O CÉGO.

O dia 6 de Janeiro do anno da Redempção 1401 tinha amanhecido puro e sem nuvens: os campos, cubertos aqui de relva, acolá de searas, que cresciam a olhos vistos com o calor benefico do sol, verdejavam ao longe, ricos de futuro para o pegureiro e para o lavrador. Era um destes formosissimos dias de inverno, mais gratos que os do estio, porque são de esperança, e a esperança vale mais do que a realidade; destes dias, que Deus só concedeu aos paizes do occidente, em que os raios do sol, que começa a subir na eclíptica, estirando-se vividos e tremulos por cima da terra, ennegrecida pela humidade, errando por entre os troncos pardos dos arvoredos, despidos pelas geadas, se assemelham a um bando de creanças no primeiro viço da vida a folgar e a rolar-se por cima da campa, sobre a qual ha muito sussurrou o ultimo ai da saudade, e que invadiram os musgos e abrolhos do esquecimento. Era um destes dias antipathicos aos poetas ossianico-regelo-nevoentos, que querem fazer-nos acceitar como cousa mui poetica

Esses gêlos do norte, esses brilhantes
Caramellos dos tópes das montanhas,

sem se lembrarem de que

Do sol do meio-dia aos raios vividos,
Parvos!—se lhes derretem: a brancura
Perdem co'a nitidez, e se convertem
De lucidos cristaes em agua chilre;

destes dias, emfim, em que a natureza sorri como a furto, rasgando o denso véu da estação das tempestades.

No adro do mosteiro de Santa Maria da Victoria, vulgarmente chamado da Batalha, fervia o povo entrando para a nova igreja, que de mui pouco tempo servia para as solemnidades religiosas. Os frades dominicanos, a quem elrei D. João I tinha doado esse magnifico mosteiro, cantavam a missa do dia debaixo daquellas altas abobadas, onde repercutiam os sons do orgam, e os ecchos das vozes do celebrante, que entoava os kyries.

Mas não era por ouvir a missa conventual que o povo se escoava pelo profundo portal do templo para dentro do recincto sonoro daquella maravilhosa fabrica: era por assistir ao auto da adoração dos reis, que com grande pompa se havia de celebrar nessa tarde dentro da igreja, e diante do rico presepe que os frades tinham alevantado juncto ao arco da capella do fundador então apenas começada. A concorrencia era grande, porque os habitantes da Canoeira, d'Aljubarrota, de Porto-de-Mós e dos mais logares vizinhos, desejosos de ver tão curioso espectaculo, tinham deixado desertas as povoações para vir povoar por algumas horas o ermo do mosteiro. Aprazivel cousa era o ver, descendo dos outeiros para o valle por sendas torcidas, aquellas multidões, vestidas de cores alegres, e semelhantes no seu todo a serpentes immensas, que, transpondo as assomadas, se rolassem pelas encostas abaixo, reflectindo ao longe as cores variegadas da pelle luzidia e lubrica. Atravessando a planicie, em que avultava o mosteiro, passava o rio Lena, cuja corrente tinham tornado caudal as chuvas da primeira metade da estação invernosa.

