NOTAS.
Eis o poema da minha mocidade: são os unicos versos que conservo desse tempo, em que nada neste mundo deixava para mim de respirar poesia. Se hoje me dissessem: faze um poema de quinhentos versos ácerca da Semana Sancta, eu olharia ao primeiro aspecto esta proposição como um absurdo: entretanto eu mesmo ha nove annos realizei esse absurdo. Não é esta a primeira das minhas contradiccções, e espero em Deus, e na minha sincera consciencia, que não seja a ultima.
Quando compuz estes versos, ainda eu possuia toda a vigorosa ignorancia da juventude; ainda eu cria conceber toda a magnificencia do grande drama do christianismo, e que a minha harpa estava affinada para cantar um tal objecto. Enganava-me; a Semana Sancta do poeta não saíu semelhante á Semana Sancta da Religião. O que é esta, de feito?--Um poema representado, um drama, cuja essencia é um facto universal, o maior de todos; o que veio mudar idéas, civilisação, e destinos do genero humano inteiro. Tinha eu forças para o tractar? Não por certo; porque até hoje só houve um Klopstock; talvez só um haverá até a consummação dos seculos.
Assim, eu corri as memorias do passado, e as esperanças do fucturo; chorei sobre Jerusalem, e sobre a minha patria; subi aos ceus, e desci aos infernos; saudei o sol, e as trévas da noite; em tudo, e em toda a parte busquei inspirações, menos onde as devia buscar; por que acima da minha comprehensão estava o meu objecto--a redempção, e as suas consequencias. Foi disto justamente que eu não tractei; e era disto que eu devia tractar, se o podesse ou soubesse fazer.
Porque, pois, não acompanharam estes versos os outros da primeira mocidade no caminho da fogueira! Porque publíco um poema falho na mesmissima essencia da sua concepção!
Porque tenho a consciencia de que ha ahi poesia; e porque não ha poeta, que, tendo essa consciencia, consinta de bom grado em deixar nas trévas o fructo das suas vigilias.
[Pag. 9.]
A loucura da Cruz não morreu toda
"Verbum enim Crucis pereuntibus quidem stultitia est".
Paul. Ad Corinth. 1.--1.
[Pag. 15.]
ignoto vate Teceu
Ainda que os Psalmos se attribuam geralmente a David, ha ácerca disso muita incertesa, e o que, ao menos, parece indubitavel é que alguns lhe não pertencem, por fallarem no captiveiro de Babylonia, e trazerem allusões a épochas mais recentes. Verdade é que se chegou a crer heretica semelhante opinião; mas os Padres gregos, e com elles Sancto Hilario, e S. Jeronymo, julgam absurdo attribui-los todos a David. Esdras voltando do captiveiro foi quem reuniu estes hymnos, e nessa collecção é provavel fizesse entrar todas os poesias hebraicas deste genero lyrico e religioso.
[Pag. 16.]
E ao esconder-se o sol entre as montanhas De Bethoron
Bethoron inferior, cidade situada perto de Gadara ou Gazara e de Bethel, e todas ellas em uma serie de montanhas no extremo da Tribu de Ephraim, ao occidente de Jerusalem. Cumpre não a confundir com a outra Bethoron ou Bethra, a quatro milhas de Jerusalem para o norte, no caminho de Sichem ou Naplusa.
[Pag. 16.]
O Psalmo.
Commota est, et contremuit terra: fundamenta montium conturbata sunt, et commota sunt, quoniam iratus est eis.
Ascendit fumus in ira ejus: et ignis à facie ejus exarsit: carbones succensi sunt ab eo.
Inclinavit coelos et descendit: et caligo sub pedibus ejus.
Et ascendit super cherubim, et volavit: volavit super pennas ventorum.
Psalm. 17--v. 8--9--10--11.
Quò ibo a spiritu tuo? et quò à facie tua figiam?--
Si ascendero in coelum, tu illic es: si descendero in infernum, ades.
Si sumpsero pennas meas diluculo, et habitavero in extremis maris:
Etenim illuc manus tua deducet me: et tenebit me dextera tua.
Et dixi: Forsitan tenebrae conculcabunt me: et nox illuminatio mea in deliciis meis.
