Os bastidores do Génio

Zola—Wagner—Gorki

a Eduardo Schwalbach.

Sienkiewicz, êsse forte e original Sienkiewicz, que a multidão consagrou pelo martírio da sua Lígia, o amor da sua Eunice e a linha orgulhosa e aristocrata do seu Petrónio, tem em tôda a sua obra um livro maior do que êsse Quo Vadis aclamado e do que êsse Dilúvio de que se fala tanto. Intitula-se, na tradução portuguesa, Sem Dogma.

Pois foi nesse livro, quási esquecido, que eu topei um dia com esta frase intensa: «todo o homem tem em si a sua tragédia». Se, na sua generalidade, ella é já precisamente humana, quando se aplica a artistas toma a sua expressão mais flagrante e mais real e, então, como certas palavras de que fala Daudet, que quando se pronunciam abrem um horizonte inteiro ao pensamento, visiona qualquer cousa do abismo dessas almas de que se conhece só a superfície.

Foi com a tragédia espantosa dêsse russo, que está agora prendendo a atenção do mundo—êsse Máximo Gorki que é tão grande como Tolstoi—que eu me dei a considerar a tragédia de todos os que lutam pela Arte, almas de luz e fel, que, como êle na sua passagem para a Glória, escondem uma odisseia de torturas, amassada de lágrimas e feita de ânsias e tormentos.

Essa tragédia dolorosa, indescritível, convulsa, misto de aromas e travores amargos, esperanças e desilusões, é a que transborda para as suas personagens, para as figuras que criaram e a que deram vida. Se uma figura às vezes atravessa um livro inteiro, um drama, uma peça inteira carregada de amargura—tanta que infunde piedade,—é que o seu autor trazia muita consigo. Se sofreu tanto que se impõe à nossa admiração, lá está por trás dela êsse homem transfigurado, às vezes grandioso e ridículo, que chora as suas lágrimas e sofre as suas dôres porque a tragédia das suas personagens é arrancada da sua própria tragédia. O autor é o seu primeiro actor. É a sua tragédia que êle ali estadeou e autopsía. Tôda a porção de ridículo, de mágua e piedade, de cólera e compaixão, todo êsse arco-íris de sentimento não é mais do que qualidades suas que êle transportou, corporizando-as no papel. Não é a vida alheia que êle vive. É a sua. Todos os dramas, tôdas as tragédias que êle patenteou nos seus romances, nas suas peças, nos seus quadros, na sua música, não foram mais que uma janela que êle abriu à alma para nos mostrar a sua tragédia.

¿Pois o Dr. Storkman do Inimigo do Povo, de Ibsen, não será a sua própria encarnação dentro do drama? ¿A luta que Storkman sustenta contra o egoísmo e a mesquinhez do seu meio não será a mesma que Ibsen sustentou, para conseguir impor a sua arte?

¿As outras figuras não serão figuras que êle sentiu à sua roda molestando-o,—vivendo-as por conseguinte? ¿Brand, Solness não serão ainda êle? Ibsen conheceu o insucesso, lutou, lutou e venceu. ¿A estranha conclusão a que êle chega no Inimigo do Povo não será a conclusão que cimentou das suas horas de odiado e guerreado?

¿Swit na sua obra não se identificou tão profundamente com ela que antes parecia tê-la vivido e representado? ¿A tragédia do célebre Kreissier de Hoffman não será por acaso a sua?

Em Flaubert a tragédia é tão intensa que chega a confessar que, na ocasião de transportar ao papel o envenenamento de M.ᵐᵉ Bovary, sentia na bôca o sabor do arsénico. Edmond Goncourt, no Journal, falando de seu irmão Jules, dá-nos uma prova flagrante disso, dizendo que à fôrça de se analisarem, de se estudarem e de se dissecarem, chegaram a uma sensibilidade super-aguda, que os fazia assim viver a vida das suas personagens.