No campo contiguo ao edificio, aqui e acolá, alevantavam-se casarias irregulares, algumas fechadas com suas portas, outras apenas cubertas de madeira, e abertas para todos os lados, á maneira de simples telheiros: as casas fechadas e reparadas contra as injurias do tempo eram as moradas dos mestres e artifices que trabalhavam no edificio: debaixo dos telheiros viam-se, n'uns pedras só desbastadas, n'outros algumas onde se começavam a divisar lavores, n'outros, emfim, pedaços de cantaria, em que os mais habeis esculptores e entalhadores já tinham estampado os primores dos seus delicados cinzeis. Mas o que punha espanto era a innumeravel porção de pedras, lavradas, pulidas, e promptas para serem collocadas em seus logares, que jaziam espalhadas pelo grandissimo terreiro, que ao redor do edificio se alargava para todos os lados: maineis rendados, peças dos fustes, capiteis gothicos, laçarias de bandeiras, cordões de arcadas, ahi estavam tombados sobre grossas zorras, ou ainda no chão endurecido pelo contínuo perpassar de trabalhadores, officiaes, e mais obreiros desta maravilhosa machina. Quem de longe olhasse para aquelle extenso campo, alastrado de tantos primores de esculptura, julgára ver o assento de uma cidade antiquissima, arrasada pela mão dos homens ou dos seculos, de que só restára em pé um monumento, o mosteiro. E todavia, esses que pareciam restos de uma antiga Balbek não eram senão algumas pedras que faltavam para o acabamento d'um convento de frades dominicanos, o convento de Sancta Maria da Victoria, vulgarmente chamado a Batalha!

Um quadrante de pedra, assentado em um canto do adro, apontava meio-dia. A igreja tinha sorvido dentro do seu seio desmesurado os habitantes das proximas povoações, e de todo o ruido e algazarra que poucas horas antes soava por aquelles contornos, apenas traspassavam pelas frestas e portas do templo os sons do orgam, soltando a espaços suas melodias, que sussurravam e morriam ao longe, suaves como um pensamento do céu.

Não estava, porém, inteiramente ermo o terreiro da frontaria do edificio. Assentado sobre um troço de fuste, com os pés ao sol, e o resto do corpo resguardado de seus raios ardentes pela sombra de um telheiro, a qual se começava a prolongar para o lado do oriente, via-se um velho, veneravel de aspecto, que parecia embebido em profundas meditações: pendia-lhe sobre o peito uma comprida barba branca: tinha na cabeça uma touca foteada, um gibão escuro vestido, e sobre elle uma capa curta ao modo antigo. A luz dos olhos tinha-lha de todo apagado a velhice; mas as suas feições revelavam que dentro daquelles membros tremulos e enrugados morava um animo rico de alto imaginar: as faces do velho eram fundas, as maçans do rosto elevadas, a fronte espaçosa e curva, e o perfil do rosto quasi perpendicular. Tinha a testa enrugada como quem vivêra vida de continuo pensar, e correndo com a mão os lavores de pedra, sobre que estava assentado, ora carregando o sobrolho, ora deslisando as rugas da fronte, reprehendia ou approvava com eloquencia muda os primores ou as imperfeições do artifice, que copiára á ponta de cinzel aquella pagina do immenso livro de pedra, a que os espiritos vulgares chamam simplesmente o mosteiro da Batalha.

Emquanto o velho scismava sósinho, e palpava o canto subtilmente lavrado, sobre que repousava os membros entorpecidos, á portaria do mosteiro, que perto d'alli ficava, outras figuras e outra scena se viam. Dous frades estavam em pé no limiar da porta, e altercavam em voz alta: de vez em quando, pondo-se nos bicos dos pés, e estendendo os pescoços, parecia quererem descubrir no horisonte, que as cumiadas dos montes fechavam, algum objecto: depois de assim olharem um pedaço, encolhiam os pescoços, e voltando-se um para o outro, travavam de novo renhida disputa, que levava seus visos de não acabar.

"Oh homem!—dizia um dos dous frades, a quem a tez macilenta e as barbas e cabellos grisalhos davam certo ar de auctoridade sobre o outro, que mostrava nas faces coradas e cheias, e na côr negra da barba povoada e revolta, mais vigor de mocidade.—Já disse a vossa reverencia, que elrei me escreveu de seu proprio punho que viria assistir ao auto da adoração dos reis, e de caminho veria a casa do capitulo, a que hontem mestre Ouguet mandou tirar os simples que sustentavam a abobada."

