Pinto Gallo, Dr. Manso Cordeiro e Carneiro Real

PINTO GALLO—D. Alexandre disse que não sabia bem se o tal sujeitinho sahira, talvez que... (O dr. Manso Cordeiro, farto de estar fechado, pretende abrir a porta do quarto onde está) Olá! Cá está elle! Fechado por fóra! Que grande ideia! (Abre a porta. O dr. Manso entra)

DR. MANSO—Deixem-me ir ter com ella! Deem-me a photographia ao menos, já que não póde ser o original.

PINTO GALLO (agarrando o dr. Manso)—Estás nas minhas mãos!

DR. MANSO—Ó meu caro senhor!... Não faça mal ao dr. Manso Cordeiro.

PINTO GALLO (aos empurrões ao dr. Manso)—O Manso Cordeiro, não satisfeito com a sua quer tambem a alheia?...

DR. MANSO—Não me martyrise!

PINTO GALLO (como acima)—És Cordeiro... deves prestar-te ao sacrificio! (Entra Carneiro Real, Pinto Gallo larga o dr. Manso)

CARNEIRO—O Gallo em correrias!...

PINTO GALLO—O meu alfayate! O sr. Carneiro Real!

DR. MANSO (áparte)—O homensinho do beija mão!

CARNEIRO—Venho ajustar contas com o meu amigo... (áparte) de Peniche!

DR. MANSO (áparte)—É bem feito! Abençoado credor!

PINTO GALLO—Não lhe devo nada! O sr. quer depennar-me?

CARNEIRO—Quero assentar-lhe as costuras...

DR. MANSO (áparte)—Bravo! Valente Carneiro!

PINTO GALLO—Mas o sr. ainda não me provou...

CARNEIRO—Não sou como minha mulher que gosta de ave de penna...

DR. MANSO—E meu sogro que não me apparece com o retrato de Alice... Onde estará?

PINTO GALLO—Não sei a que deva a sua colera?!

CARNEIRO—O senhor é o pae de minhas filhas, o amado de minha mulher...

DR. MANSO (áparte)—Por isso a D. Engracia lhe paga na mesma moeda!

PINTO GALLO—Não conheço a sua mulher! (recordando-se) Ah! Sempre tenho uma memoria de Gallo! Por isso Engracia me dizia que eu tinha um carneiro a perna! Então o senhor é o amado de minha mulher?!..

DR. MANSO (áparte)—Contradansa conjugal!

CARNEIRO—Fui amado a fingir mas o senhor... foi a valer!

PINTO GALLO (ao dr. Manso)—Mas afinal quem vem a ser o senhor?!

DR. MANSO—Sou o genro de D. Alexandre.

PINTO GALLO—Ainda não o conhecia... desculpe-me! (a Carneiro) E o sr. Carneiro, saia!...

CARNEIRO—Não saio sem explicações! Sou o offendido!

PINTO GALLO—O offendido e o dono da casa sou eu! Saia, senão enfio-lhe uma cadeira pela cabeça abaixo! (pega numa cadeira e corre sobre Carneiro).

DR. MANSO (gritando entre os dois)—Acudam! Venham ajudar o Cordeiro a separar o Gallo do Carneiro! (Entram D. Alexandre e Engracia).