D. João da Câmara
João da Câmara (D.), cronista do Ocidente, autor dos Vélhos e da Triste Viuvinha, acaba de partir para a grande viagem donde se não volta. E agora, a esta hora que escrevo, se regozija êle na cela do seu caixão, cela dêsse «convento, que há alêm da Morte e que se chama a Paz». Êle não voltará jamais olhar-nos por cima da luneta, contar-nos uma anedota que o seu sorriso reticenciava, nem embalar-nos com o tom serêno, religioso, espiritual, da sua conversa tão segredada e insinuante.
D. João da Câmara era ainda, neste país de bacharéis, nesta pátria de futilidades e falcatruas, uma criatura que fazia vida àparte de cotteries e de políticas, que a vida levava como Deus era servido, e que por isso mesmo se tornou simpático a gregos e troianos.
Um bon viveur com perpétuas faltas de dinheiro, que a sua falta de tino administrativo e a sua generosidade fidalga explicavam prolíxamente, sem cuidados mais fundos do amanhã e sem que o hoje fizesse à sua maneira de encarar a vida descalabro grande; não havendo agiota que o não sugasse para não haver desventurado que, dentro do seu âmbito generoso e monetário, êle não protegesse; um boémio em tudo, se por boémio tivermos um abandono de horas, de convenções, de regularidades. Eis o que êle foi. Criatura sempre camarada, sempre amiga, sempre fidalga, não murmurando nunca dos outros, nada aziumeira e biliosa, sincera sempre no seu auxílio, a ponto de lhe forçarem a boa fé sem que tivesse desdens, a ponto de o intrujarem, sem que tivesse rancores, eis aqui como o conheci e a lembrança que conservo dele, o primeiro consagrado com quem me dei, se consagrado se pode chamar o que chegou primeiro e tem mais largos horizontes de protecção e crédito nominal, que nem outro crédito o escritor disfruta em Portugal.
A nossa camaradagem, e falo dela com orgulho, foi sempre boa, serêna, plácida. E dele três lembranças há, que mais fixativamente se me gravaram na memória. A da estatueta do escultor Silva Gouveia, uma flagrância bem natural, e a da penúltima vez que o encontrei, fazendo a ascenção penosa, uma ascenção asfixiante, da escada das Novidades, então no Largo das Duas Egrejas. Essa impressão é a mais viva. Uma impressão de ruína, de acabamento. Da última vez que o vi, foi na estreia das Rosas de todo o anno, do nosso Júlio Dantas, no palco de D. Amélia. Nunca mais o tornei a ver. Agora outra impressão me ficou: a do seu entêrro, em que se fizeram discursos que deviam ser proibidos, por convencionais, literaticos ou desageitados, e onde em tôdas as fisionomias vi a mágua sincera da sua perda, a ponto de grandemente me apoquentar a cara contristada, sofredora, de Lopes de Mendonça, outra criatura sincera e afectiva, e a de Eduardo Schwalbach, que nada tinha, nada, do seu mefistofelismo habitual.
Quanto à obra pública do escritor, outra é a minha opinião. Eu não creio que João da Câmara tivesse feito uma obra grande. Que fizesse uma obra sua não duvido, porque tôda ela é desigual, ressentindo-se das ocasiões em que a trabalhou, das circunstâncias em que a fabulou o espírito, e das impressões ou necessidades que a fizeram trasladar ao papel. Nem plano, nem harmonia, nem concatenação filosófica que a atravesse, nem fim a que se destine. Ela não é mais do que o espelho dum espírito cheio de lirismo, romântico por falta de leituras novas, sem concepção do mundo e dos outros e ainda o que é mais, sem que seja outra cousa do que produto duma travessia desordenada e fugitiva pelas regiões do sonho.