"E nego eu isso?—replicou o outro frade.—O que digo é que me parece impossivel, que elrei venha de feito, conforme a vossa paternidade prometteu em sua carta. Ha muito que lá vae o meio-dia; daqui a pouco tocará a vesperas e ás duas por tres é noite. Não vêdes, padre mestre, a que horas virá a acabar o auto? E este povo, este devoto povo que ahi está, que ahi vem, ha-de ir com o escuro por esses descampados e serras com mulheres, com raparigas…"

"Tá, tá—interrompeu o prior.—Temos luar agora, e vão de consum. O caso não é esse, padre procurador, o caso é se está tudo aviado para agasalharmos elrei e os de sua companha."

"Oh lá, quanto a isso, nada falta. Desde hontem que tenho tido tanto descanço como hoste ou cavalgada de castelhanos diante das lanças do Condestavel: o peior é que, segundo me parece, e dizei o que quizerdes, opus et oleum perdidi.[1]"

"Não falta quem tarda: elrei não quebrará a palavra ao seu antigo confessor. O que quero é que todos os noviços e coristas, que tem de fazer suas representações no auto, estejam a ponto e vestidos, para elle começar logo que sua senhoria chegue."

"Nada receeis; que tudo está preparado: do que duvido é de que comecemos, se por elrei houvermos de esperar."

O frade mais velho fez a estas palavras um signal de impaciencia, e sem dar resposta ao seu pyrrhonico interlocutor, estendeu outra vez o gasnate para a banda da estrada, fazendo com a extremidade do habito uma especie de sobrecéu para resguardar os olhos dos raios do sol, que, já muito inclinado para o occidente, batia de chapa no portal onde os dous reverendos estavam altercando.

Porém, meio descoroçoado, o dominicano logo abaixou os olhos: nem o minimo vulto se enxergava no horisonte; e neste abaixar de olhos viu o cégo, que estava ainda assentado sobre o fuste da columna.

Para escapar talvez ás reflexões do seu companheiro, o reverendo bradou ao velho:

"Oh lá, mestre Affonso Domingues, bem aproveitaes o soalheiro! Não vos quero eu mal por isso; que um bom sol de inverno vale, na idade grave, mais que todos os remedios de longa vida, que em seus alforges trazem por ahi os physicos."

Dizendo e fazendo, o reverendo desceu os degraus do portal, e encaminhou-se para o cégo.

"Quem é que me fala?—perguntou este, alçando a cabeça.

"Fr. Lourenço Lamprêa, vosso amigo e servidor, honrado mestre Affonso. Tão esquecida anda já minha voz em vossas orelhas, que me não conheceis pela toada?"

"Perdoae-me, mui devoto padre prior:—atalhou o velho, tenteando com os pés o chão para erguer-se, no momento em que Fr. Lourenço Lamprêa chegava juncto delle seguido do seu confrade Fr. Joanne, procurador do mosteiro:—perdoae-me! Foi-se o vêr, vae-se o ouvir. Em distancia, já não acérto a distinguir as falas."

"Estae quedo; estae quedo, mestre Affonso:—disse Fr. Lourenço, segurando o cégo pelo braço:—O indigno prior do mosteiro da Victoria não consentirá que o mui sabedor architecto e imaginador Affonso Domingues, o creador da oitava maravilha do mundo, o que traçou este edificio doado pelo virtuoso de grandes virtudes rei D. João á nossa ordem, se alevante para estar em pé diante de pobre frade…"

"Mas esse religioso—interrompeu o cégo—é o mais abalisado theologo de Portugal, o amigo do mui excellente doutor João das Regras, e do grande Nunalvares, e privado e confessor d'elrei: Affonso Domingues é apenas uma sombra de homem, um troço de capitel partido e abandonado no pó das encruzilhadas, um velho tonto de quem já ninguem faz caso. Se vossa caridade e humildosa condição vos movem a doer-vos de mim e a lembrar-vos de que fui vivo, não achareis n'isso muitos de vossa igualha."

