Engracia e Carneiro Real

ENGRACIA—Meu marido não está, mas...

CARNEIRO (atalhando)—Mas, nesse caso, dou meia volta volto logo, quando elle estiver de volta.

ENGRACIA—É melhor esperar, porque talvez elle não se demore.

CARNEIRO—Esperarei.

ENGRACIA—Ah! Sr. Carneiro, sou muito desgraçada.

CARNEIRO—Sinto muito a desgraça da sr.ª D. Engracia! Eu, graças a Deus, fui agraciado com a graça de uma Felicidade que me faz o mais feliz dos mortaes.

ENGRACIA—Tem a certeza?

CARNEIRO—Minha senhora. A minha Felicidade nunca levou a infelicidade a parte alguma e muito menos ao lar conjugal.

ENGRACIA—Engana-se. A minha casa esta sentindo os terriveis effeitos da existencia de sua esposa.

CARNEIRO—Dar-se-ha caso que a sr.ª D. Engracia não engrace com a côrte que os filhos de v. ex.ª fazem ás minhas filhas!

ENGRACIA—Perdão, sr. Carneiro. O sr. não é pae de suas filhas!

CARNEIRO—Que me diz?

ENGRACIA—A verdade, infelizmente.

CARNEIRO—Já não estou em mim!

ENGRACIA—Resigne-se!

CARNEIRO—Mas dado o caso que se o que v. ex.ª diz que se , não me é dado saber quem é o pae das creanças que minha mulher deu á luz? Não sei se me dei a entender?

ENGRACIA—Ora essa! O sr. conhece-o perfeitamente. É seu freguez!

CARNEIRO—Meu freguez?! Tenho tantos!...

ENGRACIA—Sim, aquelle para quem são as amostras que o sr. traz.

CARNEIRO—Seu marido! O sr. Pinto Gallo!

ENGRACIA—Elle mesmo!

CARNEIRO—Pois, minha senhora. Diga ao sr. Gallo que passa a ter um Carneiro á perna. (Pensando) Por isso minha mulher não queria se não ave de penna e chamava frangas ás filhas.

ENGRACIA—Maldita Felicidade!

CARNEIRO—Mas, em tal caso, casar as filhas de minha mulher com os filhos de seu marido, é um caso repugnante.

ENGRACIA—Decerto!

CARNEIRO—E eu que não sabia o que era sabido por v. ex.ª e que talvez muita gente já saiba e esteja farta de saber. Ah! Que se eu soubesse, outro gallo cantaria!

ENGRACIA—Quer o sr. ligar-se a mim!

CARNEIRO—Oh! Minha senhora! Não ha ligadura possivel. A companheira d'um Gallo difficilmente fará boa liga com um Carneiro.

ENGRACIA.—Esta união é apparente e só para tirar uma desforra.

CARNEIRO—Eu só me desforrava, lançando-lhe fogo ao fôrro do casaco, e, quando o maldito Gallo estivesse bem assado, mandava-o de presente á Felicidade! Mas deixe estar que hei-de assentar-lhe as costuras, hei-de desazá-lo.

ENGRACIA—Sua esposa hontem sahio?

CARNEIRO—Foi passar a noite para casa de uma irmã.

ENGRACIA—Enganou-o redondamente. Meu marido foi hontem com ella ao theatro.

CARNEIRO—Que falsa! (Ouve-se tossir) D. Engracia, não ouvio?!...

ENGRACIA—É provavel que seja meu marido. Para lhe fazermos pirraça, finja que me faz declarações amorosas. Deite-se a meus pés e beije-me as mãos, sr. Carneiro.

CARNEIRO—Executarei o que me ordena! Ah! sr. Gallo! Amor com amor se paga! Quem com ferro mata com ferro morre. (Entram D. Alexandre e dr. Manso Cordeiro).