¿Pois não arrastou dentro de si esse bárbaro Shakespeare a tragédia tormentosa do seu rei Lear, a loucura sonharenta dêsse Hamlet, a perfídia de Macbet e a candidez da sua Ofélia? ¿Não se descortina em tôda a obra dêsse melado e extraordinário Daudet a sua tragédia? ¿Dickens, Póe, Baudelaire, Verlaine e êsse Rollinat, cuja morte estranha ainda está na memória de todos, não se encarnavam na sua vida literária, não eram aquelas páginas, aqueles versos, aqueles dramas arrancados de si, motivados por essa super-intensidade de sentir análoga à dos Goncourts e que lhes faz ainda maior a sua tragédia?

Wagner é o herói da sua novela, O fim de um artista em Paris, como Gorki é o padeiro do seu conto dos Vagabundos. ¿Zola, essa forte organisação de génio e de trabalhador, não se retrata nesse belo e inolvidável conto Nantas? Não sentiu êle o seu Nantas? ¿Não viu Paris, faminto, correndo tôdas as portas à procura de emprêgo, sofrendo tôdas as recusas, sentindo inamovíveis aos seus desejos todos os corações, fechadas tôdas as almas, exactamente como o seu Nantas quando voltava à noite a casa, cambadas as botas, alma sêca, cheio de lama, tendo corrido dum extremo ao outro extremo todos os boulevards da cidade? E não lhe pôde êle dizer um dia, exactamente como Nantas—Agora és meu?!

Nantas, como Zola, é um moço que chega a Paris sem um ceitil na escudela e que o corre todo a procurar uma côdea, porque Nantas, exactamente como Zola, teve fome. Depois consegue triunfar, mercê duma incrível tenacidade, duma fôrça hercúlea. Chegara. Como Zola ainda!

Audran passou miséria. Maupassant, Daudet e Balzac conheceram a vida, o mais ingrata possível.

Chatterton, para fugir à miséria, pediu refúgio à morte. Bernardin de Saint Pierre não tinha uma camisa para vestir. A miséria de Milton e Homero é tão indubitável como o seu génio. Savage morreu de frio numa rua de Paris. Camões e Gilbert, como Verlaine, foram varar a carcaça à cama do hospital.

Villiers de l’Isle Adam e Barbey d’Aurevilly, Shakespeare e sabe Deus quantos outros, morreram na miséria. É esta miséria, eterna companheira dos artistas, que Wagner invoca no comêço da sua Visita a Beethoven. «¡Pobreza, dura miséria, companheira habitual do artista alemão! É a ti que, escrevendo estas memórias, te devo invocar. Quero celebrar-te, fiel companheira, que sempre me tens seguido a tôda a parte.»

Entre os portugueses, êsse génio esquecido de S. Miguel de Seide, sem estátuas, nem ruidosas consagrações, mas com uma obra maior do que isso tudo, ¿não sofreu essa angústia do Amor de Perdição? ¿A sua obra, essa gigântea Comédia humana, não foi dele que saiu, da sua tragédia? ¿De que porção enorme de lágrimas, de amor, de amarguras, de todo êsse misto sem nome, não seria feita a tragédia dêsse homem? Tão grande ela era que chegou para êle a dividir por uma centena de criaturas, que vergam muitas vezes sómente ao pêso da pequena parte que êle lhes quinhoou e que, comparadas à sua, não chegam, sequer, a ser uma lágrima no Atlântico.

¿As criações do nosso Eça não serão figuras que êle sofreu, que viveu e que o rodearam? Temos ainda Fialho de Almeida, o extraordinário colorista do nosso tempo. ¿Pois não é êle quem, na sua autobiografia, confessa que viveu alguns anos de prodígios económicos, alguns miseráveis cobres que não compensavam nem sequer o que para os apanhar tinha suado?

¿Veja-se, perscrute-se um quadro de Rembrandt ou de Sequeira, uma tela de Goya ou um esfumado de Assunção, uma partitura de Wagner ou uma sinfonia de Beethoven, e que tragédia não há em tudo isto, como aquela arte não é suada e sofrida, que soma de trabalho não representa?