Quia tenebrae non obscurabuntur a te, et nox sicut dies illuminabitur: sicut tenebrae ejus, sicut et lumen ejus.
Psalm. 138--v. 7--8--9--10--11--12.
------- arcum suum tetendit et paravit illum.
Et in eo paravit vasa mortis, sagittas suas ardentibus effecit.
Psalm. 7--v. 13--14.
[Pag. 18.]
------ e um som soturno Do orgam partiu-o:
O orgam é um instrumento propriissimo para acompanhar os hymnos religiosos. Os protestantes, apartando-se da communhão romana, e fazendo voltar o culto quasi á simplicidade primitiva, conservaram nos seus templos este instrumento, cujos sons melodiosos, e ao mesmo tempo severos, se adaptam tão bem ás idéas que suscitam os cantos da Igreja. O primeiro orgam, que se viu no occidente da Europa, foi o que mandou, em 758, Constantino Copronymo, imperador de Constantinopola, a Pepino, pae de Carlos-Magno. Depois o seu uso se tomou quasi exclusivo nos templos.
[Pag. 18.]
Modulando o Nebel
O Nebel, que os gregos traduzem por Psalterion ou Nablon, era entre os hebreus um instrumento proprio da musica religiosa, como entre os christãos o orgam. A sua fórma triangular, e o ser instrumento de cordas, fez com que na Vulgata se vertesse a palavra hebraica Nebel, umas vezes por lyra, outras por cythara, sem ser nenhuma das duas cousas. Veja-se a Dissertação de Calmet ácerca da musica dos hebreus.
[Pag. 18.]
Do immundo Stellio
O Stellio é o lagarto da 1.a especie, ou a salamandra de Lacepede. Stellio manibus nititur et moratur in aedibus regis. Prov. 30 v. 28--Migale, et chamaeleon, et stellio, et lacerta, et talpa. Levit. 11--v. 30.
[Pag. 19.]
Nas margens do Kedron a rãa grasnando
A torrente de Kedron, que passa entre Jerusalem e o monte Olivete, ao oriente da cidade, sécca inteiramente no estio, e no hynverno as suas aguas são torvas e avermelhadas. D'ahi o seu nome, que sôa como--torrente da tristeza--. Alguem lhe chamou--torrente dos cedros, tomando a palavra hebraica Kedron pelo plural grego Kedron.
[Pag. 19.]
O vate de Anathoth
Jeremias era natural de Anathoth cidade sacerdotal na Tribu de Benjamim.--Verba Jeremiae filii Helciae, de sacerdotibus qui fuerunt in Anathoth, in terra Benjamim. Jer. 1--1.
[Pag. 19.]
Entre o povo infiel, de Eloha em nome
Eloha ou Elah--Nome de Deus em hebraico, ou antes chaldaico, e palavra assás commum na Biblia. O auctor do Genesis usa do plural Elohim ou Elahim para significar, ora o Deus uno, ora os deuses dos pagãos. Consulte-se Volney, Recherches sur l'histoire ancienne. Cap. 17.
[Pag. 19.]
Inspirára Moysés
Allusão ao cantico depois da passagem do mar roxo.
[Pag. 20.]
A Lamentação.
Quomodo sedet sola civitas plena populo!--Facta est quasi vidua Domina Gentium: princeps provinciarum facta est sub tributo.
Plorans ploravit in nocte, et lachrymae ejus in maxillis ejus: non est qui consoletur eam ex omnibus caris ejus: omnes amici ejus spreverunt eam, et facti sunt ei inimii.
Viae Sion lugent, eò quod non sint, qui veniant ad solemnitatem: omnes portae ejus destructae: sacerdotes ejus gementes: virgines ejus squallidae, et ipsa oppressa amaritudine.
Threni c. 1--v. 1--2--4.
Omnis populus ejus gemens, et quaerens panem: dederunt pretiosa quaeque piro cibo ad refocilandum animam.
C. 1--v. 11.
A Egypto dedimus manum, et Assyriis ut saturaremur pane.
Oratio Jerem. 6.
Jacuerunt in terra foris puer, et senex.
Threni c.--v. 21.
Manus mulierum misericordium coxerunt filios suos: facti sunt cibus earum in contritione filiae populi mei.
Thren. 4.--v. 10.
