Marquez de Thomar

Quando foi isso dos Cabraes acabava eu de entrar n'este mundo, e comprehendem facilmente que me interessasse mais o biberon do que a politica.

Logo que chegou da provincia a minha ama, voltei-me sofregamente para ella e, segundo o testemunho de pessoas insuspeitas, mostrei-me tão indifferente á politica, que nem sequer perguntei pelos Cabraes.

Se eu fosse um vulto politico do meu paiz, dezenas de Plutarchos, ao traçar-me um pomposo elogio biographico, haveriam notado a coincidencia do meu nascimento com um dos periodos mais agitados da politica portugueza.

Teriam gritado: predestinação! E diriam, una voce, que o illustre estadista (o illustre estadista era eu...) nascera sob a influencia da grande lucta travada entre os amigos e os adversarios do conde de Thomar—lucta feroz, em que de parte a parte se jogava a ultima cartada.

Effectivamente, os Cabraes haviam caido com a Maria da Fonte, o conde de Thomar fugira para Hespanha,{171} mas o resultado das eleições de 1848 chamára-o de novo ao poder.

1848! Ainda agora reparo n'esta data! 1848! A segunda republica franceza!... Decididamente, os srs. biographos poderiam, sempre no caso de eu ser um estadista de polpa, tirar bellos effeitos rhetoricos da época do meu nascimento, porque um anno depois da proclamação da republica em França e quando estava germinando a regeneração, foi que me estreei n'este mundo, envolto nas faxas infantis.

Mas como o acaso—essa bussola misteriosa que nortea os destinos humanos—não quiz que eu viesse a ser um politicão de marca, perdeu-se a descoberta de mais uma coincidencia biographica, mais um horoscopo notavel.

No que a meu respeito têem dito em bem e em mal, nem uma só palavra foi ainda escripta relativamente ao facto de eu haver chegado a este mundo depois de ter sido annunciado pelo himno da Maria da Fonte.

Paciencia!... Digo-o eu agora, porque a recente morte do marquez de Thomar chamou a minha attenção para a época da sua decadencia politica. Eu entrei n'este mundo durante os cem dias, posso dizel-o assim, de Costa Cabral, porque elle, como Napoleao I, teve tambem, á volta de Hespanha, alguns dias de ephemera restauração.

O que é certo é que vim encontrar o mundo politico portuguez ainda saturado do nome dos Cabraes. Não sei se a minha ama era cabralista ou patuléa. Naturalmente seria patuléa, porque era do Minho, e eu proprio, se pudesse ser então alguma cousa, seria patuléa tambem... E assim foi que correu a minha primeira infancia derivando por entre dois nomes, de que se falava muito com sentimentos oppostos, o conde de Thomar, que tinha caído definitivamente em 1851, e o marechal Saldanha, que tinha triumphado com a regeneração.{172}

Estavam ainda muito frescas as impressões d'esse movimento politico, recordava-se o Espectro e a Maria da Fonte, acudiam ainda á memoria de toda a gente as cantigas populares do Minho contra a familia dos Cabraes.

Digo familia, porque uma conhecida cantiga da época nem sequer poupava a esposa do ministro caido:

Luizinha, agora, agora...

Quiz porém o acaso que eu chegasse ainda a conhecer pessoalmente muitos dos homens notaveis d'esse tempo, incluindo o proprio Costa Cabral, e pude d'este modo completar as fugitivas e incertas impressões que, para assim dizer, trouxera do berço.

Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque é verdade, que o vi por um oculo: o oculo aberto na urna em que elle viera de Inglaterra. Mas em todo caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traços d'essa phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva e insinuante.

Vi o Sampaio da Revolução... de guardanapo ao pescoço, tomando pacatamente o seu chá de familia, e comendo com tranquilla delicia bolos de côco. Elle, o terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor do Espectro, o ardente pamphletario de 1846, vi-o eu ser o mais pachorrento, o mais soffrido, o mais tolerante dos homens que n'este paiz têem mexido em politica.

Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia, ouvi-o, convivi com elle politicamente nas horas de triumpho e adversidade. Tambem o vi morto, com o seu uniforme de general, deitado no modesto leito que os cirios rodeavam lançando sobre o seu rosto macerado um pallido clarão indeciso.

Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo vigor de homem forte para a sua cadeira de par do reino, e vi abrirem-se para elle todos os braços, e ouvi{173} as saudações respeitosas que todos os homens lhe dirigiam, sem excepção dos antigos patuléas enragés.

É que o tempo tinha passado, adormecido as paixões, saciado as impaciencias, envelhecido os homens.

Chegára a paz geral, que o meu excellente amigo D. Polycarpo Lobo, hoje coronel de lanceiros,[15] havia prophetisado. Os adversarios de 1848 tinham ensarilhado armas, os regeneradores de 51 haviam-se congraçado com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio Sampaio, com uma magnanimidade que faz honra á sua memoria, referendára o decreto que agraciou Antonio Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez de Thomar.