¿Quantas horas de canseira para daguerreotipar um tipo, caricaturizar o grotesco duma figura, fazer o esquiço ou a silhouete apenas doutra; o aguardar dum beijo, o facies contorcido duma máscara, o estilo que sabe a carícias, a armures, a fofos dedos e amarrotadas sêdas? ¿Que soma de ânsia e de suor não representam as figuras convulsas de Dostoiewski, a beleza formidável dos ladrões e dos vagabundos de Gorki, o diavolismo de Barbey d’Aurevilly; em d’Annunzio, a torturada confissão do seu Episcopo; em Zola, o naturalismo da sua Naná e de Le Germinal, a delícia suprema de Le Rêve e a singularidade de La Bête Humaine; o esmerilhado feminil dêsse Gauthier, o espiritualismo de Maupassant e de Huysmans, a saudade voluptuosa de Pierre Loti, e a psicologia burguesa de Bourget?

O público de nada sabe. ¿Que lhe importa a maneira como e porque se fêz a arte? E aí está como às vezes passa despercebida a genesis de obras que as gerações que vierem, mais justiceiras talvez, hão-de apreciar devidamente.

A tragédia abraça todo o artista. Vai de Zacconi a Zola, como foi de Raphael a Guttenberg, ou de Sócrates a Platão, e encontra-se igualmente na freira portuguesa, essa Sóror Mariana apaixonada, e na alma dêsse pessimista violento e cruel que se chamou Schopenhauer.

O destino aproximou no génio estes três nomes: Gorki, Zola e Wagner, como os tinha aproximado na mesma odisseia de desventura. O músico alemão, o contista russo e o escritor francês identificam-se poderosamente.

Wagner, refugiado em França, chegou aos últimos apuros. Zola, quando veio para Paris, sem nome e sem dinheiro, passou uma vida aflitiva primeiro que o seu nome fôsse conhecido. Na rua Soufflet, numa hospedaria onde habitava e onde as rusgas da polícia eram freqùentes, viveu Zola uma vida espantosa, no dizer dum dos seus mais dedicados biógrafos. «Conheceu ali tôda a classe de privações. As suas comidas eram pão e café. Ou bem pão e dois soldos de queijo de Itália, ou pão e dois soldos de batatas. Algumas vezes sómente pão! Outras nem isso sequer! As roupas iam parar, umas após outras, ao monte da Piedade.»

Era então, como de Wagner, a pobreza a sua companheira habitual. Quando a última peça de vestimenta se havia sumido, aí estava Zola forçado a ficar em casa, envolto nos lençóis e na coberta. Nem por isso ia a pique a serenidade, e essa maneira de trajar denominava-a, pitorescamente, fazer de árabe, aludindo aos muitos árabes que se viam em Paris, envoltos nos seus albornoz brancos. ¿Quem sonharia ali o futuro autor da Obra, do Germinal, e o defensor heróico de Dreyfus? Mas Zola é o maior exemplo de tenacidade do mundo inteiro. Como êle triunfou todos o sabem. O seu nome é hoje tão ou mais universal que o dêsse vélho conde russo,—Tolstoi. Mas, mais do que êste, conseguiu desencadear sôbre si todo o aplauso e furor humanos, uma verdadeira tempestade de palmas e de ódios, de admirações e de rancores.

Gorki é perfeitamente a sua obra. Ela só trata de miseráveis, de vagabundos, de ladrões, criaturas sem lar e sem abrigo, sem um braço onde repousem a cabeça, nem uma bôca que lhes cicie palavras de confôrto e de resignação. Foi moço de bordo, padeiro, vagabundo, barqueiro, operário, guarda de linha, tudo quanto um homem pode ser. Correu meio universo, sentiu em erupção a sua dôr e a alheia e disso fêz uma obra. Plena de emoção, vibrante, e cheia de saudade, nenhuma outra, que me lembre, é tão intensa. Contou o que tinha sofrido e só isso lhe deu o triunfo, só isso lhe aureolou o nome da admiração universal. Triunfara! ¡Mas para quantos o triunfo chega tarde!

São assim os grandes espíritos. Quere êles se chamem Danton ou lord Byron, Homero ou Bonaparte, Pedro, o discípulo, ou Plínio, o sábio. Todos teem seu martírio e sua consolação; mas no que todos devem concordar é que a glória é uma cousa bem amarga!