Um grupo de academicos
Lendo ha poucos dias o livro de Alphonse Daudet—Trente ans de Paris—lembrei-me muito de Teixeira de Vasconcellos ao percorrer o capitulo que fala de Villemessant.
O livro (collecção Guillaume & C.ie) é illustrado, e até o retrato de Villemessant denuncia um homem robusto, nutrido, como era Teixeira de Vasconcellos.
Eu conheci este escriptor na sociedade e na Academia. Encontrei-me varias vezes com elle nas soirées politicas de Fontes Pereira de Mello. Visitei-o outras vezes em sua casa, graças á benevolencia com que desde o primeiro dia me havia tratado. Era um perfeito homem de mundo, um gentleman, espirituoso, algum tanto mordaz. Contavam-se a seu respeito anecdotas escabrosas, mas, no trato social, não havia homem que mais prendesse pela amabilidade e pela cortezia.
Um dia Teixeira de Vasconcellos convidou-me para fazer parte da redacção do Jornal da Noite. Eu precisava{154} trabalhar: acceitei. A benevolencia, que elle sempre me tinha dispensado, fazia-me acalentar a esperança de que o gentleman das salas havia de continuar a ser affavel para com o ultimo redactor do seu jornal. Mas, dentro da redacção, Teixeira de Vasconcellos era, pelo menos, um pouco Villemessant: auctoritario, por vezes brusco, um homem muito differente, tomando sempre á lettra o seu logar de chefe de redacção e de dono de jornal.
Toda a gente se queixava d'isto, e eu tive tambem razão para queixar-me.
Mas, logo que o redactor saía, o Villemessant, o dono do jornal desapparecia completamente. Teixeira de Vasconcellos voltava a ser, para o desertor do seu jornal, o homem de sala, amavel, serviçal, obsequiador.
As pequenas nuvens, que tinham empanado o céu, rasgavam-se. E Teixeira de Vasconcellos recebia cordealissimamente os homens com quem, no trato familiar de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas.
Foi o que aconteceu comigo.
Depois que sai da redacção do Jornal da Noite vivemos deliciosamente. Se escrevia a meu respeito, fazia-o com extrema amabilidade. Se eu o visitava, acolhia-me gentilissimamente. E algumas vezes, na minha presença, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores, como eu havia soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant para os outros, voltava-se para mim sorrindo e continuando a conversar placidamente.
Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que foi atacado, e assombrava-me o bom humor, sempre um pouco mordaz, só intermittente para os de portas a dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo.
Já de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer, mandou-me um pequeno artigo, que eu lhe havia pedido para uma publicação do editor Chardron e que, não havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio d'aquelle editor.{155}
Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior valia. Pena é conservar-se inedito.
Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada, mas o seu lucido espirito colheu e aproveitou as lições da experiencia.
Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle me deu:
—Se receber um livro mau, cale-se; se receber um livro bom, elogie-o.
Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando o não sigo, arrependo-me.
Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos. Passou metade da sua vida a estudar e outra metade a brigar. Quando entrei na Academia, estava ainda muito viva a lembrança de azedas discussões que elle lá tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto e d'aquillo. Sem embargo, e talvez por isso mesmo, Soromenho prestou bons serviços á Academia, de que fôra bibliothecario durante muitos annos.
É frequentissimo compulsar um livro qualquer da Bibliotheca de Jesus e encontrar dentro d'elle uma etiqueta que diz: «Adquirido pelo bibliothecario A. Soromenho para preencher a falta do exemplar da livraria.»
Bastaria só este serviço, muitas vezes repetido, para mostrar quanto Soromenho se dedicára pela causa da Academia.
Eu, que desde alguns annos converso mais os livros que os socios da Academia, lucrei sobremodo com a passagem de Soromenho pela bibliotheca d'aquelle estabelecimento, que ás vezes parece mais morto que vivo.
Não conheci nunca, no trato particular que tive com Soromenho, a irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam. Queixava-se, é certo, mas não se queixava mais nem menos do que todos quantos julgavam ter razão para o fazer. Não se vive largo tempo n'uma sociedade de homens do mesmo officio sem razões de{156} queixa. Peor do que uma sociedade de homens do mesmo officio só talvez uma sociedade de mulheres da mesma profissão. Quem melhor poderia dizer se isto é ou não inteiramente verdade, não o dirá por certo. Refiro-me ao sultão da Turquia e ao imperador de Marrocos, que têem serralho.