Em que abismo de recordações não mergulharia o espirito d'aquelles homens, que se estimavam na paz depois de se haverem odiado na lucta! Como elles ririam da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos do combate, que o ardor póde ser eterno, e que as suas proprias paixões hão de queimar durante toda a vida com a mesma violencia! E como elles chorariam intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das noites mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos de outr'ora, que se desfizeram em fumo!

Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio sentados nas suas cadeiras de ministros, e o marquez de Thomar sentado na sua cadeira de par do reino, meneando a cabeça, approvando tacitamente o que elles diziam...

Ao cabo de quarenta annos estavam de accôrdo, e a onda revolucionaria da Maria da Fonte tinha rolado para o sorvedouro da historia, deixando maiores recordações no papel do que nos homens.

Meio seculo é espaço mais que sufficiente para transfigurar, por dentro e por fóra, a natureza humana.{174}

De resto, o marquez de Thomar, Fontes e Sampaio deviam achar-se da mesma estatura quando se medissem mentalmente. O valor d'estes tres homens divergia em determinadas aptidões; mas a energia de caracter tinha sido igual em todos tres.

Costa Cabral fôra um luctador contumaz, arcára á mão tente com os homens que se lhe oppunham; foram precisas duas revoluções para o derrubar, porque á primeira resistiu elle.

Sampaio luctára com o luctador, perseguira-o com a penna, combatera-o implacavelmente com o Espectro, amargurára-lhe as horas de triumpho, os dias de poderio. Homem para homem; coragem por coragem.

Fontes resistira de pé, como os heroes, a todos os embates, que procuravam lançal-o por terra na sua gloriosa iniciação como ministro da corôa. Pôde dominar todos os estorvos, aplacar todas as difficuldades, chegou com esforço, mas viu e venceu como Cesar.

Todos esses tres homens foram dominadores por sua vez, todos tres brigaram encarniçadamente, e todos tres eram corações generosos, almas de bom timbre, expansivas e affectuosas.

Se no mundo misterioso da eternidade os espiritos podem encontrar-se e communicar, todos tres contemplarão lá do alto a sombra que projectaram na terra, e rir-se-hão da pequenez do seu vulto, que a nós nos parece enorme. Porque, descontadas no homem politico as suas paixões, as suas furias de momento, o que a seus proprios olhos deve restar parecer-lhes-ha cousa pouca e vulgar. Mas nós, os que sobrevivemos, continuamos a vêl-os grandes e colossaes, porque os ficamos vendo através da historia...

Sem embargo, como sempre acontece, ha, a respeito de Costa Cabral, algumas notas discordantes.

Certos jornaes têem feito accusações á sua memoria, mas a primeira condição para apreciar um homem politico deve ser, segundo penso, o exame detido e imparcial{175} das circumstancias em que se encontrou. É preciso reconstruir toda uma época para julgar com segurança um homem politico. E as circumstancias em que Costa Cabral se encontrou foram das mais agitadas por que tem passado o governo constitucional n'este paiz.

Accusam-n'o de volubilidade politica, de ter sido revolucionario e conservador. Esta accusação póde ser fulminada contra a maior parte dos homens politicos de todos os paizes, por isso mesmo que a politica é tudo quanto póde haver de menos certo e previsto. Governar é transigir, dizia amiudadas vezes Fontes Pereira de Mello.

Pois bem, os homens de estado têem que obedecer ás correntes caprichosas da opinião—tão caprichosas como as da atmosphera. E a palavra opportunista, modernamente lançada na circulação, explica bem todas as eventualidades, todos os accidentes evolutivos da politica.

Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral de renegado.

Ah! santo Deus! a quantos republicanos não póde ser feita igual accusação!

Tudo isto não faz senão confirmar que a politica é, essencialmente, uma força instavel, que se impõe muitas vezes á vontade dos homens, subjugando-a.

Cada vez estou mais inclinado a crêr que não ha principios absolutos, nem na sciencia, nem na politica, nem em cousa nenhuma. Ao sistema astronomico de Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico. Em politica tem-se visto tal paiz, como a França por exemplo, ser alternadamente monarchico e republicano. E cada individuo muda dentro de si mesmo centenas de vezes.

Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo da maior solidariedade politica que depois de 1834 se tinha visto n'este paiz. Por isso mesmo chegou a rodear-se{176} dos mais dedicados amigos. Quem não era por elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica, praticamente, esta maxima da sabedoria das nações: A união faz a força.

O sr. Oliveira Martins accusa-o, no Portugal Contemporaneo, de ter governado sem um principio moral. Ah! Diogenes da politica, accendei as vossas lanternas, e procurae os principios moraes de todos os governos... Haveis de ficar ricos com o achado!...

Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver a viação publica, como o fez Fontes Pereira de Mello, se tivesse interessado no seu governo as classes operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado no poder.

Foi, a meu ver, o seu grande erro politico.

Setembro de 1889.

[15] Esbocei saudosamente o seu perfil no livro Figuras humanas.—Nota da 2.ª edição.


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