Quanto custa uma mulher?

Tibério, filósofo machacaz e meu amigo, tendo lido nesse extraordinário doido que se chamou Nietzsche, que tudo pode ser pago porque tudo tem seu preço, veio a mim, resoluto e inquietador, saber qual o preço que em boa razão se deve dar por uma mulher. Tibério é um filósofo cheio de ironia azêda e eu, pobre de mim, confessando-lhe a minha ignorância, resolvi consultar os padres mestres, os calhamaços e os chavões. Áquele que perdêra os óculos a arrumar a livraria, aconselhou Castilho que os procurasse no Dicionário, letra O, que lá estavam. Pois nos livros,—nos livros há de tudo como na botica—devia vir por fôrça a resolução do problema.

Procurei, deitei abaixo a livraria e nada. Os meus livrecos eram todos, ou quási todos, subservientes. Em lhes cheirando a saias...

Tinha ideia dum tal Schopenhauer, filósofo de bôca amarga, estômago sólido e algibeira quente. O que êle dizia, porque todos estes filósofos dizem cousas, era pouco, mesmo muito pouco.

E Tibério esperava resposta, mãos nas algibeiras, perna traçada. Então?...

Suava. Guérin Ginisty dizia, isso lembrava-me eu, que, no fundo, uma mulher nunca resiste a bons argumentos: «Com quinhentos luíses, a mais segura delas, indigna-se... Com mil, defende-se... Com dois mil, perturba-se... Com mais alguma cousa, cede». Tibério amigo, aqui tem você! Foi o que se pôde arranjar! Mas Tibério sorria e fazia uma careta. Acho forte, respondeu! Dois mil luíses é muito! Acho caro! Muito caro, mesmo.

E Tibério, lesto, acabou o cigarro,—não sei se disse que Tibério fuma desalmadamente!—abriu a porta e foi-se.

Agora aqui fico considerando na pergunta. Fôra uma vergonha tanta ignorância junta. Mas, era a derrota de tôda esta livralhada de que me ufano tanto. Era a derrota de tudo isto, ante o gesto desdenhoso e a pergunta irritante dum filósofo safardana e impertinente. Nada, não tinha geito nenhum. Considerei, estudei o problema.

Já lá vai algum tempo depois da pergunta. Agora, se o bom Tibério me aparecer, mostrando o meu ar mais profundo e o meu mais retórico gesto, dir-lhe-hei:

«Tibério amigo: O preço duma mulher varia conforme as circunstâncias. Na Austrália compra-se uma mulher por uma garrafa de vidro, ou por uma faca ferrugenta. Hás-de concordar que não é caro! Na Cafraria, por uma quantidade de cabeças de gado bovino, quantidade que varia de dez a setenta cabeças. Na Índia, por um porco ou por bois. Mas, se deres mais de dez bois, já foste comido! Na Islândia compra-se uma mulher por um marco. Em pontos da África por uma garrafa de rum, e olha que não é barato! O rum sempre vale mais.

Entre os povos civilizados, o negócio é mais demorado. Casar com ela, é a fórmula. Então dá-lhe o nome. E ela vendeu-se ou porque sim, ou por ver a sua tranquilidade assegurada, ou porque o marido tem boa posição, é deputado, ou lhe pode dar vestidos. Há tambêm uma outra moeda. Essa, chama-se Amor.

O Amor é uma bebida e uma embriaguez. São duas criaturas que se encontraram e se propozeram beber do mesmo copo. Beberam até cair. Depois a bebida começa a repugnar-lhes e adormecem. Essa repugnância chama-se Saciedade e o adormecer, Esquecimento. Quem um dia adormeceu no amor ou quando acordou está curado ou não acordou jamais.

Ora eu, amigo Tibério, não acredito no Amor, cousa em que jamais algum homem forte acreditou. O amor é uma cousa para crianças, uma teia de aranha. É preciso estar quietinho para que ela se não rompa. Depois não acredito que tu ames! ¿Pois tu, com êsse carão ignóbil de farçola, sabes lá amar? Mesmo que amar é subalternizar-se. Quem ama curva-se. Quem ama, meu caro amigo, transige. Quem ama, sim, quem ama... emfim não te aconselho a que compres mulher nenhuma com essa moeda. Sai pelos olhos da cara.