"De merencorio humor estaes hoje:—disse o prior sorrindo.—Não só eu vos amo e venero: elrei me fala sempre de vós em suas cartas. Não sois cavalleiro de sua casa? E a avultada tença que vos concedeu em paga da obra que traçastes, e dirigistes, em quanto Deus vos concedeu vista, não prova que não foi ingrato?"

"Cavalleiro!?"—bradou o velho—"Com sangue comprei essa honra! Comigo trago a escriptura."—Aqui mestre Affonso, puxando com a mão tremula as atacas do gibão, abriu-o e mostrou duas largas cicatrizes no peito.—"Em Aljubarrota foi escripto o documento á ponta de lança por mão castelhana: a essa mão devo meu foro, que não ao Mestre d'Aviz. Já lá vão quinze annos! Então ainda estes olhos viam claro, e ainda para este braço a acha d'armas era brinco. Elrei não foi ingrato, dizeis vós, veneravel prior, porque me concedeu uma tença!?—Que a guarde em seu thesouro; porque ainda ás portas dos mosteiros e dos castellos dos nobres se reparte pão por cégos e por aleijados."

Proferindo estas palavras, o velho não pôde continuar: a voz tinha-lhe ficado presa na garganta, e dos olhos embaciados cahiam-lhe pelas faces encovadas duas lagrymas como punhos. A Fr. Lourenço tambem se arrasaram os olhos d'agua, Frei Joanne, esse olhou fito para o cégo durante algum tempo com o olhar vago de quem não o comprehendia. Depois a idéa da tardança d'elrei e da tardança do auto, que entrando pelas horas de ceiar e dormir iria fazer uma brecha horrorosa na disciplina monastica, veio desperta-lo como espinho pungente. Começou a bufar e a bater o pé, semelhante ao corredor brioso do livro de Job e da Eneida. Entretanto o architecto havia-se posto em pé: um pensamento profundamente doloroso parecia reverberar-lhe pela fronte nobre e turbada, e houve um momento de silencio. Por fim segurando com força a manga do habito de Fr. Lourenço, disse-lhe:

"Sois letrado, reverendo padre: deveis ter visto algum traslado da Divina Comedia do florentino Dante."

"Li já, e mais de uma vez:—respondeu o prior:—É obra prima daquellas a que os gregos chamavam epos, id est, enarratio, et actio segundo Aristoteles; e se não houvesse nessa escriptura algumas ousadias contra o papa…"

"Pois sabei, reverendo padre,—proseguiu o architecto, atalhando o impeto erudito do prior,—que este mosteiro, que se ergue diante de nós, era a minha Divina Comedia, o cantico da minha alma: concebi-o eu; viveu comigo largos annos, em sonhos e em vigilia: cada columna, cada mainel, cada fresta, cada arco era uma pagina de canção immensa; mas canção que cumpria se escrevesse em marmore, porque só o marmore era digno della: os milhares de lavores que tracei em meu desenho eram milhares de versos; e porque ceguei arrancaram-me das mãos o livro, e nas paginas em branco mandaram escrever um estrangeiro! Loucos! Se os olhos corporaes estavam mortos, não o estavam os do espirito. O estranho a quem deram meu cargo não me entendia, e ainda hoje estes dedos descobriram nessa pedra que o meu alento não a bafejára. Que direito tinha o Mestre d'Aviz para sulcar com um golpe do seu montante a face de um archanjo que eu creára? Que direito tinha para me espremer o coração debaixo dos seus çapatos de ferro? Dava-lh'o o ouro que tem dispendido? O ouro! … Não! OMeslred'Aviz sabe que o ouro é vil; só nobre e puro o genio do homem. Enganaram-no: vassallos houve em Portugal, que enganaram seu rei! Este edificio era meu; porque o gerei; porque o alimentei com a substancia de minha alma; porque eu necessitava de me converter todo nestas pedras pouco a pouco, e de deixar, morrendo, o meu nome a sussurrar perpetuamente por essas columnas, e por baixo dessas arcarias. E roubaram-me o filho da minha imaginação, dando-me uma tença!… Com uma tença paga-se a gloria e a immortalidade? Agradeço-vos, senhor rei, a mercê!… sois em verdade generoso … mas o nome de mestre Ouguet enredar-se-ha no meu, ou talvez sumirá este no brilho de sua fama mentida…"

