NOTA FINAL.
D. Fernando guardou até á primavera de 73 a vingança contra os populares de Lisboa e d'outras terras, que no anno de 71 se tinham amotinado por causa do seu casamento. Vê-se isto dos documentos registados na sua chancellaria e citados por Fr. Manuel dos Sanctos. Quem attentamente tiver estudado o caracter atroz e dissimulado de Leonor Telles, tão bem pintado por Fernão Lopes, e os factos que provam a sua influencia sem limites no animo daquelle principe, não poderá esquivar-se a vehementes suspeitas sobre os motivps, que n'um romance nós damos como reaes, porque ahi é licito faze-lo, da, aliás inexplicavel, inacção com que D. Fernando não quiz oppor-se á vinda d'elrei de Castella sobre Lisboa, vinda que reduziu os seus moradores aos mais espantosos apuros, e que converteu a cidade, por assim dizer, em um montão de ruinas. Daquelles documentos resulta que, depois de tirada toda a força aos habitantes de Lisboa pela guerra de Castella, em que se viram quasi sós e abandonados, elrei viera, sobre as ruinas da maior e melhor parte della, satisfazer os odios de D. Leonor; porque, levantado o cerco em março de 73, achâmos elrei em Lisboa (aonde não voltára desde a sua fuga em outono de 71) durante alguns dias de maio, e em Santarem e outros logares nos mezes seguintes, fazendo mercês dos bens de cidadãos mortos, decepados, ou fugidos, do que se póde concluir que então foram executados ou banidos, não sendo de crer que a cobiça cortezan tivesse esporado muitos dias sem prear estes sanguinolentos despojos.
O casamento de Leonor Telles, e as consequencias delle são o primeiro acto do drama terrivel, da Iliada scelerun da sua vida politica. Foi este primeiro acto que nós procurámos dispor na tela do romance historico. Todo o drama daria, nessa fórma da arte, uma terrivel chronica. Desde esta conjunctura, até ser arrastada em ferros para Castella por aquelles mesmos que chamára a assolar o seu paiz, a Lucrecia Borgia portugueza é na historia daquella epocha uma espécie de phantasma diabolico, que apparece onde quer que haja um feito de traições, de sangue, ou d'atrocidade.
[1] Fernão Lopes, Chr. de D. Fern. cap. 75.
[2] A rainha… como era ousada e muito faladora: Fernão Lopes, Chr. de D. Fern. cap. 126.
[3] Ibid. Cap. 72.
[4] O selo de puridade ou do camafeu era aquelle que se estampava no proprio pergaminho, e que servia ordinariamente para o rei expedir documentos de menos importancia, na falta do chanceller-mór, que tinha o sêllo grande, curial, ou do cavallo. Veja-se a Dissertação 3ª de J. P. Ribeiro.
[5] Os tumultos contra o casamento de D. Fernando não se tinham limitado a Lisboa. Pelas doações dos bens dos treedores mortos ou decepados se conhece que houve assoadas e depois vinganças em Satarem, Leiria, Abrantes e outras partes.
[6] Neste século ainda barbaro o uso de hervarou envenenar as armas de tiro ou arremesso era vulgarissímo nos combates.
[7] a nota é imaginaria, mas esta mercê acha-se com effeito registada a f. 128 do L.º 1.º da chancellaria de D. Fernando; cumpre todavia advertir que dessa chancellaria apenas existe original o 3.º livro: o 1.º é dos reformados ou estragados por Gomes Eannes de Azurara.