O livro póstumo ora publicado—A Cidade—é mais do que medíocre. São poesias soltas, cantando cousas banais, em versos banais, porque não foi, esta pobre alma de poeta, nunca uma alma tragediadora que sentisse a vida e as cousas com nervos de quem sente apressadamente. Natureza mole, um quási nada enxundiosa, a vida representou-se-lhe sempre como uma cousa calma e pacificada, demais tendo, como êle tinha, porque era um bom, o defeito de acreditar na bondade alheia. Assim, o seu lirismo são versinhos sem nexo à falta de idea que os vibre, e deixam-nos no espírito a impressão de que lhes deu forma uma criatura afeminada e criada entre armures e cousas fôfas. A cidade que o poeta viu é uma cidade banal, de lirismos contumazes de poeta principiante e água morna. Quanto à obra restante, bom será que a turba jornaleira, que não soube fazer um artigo digno e deu à jolda informatriz o encargo de dizer do passamento do malaventurado homem de letras, se não escagarrinhe de entusiasmo por peças que nunca viu representar, nem livros que jamais leu. E bom será, para que não venha provocar palavras de justiça quando são necessárias palavras de saudade. Babuje embora os seus pobres louvores, sem forma e sem gramática, a sua sermonada do costume em entêrro de conselheiros, mas não queira exercer, judicatura em cousas para que ninguêm lhe deu fôro. E que os mortos não sirvam, pobres mortos! para que um nome que não lhes serviu a êles, nos agiotas, sem fiador, venha levantar celeumas justiceiras e tornar-se ferrete ignominioso duma profissão.
Curioso é, como, tendo morrido o pobre D. João, há bem pouco tempo, já os jornais andam afervilhados para que a família do escritor não fique na miséria. E vá de explorar essa miséria fazendo jus a uma pensãosinha, pondo demais à cabeça do rol a encobrir, justificar e pôr o visto, o nome de Fialho de Almeida, sob títulos de que Fialho num artigo frisava o estado precário do poeta.
Há por certo engano. Os senhores estão enganados. Fialho não frisou o estado de miséria em que viveu D. João. O que Fialho fêz foi frisar o estado de miséria em que chafurdam os nossos intelectuais. Generalizou, não falou de D. João em especial. A miséria dos nossos intelectuais, se miséria se pode chamar um máu passadio, de horizonte limitado, em tudo é já sabida. É até uma tristeza mecher-se nisso.
Mas os jornais não param. Pretendem para a família de D. João uma pensão.
Ora, começa aqui o amargo. A família de D. João não a merece. Porquê? Porque não. Ficam escondidas várias razões que virão, se fôr preciso. Não a merece, como a não merecia a família de João de Deus e como a não merece a família do Eça.
A obra de D. João não é uma obra nacional ou com foros disso. O Estado pagou ao escritor como funcionário público. O Conservatório como professor.
Nada tem o país que ver com o resto.
Mas se os jornais querem dar uma pensão à família do escritor, que se reunam êles, as empresas teatrais, as casas editoriais, os agiotas e terceiros, para fazer a restituição de tudo quanto em vida lhe roubaram.
Pensão do Estado não pode ser. E não pode ser, porque o Estado é pobre e porque basta de precedentes. Eram 800$000 réis, não eram? Pois reclamem, reclamem êsses oitocentos mil réis para escolas, para que amanhã o povo dê ao escritor mais mil ou dois mil leitores. O Estado é pobre, o Estado não pode dar pensões a ninguêm, quando ha milhões de analfabetos. O Estado não pode ter parasitas, quando tem dívidas. Que dê pensão aos netos de Camilo, vá. Mas que as dê a todo o que se permitiu gastar o pouco que ganhou, sem nenhum interêsse para a arte nacional, é que não. Amanhã virão todos os que literatejaram e conseguiram nome reclamar. Virá... eu não digo os que virão. É melhor estar calado. Até eu, quando morrer, deixarei à família o requerimento.
Mas para que demónio nos obrigam a falar nestas cousas!?