, com a mão direita, acenou na direcção dos campos, dos arvoredos da Durruivos.
O Julito agitou no ar o seu chapeu.
E o comboio partiu.
[17] e [18] Do livro Recordações de Paris e Londres.
[19] Do livro, o seu ultimo livro, Mil e uma historias.
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