Recordare Domine quid acciderit nobis: intuere et respice opprobrium nostrum.
Haereditas nostra versa est ad alienos; domus nostrae ad extraneos.
Servi dominati sunt nostri: non fuit qui redimeret de manu eorum.
Quare in perpetuum oblivisceris noatri? derelinques nos in longitudine dierum?
Orat. Jer. v. 1--2--8--10.
[Pag. 22.]
Bem como aquella que atterrou um ímpio.
Baltasar rex facit grande convivium optimatibus suis mille; et unusquisque secundùm suam bibebat aetatem. Praecepit ergo jam temulentus ut afferrentur vasa aurea et argentea, quae asportaverat Nabuchodonosor pater ejus de templo, quod fuit in Jerusalem, ut biberent in eis rex et optimates ejus, uxoresque ejus, et concubinae. Tunc allata sunt vasa aurea et argentea, quae asportaverat de templo, quod fuerat in Jerusalem: et biberunt in eis rex, et optimates ejus, uxores et concubinae illius. Bibebant vinum el laudabant deos suos aureos, et argenteos, aereos, terreos, ligneosque et lapideos. In eadem hora aparuerunt digiti, quasi manus hominis scribentis contra candelabrum in superficie parietis aulae regiae: et rex aspiciebat articulos manus scribentis. Tunc facies regis commutata est, et cogitationes ejus conturbabant eum; et compages renum ejus solvebantur, et genua ejus ad se invicem collidebantur. Haec est autem scriptura, quae digesta est: Mane, Thecel, Phares. Et haec est interpretatio sermonis: Mane: numeravit Deus regnum tuum et complevit illud. Thecel: appensus es in statera, et inventus es minus habens. Phares: divisum est regnum tuum, et datum est Medis, et Persis.
Danielis Proph. c. 5--v. 1 a 6--25 a 28.
[Pag. 23.]
Hoje, campo de lagrymas, só cria Humilde musgo de escalvados cerros.
Varios passos, cem vezes citados, de Tacito e de outros escriptores gravissimos da antiguidade, nos provam que a Judea foi um paiz feracissimo. Os viajantes modernos no-la descrevem como uma região arida e inculta. O despotismo, que ha seculos tem opprimido a Syria, e a rapacidade dos arabes; são em grande parte causa da aniquilação da agricultura na Palestina; porém a sua esterilidade não se póde attribuir, por certo, a uma causa politica. Os sectarios do Crucificado não podem deixar de vêr neste phenomeno os effeitos da maldicção de Deus sobre a terra que bebeu o sangue do Filho do Homem.
[Pag. 23.]
Ide vós a Mambré:
O valle de Mambré estava situado juncto de Kariath-Arbé [Hebron] na tribu de Judah, e ao Meio-dia de Jerusalem. O carvalho ou terebintho de Abrahão, que, segundo o testemunho de S. Jeronymo, ainda existia no tempo de Constantino, o tornava notavel. Ácerca desta arvore célebre existem muitas tradições entre os Judeus; e até para os christãos dos primeiros seculos era o valle de Mambré um logar de devoção e romagem. Sozomeno nos descreve o Valle de Terebintho como um sitio de festivas reuniões, e foi a sua narração quem suscitou este pedaço de Poema.
[Pag. 23.]
na primavera Vinham os moços adornar-lhe o tronco
Aqui [em Mambré] ha um logar que hoje chamam Terebintho, distante de Chebron, que lhe fica ao meio-dia, 15 stadios, e de Jerusalém quasi 250.--Os habitantes deste sitio, no tempo do estio, fazem uma feira a que concorrem os vizinhos do valle, e ainda povos mais remotos, como os Palestinos, os Arabes, e os Phenicios. Sozom. Histor. Eccles.
[Pag. 24.]
No Golgotha plantada a cruz clamára
O monte Golgotha ou Calvario foi o logar onde crucificaram J. C.--Esta palavra significa: Logar onde repousam os craneos dos mortos.
[Pag. 24.]
No Moriah sentou-se:
O monte Moriah, onde estava o templo de Salomão, levantava-se no meio de Jerusalem, e ficava-lhe ao norte o monte Sion. Diz-se que neste logar estivera Abrahão para sacrificar seu filho.--Calmet Diction.