O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho foi um grande, um ardente desejo de estudar e saber. Elle defrontava-se corajosamente com todos os assumptos, por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente de uma posição obscura, e litterariamente do lirismo romantico. Entrou no mundo das lettras com um livro de versos, o Diwan. Mas á força de trabalho e perseverança nobilitara-se social e litterariamente. Investiu com as mais intrincadas questões de philologia, de historia, de epigraphia e de direito. E conseguindo, por um grande esforço de naufrago, emergir á superficie do mundo litterario, como professor e academico, certamente teria que combater e que soffrer, porque ninguem vence os outros sem ficar vencido de si proprio...
Apesar de robusto—Soromenho era um homem forte, com uma phisionomia algum tanto arabe—morreu relativamente novo.
A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria no Porto. Elle tinha ido áquella cidade como examinador de não sei que disciplina de instrucção secundaria; eu fui de Lisboa visitar a minha familia. Conversámos toda uma tarde. Soromenho contára-me casos, coisas da Academia e das litteratices lisbonenses. Animando-se na conversação, levantava-se, e então a sua bella figura de homem forte destacava-se como a de um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo, e a roseta de não sei que ordem portugueza ou estrangeira. Em rosetas não sou forte; entendo-me melhor com as rosas.
Lembro-me de que á despedida elle me dissera:{157}
—Olhe lá. Voce diz no Guia do viajante no Porto que eu nasci aqui. É engano. Sou de Aveiro—como os mexilhões.
Despedimo-nos rindo. Nunca mais falámos.
Antonio da Silva Tullio era um homem muito original, sempre atarefado, gritador, ás vezes tão precipitado que não se sabia bem o que elle queria dizer ou fazer. Muito activo, muito illustrado, não deixou comtudo uma obra litteraria que pudesse dar na vista á posteridade. Espalhou muito trabalho ás rebatinhas, e em pequenas doses, pelos periodicos litterarios da sua mocidade, A Semana, por exemplo. O que lhe conheço de melhor são as monographias sobre D. Catharina de Bragança e a Casa dos Bicos, bem como os Estudinhos de lingua patria, publicados no Archivo Pittoresco. De resto não consolidou o seu nome litierario n'um trabalho de folego. Faltavam-lhe, para isso, paciencia e methodo. Comtudo, era um homem de vastos conhecimentos litterarios.
Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pôde ter muito emquanto teve boa saude. Era um catalogo vivo, e comtudo havia na Bibliotheca muita cousa que lhe escapára por falta de catalogação.
Quando eu escrevi o Livro das lagrimas para a casa Mattos Moreira, quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca havia com relação a Santo Antonio de Lisboa.
Esta investigação era difficil, mas Silva Tullio citou-me logo, de cór, mais de quinze livros que tratavam do assumpto.
E no dia seguinte mandou-me para casa não menos de outros quinze livros.
Era em extremo obsequiador, serviçal, amavel. Ás vezes pedia-lhe a gente qualquer cousa. Elle, parecendo sempre distraido, respondia affirmativamente. Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. «Lá se esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi!» Pois não tinha esquecido. Quando já menos se esperava, dava accordo de si, satisfatoriamente.{158}
Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano, e pensava em colleccionar as cartas do grande historiador, mas não o chegou a tazer. O tempo fugia-lhe, não só porque elle o perdia com os outros, mas porque tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a Academia, e o Conselho Superior de Instrucção Publica. E de mais a mais faltava-lhe methodo para trabalhar. Foi sempre o grande defeito das suas qualidades.
Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um estilista, escrevia com pureza e elegancia. Apreciava muito estas qualidades nos outros, especialmente em Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo, teve uma grande admiração. A Semana, jornal que Silva Tullio dirigira de 1851 a 1852, atacou violentamente Camillo no seu noviciado litterario. Mas o tempo passára evidenciando a supremacia intellectual de Camillo, o tempo sazonára as suas grandes aptidões litterarias, e Silva Tullio tornára-se um dos mais enthusiastas admiradores do eminente romancista.
Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedára-se no Hotel Universal. Jantei ali com elle e, quasi ao terminar o jantar, entrou Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo até as dez horas da noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillo por mestre.
{159}