Bem. Mas suponhamos que realmente a queres comprar por êsse preço. Eu te digo: Tu que a queres, é porque a desejas. Ora não há nada tão jesuita como um desejo. (Isto é de Balzac, mas tão profundo que parece meu). Mas desejar não é tudo. É preciso paciência, uma paciência enorme, uma daquelas paciências que vulgarmente se chamam paciências de ...cordato paciente. A paciência, ou leva ao triunfo, ou à cura. Com paciência, saberás esperar. As impaciências são nefastas e tão funestas em trato de gente limpa que Acácio, conselheiro, a caminho de presidente do conselho, diz que elas são próprias da gente ordinária. Acácio é chavão, Acácio sabe disso. Nada percebe de amor, mas tem dinheiro, e quem tem dinheiro, tem tudo e mais amor.

Ora, ia dizendo! com paciência descobrirás o fraco da pretendida. Lá diz Molière: Não é bem Molière, é Castilho, mas isso não tira nem põe:

Nem o mais forte resiste

Aos que no fraco lhe dão.

Que mais queres? Meio Brummel, um quarto de Tartufo e um logar no ministério da Fazenda deve chegar. E, se não chegar, olha que sempre te digo que é caro. É pela hora da morte. «Um animal de cabelos compridos e ideias curtas» como quere Spencer!

Acredito que, não a achando em conta, a não comprarás. «Não te deixes ir atrás dos artifícios da mulher» é o palavreado bíblico, e olha que é certo como as cousas certas.

Comprar a mulher em troca dum vitelo, como se faz na Hotentócia, não acho caro.

Em troca duma tanga vermelha e quatro penas de pavão para a carapinha, ainda está bem. Dum boi, se os bois abundam, ainda não está fora da conta. Agora comprá-la pelo casamento acho caro. O casamento «é um contrato perpétuo»... por tôda a vida, bem sei, diz o código. Ora um contrato por tôda a vida, para sempre, de que um homem se não pode evadir senão morrendo, acho duro. E é comprar uma cousa que não serve para nada e de que a gente se não pode desfazer vendendo-a a terceiros.

Nada. Não te aconselho êste meio. Pelo amor, vá. Amor com uma parte de indiferença e duas de desconfiança.

Mas Tibério amigo, isso é platónico? Estarás tu apaixonado? Apaixonado! Mas isso é inacreditável num scéptico, num ironista, num desenganado, num filósofo emfim. Como os filósofos são frágeis! Como o homem é afinal e no fundo uma pena leve que o vento levanta e muda. Como você, Tibério, se deixou apaixonar.

(Aqui Tibério protestará com a veemência dum deputado da oposição e eu rejubilo por o meu amigo Tibério ainda não ter escorregado).

Bem me queria parecer! você, amar! Você o mordaz, o cínico, o que diz conhecer os homens e as mulheres!

Olhe, Tibério, quere um conselho? Os homens fortes não amam. Amar é próprio dos fracos. Tenha sempre esta máxima à cabeceira. Guerra Junqueiro disse a Mercedes Blasco que pusesse à cabeceira da cama a vida de Cristo e a vida de Buda. Pois digo-lhe que guarde à cabeceira da cama a recordação do que lhe digo. Tenha sempre presente. O amor é como o toucinho, e dêsse diz Paulo Diacre, que todo acaba por criar ranço. Ora quem começa a amar acredita lá que o seu toucinho crie ranço algum dia!?

Tibério: Meu amigo. ¿Leu você nos jornais a notícia daquele homem que se suicidou em Paris, por causa duma mulher que o deixou? ¿Leu você a história daquele que, ciumento, furou a pele doutra com uma dúzia de punhaladas? ¿Leu você a daquele outro que, por causa dEla, matou o rival com uma cacheirada no toutiço? Leu você? Ora aqui tem exemplos dos que as compraram bem caro, se é que as compraram mais do que em Ideia. Veja você se pode passar sem isso. Não compre nenhuma. Veja se alguêm lha empresta, ou se a encontra. E se emfim sempre se puser a comprá-la, compre-a por tudo menos por essa tal moeda que se chama Amor. Não se apresse. Vem no Frei Luís de Souza... «As cousas são grandes ou pequenas, segundo a medida do desejo com que se buscam...» Quanto menos as desejar mais baratas lhe aparecerão.

E que pena que Tibério já se tivesse ido embora! Era um discurso tão bonito!...