D. Pedro.

Pela encosta do Libano, rugindo, O nóto furioso Passou um dia, arremessando á terra O cedro mais frondoso; Assim te sacudiu da morte o sopro Do carro da victoria, Quando, ebrio de esperanças, tu sorrias, Filho caro da gloria. Se, depois de procella em mar de escolhos, A combatida nave Vê terra e o vento abranda, o porto aferra, Com jubilo suave. Tambem tu demandaste o céu sereno, Depois de uma ardua lida: Deus te chamou:--o premio recebeste Dos meritos da vida. Que é esta? Um ermo de espinhaes cortado, D'onde foge o prazer: Para o justo ella existe além da campa: Teme o ímpio o morrer. Plante-se a acacia, o symbolo do livre, Juncto ás cinzas do forte: Elle foi rei--e combateu tyrannos-- Chorae, chorae-lhe a morte! Regada pelas lagrymas de um povo, A planta crescerá; E á sombra della a fronte do guerreiro Placida pousará. Essa fronte das ballas respeitada, Agora a traga o pó: Do valente, do bom, do nosso Amigo Restam memorias só; Mas estas, entre nós, com a saudade Perennes viverão, Em quanto, á voz de patria e liberdade, Ancear um coração. Nas orgias de Roma, a prostituta, Folga, vil oppressor: Folga com os hypocritas do Tibre; Morreu teu vencedor. Involto em maldicções, em susto, em crimes Fugiste, desgraçado: Elle, subindo ao céu, ouviu só queixas, E um choro não comprado: Encostado na borda do sepulchro, O olhar atraz volveu, As suas obras contemplou passadas, E em paz adormeceu: Os teus dias tambem serão contados, Covarde foragido; Mas será de remorso tardo e inutil Teu ultimo gemido: Do passamento o calis lhe adoçaram Uma filha, uma esposa: Quem, tigre cru, te cercará o leito, N'essa hora pavorosa? Deus, tu és bom:--e o virtuoso em breve Chamas ao goso eterno, E o ímpio deixas saciar de crimes, Para o sumir no inferno? Alma gentil, que assim nos has deixado, Entregues á alta dôr, Anjo das préces nos serás, perante O throno do Senhor: E quando, cá na terra, o poderoso As Leis aos pés calcar, Juncto do teu sepulchro irá o oppresso Seus males deplorar; Assim, no Oriente, de Alboquerque ás cinzas O desvalido indiano Mais de uma vez foi demandar vingança De um despota inhumano. Mas quem ousára á patria tua e nossa Curvar nobre cerviz? Quem roubará ao lusitano povo Um povo ser feliz? Ninguem! Por tua gloria os teus soldados Juram livres viver. Ai do tyranno que primeiro ousasse Do voto escarnecer! N'esse abraço final, que nos legaste, Legaste o genio teu: Aqui--no coração--nós o guardámos; Teu genio não morreu. Jaz em paz: essa terra, que te esconde, O monstro abominado Só pisará ao baquear sobre ella Teu ultimo soldado. Eu tambem combati:--nas patrias lides Tambem colhi um louro: O prantear o Companheiro extincto Não me será desdouro. Para o Sol do Oriente outros se voltem, Calor e luz buscando: Que eu pelo bello Sol, que jaz no occaso, Cá ficarei chorando.

Porto--Novembro de 1834.