O cégo tremia de todos os membros: a vehemencia com que falára lhe exhaurira as forças: os joelhos vergaram-lhe, e assentou-se outra vez em cima do fuste. Os dous frades estavam em pé diante delle.

"Estaes mui perturbado pela paixão, mestre Affonso—disse Fr. Lourenço depois de uma larga pausa—por isso menoscabaes mestre Ouguet, que era talvez o unico homem que ahi havia capaz de vos substituir. Quanto a vós, pensaram os do conselho d'elrei que deviam propôr-lhe vos désse repouso e honrado sustentamento para os cansados dias. Ninguem teve em mente offender o mais sabedor e experto architecto de Portugal, cuja memoria será eterna, e nunca offuscada."

"Obrigado—atalhou o velho—aos conselheiros d'elrei pelos bons desejos que em meu prol têm. São politicos, almas de lodo, que não comprehendem senão proveitos materiaes. Dão-me o repouso do corpo, e assassinam-me o da alma! Ácêrca de mestre Ouguet, não serei eu quem negue suas boas manhas e sciencia de edificar: mas que ponha elle por obra suas traças, e deixem-me a mim dar vulto ás minhas. E demais: para entender o pensamento do mosteiro de Sancta Maria da Victoria cumpre ser portuguez; cumpre ter vivido com a revolução, que poz no throno o Mestre d'Aviz; ter tumultuado com o povo defronte dos paços da adultera[2]; ter pelejado nos muros de Lisboa; ter vencido cm Aljubarrota. Não é este edificio uma obra de reis, ainda que por um rei me fosse encommendado seu desenho e edificação, mas nacional, mas popular, mas da gente portugueza, que disse: não seremos servos do estrangeiro, e que provou seu dicto. Mestre Ouguet, escholar na sociedade dos irmãos obreiros[3], trabalhou nas sés de Inglaterra, de França, e de Alemanha: ahi subiu ao gráu de mestre, mas a sua alma não é aquecida á luz do amor de patria; nem, que o fosse, é para elle patria esta terra portugueza. Por engenho e mãos de portuguezes devia ser concebido e executado até seu final remate o monumento da gloria dos nossos; e eis-ahi que elle chamou do longes terras officiaes estranhos, e os naturaes lá foram mandados adornar de primorosos lavores a igreja de Guimarães. Sei que não seriam nem elles nem eu quem puzesse esse remate; mas nós deixariamos successores, que conservassem puras as tradições da arte. Perder-se-ha tudo; e, porventura, tempo virá em que, nesta obra dos seculos, não haja mãos vigorosas que prosigam os lavores que mãos cansadas não poderam levar a cabo. Então o livro de pedra, o meu cantico de victoria, ficará truncado. Mas Affonso Domingues tem uma pensão d'elrei!.."

Em uma das casas que ficavam mais proximas, e de que fizemos menção no principio deste capitulo, ergueu-se a adufa de uma janella no momento em que o cégo terminava estas palavras, e uma velha, em cuja cabeça alvejava uma toalha mui branca, gritou da janella:

"Mestre Affonso, quereis recolher-vos? Está prompta a cêa, e começa a cahir a orvalhada, que a tarde vae nevoenta."

"Vamos lá, vamos lá, Anna Margarida; vinde guiar-me."

E Anna Margarida, ama de mestre Affonso Domingues, saiu da porta com a roca ainda na cincta, e o fuso espetado entre o linho e o ourêlo que o apertava. Chegando ao pé do velho, tocou-lhe com o braço, em que elle se firmou, tornando a erguer-se.

"Boas tardes, padre prior:—disse a ama, fazendo sua mesura, seguida de um lamber de dedos, e de dous puxões nas barbas da estriga quasi fiada.

"Vá na graça do Senhor, filha:—respondeu Fr. Lourenço, e accresccntou dírigindo-se ao cégo:

"Meu irmão, Deus acceita só ao homem, em desconto da grande divida, a dor calada e soffrida. Resignae-vos na sua divina vontade."

"Na delle estou eu resignado ha muito: na dos homens é que nunca me resignarei."

E Anna Margarida, que tinha a cêa ainda ao lume, foi puxando o cégo para a porta de casa.

"Ai, Affonso Domingues, Affonso Domingues! vae-se-te após a vista o siso. Aborrida cousa é a velhice. Não vos parece, Fr. Joanne?"

Isto dizia o prior, voltando-se para o outro frade, que suppunha estaria atraz delle; mas Fr. Joanne tinha desapparecido d'alli manso e manso. Alongando os olhos ao redor de si, Fr. Lourenço viu-o em pé sobre uma pedra a alguma distancia.

O prior ia a perguntar-lhe o que fazia alli, quando o reverendo procurador saltou a correr, bradando:

"Ganhastes, padre prior; ganhastes!… Eis elrei que chega."

E, com effeito, Fr. Lourenço, volvendo os olhos para o cimo de um outeiro, viu uma lustrosa companhia de cavalleiros, que com grande açodamento descia para o vallc do mosteiro.

[1] Perdi o azeite e o trabalho: expressão proverbial.

[2] D. Leonor Telles, mulher d'elrei D. Fernando.

[3] Architectos sarracenos se espalharam pela Grecia, Sicilia, e outros paizes, durante certo tempo: um avultado numero de artifices christãos, principalmente gregos, se ajunctaram com elles, e formaram todos uma corporação, que tinha suas leis e estatutos secretos, e cujos membros se reconheciam por signaes. Esta foi a origem da Maçonaria. Conversation's Lexicon.

MESTRE OUGUET.

Uma das innumeraveis questões, que, em nosso entender, eternamente ficarão por decidir, é a que versa sobre qual dos dous dictados—voz do povo é voz de Deus—ou—voz do povo é voz do diabo—seja o que exprima a verdade. É indubitavel que o povo tem uma especie de presciencia innata, d'instincto divinatorio. Quantas vezes, sem que se saiba como ou porque, corre voz entre o povo, que tal navio saído do porto, tão rico de mercadorias como de esperanças, se perdeu em tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o tempo, e a voz popular renlisa-se com exacção espantosa. Assim de batalhas; assim de mil factos. Quem dá estas noticias? Quem as trouxe? Como se derramaram? Mysterio é esse, que ainda ninguem soube explicar. Foi um anjo? Foi um demonio? Foi algum feiticeiro? Mysterio. Não ha, nem haverá, talvez, nunca, philosopho que o explique; salvo se tal phenomeno é uma das maravilhas do magnetismo animal. Esse meio inintelligivel de dar solução a tudo o que se não entende, é acaso a unica via de resolver a dúvida. Se o é, ahi damos mais um osso a roer aos physicos do magnetismo.

Foi o caso: quando a cavalgada, de que fizemos menção no fim do antecedente capitulo, vinha descendo a encosta sobranceira á planicie do mosteiro, entre o povo que estava dentro da igreja, impaciente já pela demora do auto, começou-se a espalhar um sussurro, que cada vez crescia mais: o motivo delle não era facil sabe-lo: nenhuma novidade occorrêra; ninguem tinha entrado ou saido. De repente toda aquella multidão se agitou, remoinhou pela igreja, e principiou a borbulhar pelo portal fóra, como por bico de funil o liquido deitado de alto. Tinham sabido que elrei chegava, e todos queriam vê-lo descalvagar, porque D. João I, plebeu por herança materna, nobre por ser filho do D. Pedro I, rei eleito por uma revolução, e confirmado por cincoenta victorias, era o mais popular, o mais amado, e o mais acatado de todos os reis da Europa. Vinha montado em uma possante mula, e assim mesmo em outras os fidalgos e cavalleiros de sua casa. Trazia vestida sobre a cota uma jórnea de veludo carmesim, monteira preta, e nebri em punho, em maneira de caçada. Chegando á porta do mosteiro, onde o esperava já Fr. Lourenco com parte da communidade, apeou-se de um salto, e com rosto risonho e a mão no barrete, agradeceu sua cortezia e amor aos populares, que gritavam apinhados à roda delle: —"viva D. João I de Portugal: morram os castelhanos!"—grito absurdo, mas semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o povo, bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor o bramido que revela a sua indole sanguinaria.

Por baixo daquellas suberbas arcadas desappareceu brevemente elrei da vista da multidão, que tornou a sumir-se no templo para ver o auto, que não podia tardar.

"Mui receioso estava que vossa real senhoria nos não honrasse nosso auto; porque o sol não tarda a sumir-se no poente:—dizia Fr. Lourenço a elrei, a cujo lado ia para o guiar ao seu aposento.

"Bofé, mui devoto padre prior, que por pouco estive a ponto de ter que levar a vossos pés mais uma mentira com os outros peccados, que me não fallecem, se ámanhan me quizesse confessar ao meu antigo confessor:—tornou-lhe elrei sorrindo-se.

"E certo estou de que entre todos os peccados de que terieis de vos accusar, este não fôra o menos grave, e de que eu muito a custo absolveria vossa mercê:—retrucou o prior, que tinha aprendido ainda mais depressa as manhas cortezans no paço, do que a theologia no noviciado da sua ordem.

"Mas para onde me guiaes, reverendissimo prior:—disse elrei, parando antes de subir uma escada, para a qual Fr. Lourenço o encaminhava.

"Ao vosso aposento, real senhor; por que tomeis alguma refeição, e repouseis um pouco do trabalho do caminho."

"Não foi grande o feito, para tomar repouso:—acudiu elrei:—que de Santarem aqui é uma corrida de cavallo; muito mais para quem, em vez de cota de malha, arnez e braçaes, traz vestidos de seda. Despi-los-hei bem depressa, já que elrei de Castella quer jogar mais lançadas, e não vieram a conclusão de treguas o Mestre de Sanctiago com o Condestavel. Mas vamos, meu doutissimo padre; mostrae-me a casa do capitulo, a que mestre Ouguet acabou de pôr seu fecho e remate. Onde está elle? Quero agradecer-lhe a boa diligencia."

"Beijo-vos as mãos pela mercê:"—disse mestre Ouguet, que, sabendo da chegada d'elrei, e certo de que elle desejaria vêr aquella grande obra, tinha corrido ao mosteiro, e estava entre os da comitiva:—"Se quereis vêr a casa do capitulo, vamos para a banda da crasta."—Dizendo isto, sem ceremonia tomou a dianteira, e encaminhou-se ao longo de um dos cubertos do claustro.

David Ouguet era um irlandez, homem mediano em quasi tudo; em idade, em estatura, em capacidade, e em gordura, salvo na barriga, cujos tegumentos tinham soffrido grande distensão, em consequencia da dura vida que a tyrannia do filho d'Erin lhe fazia padecer havia bem vinte annos. Desde muito moço que começára a produzir grande impressão no seu espirito a invectiva do apostolo contra os escravos do proprio ventre; e para evitar essa condemnavel fraqueza resolvêra traze-lo sempre sopeado. Não lhe dava treguas; se em Inglaterra o fizera muitos annos vergar sob o pêso de dez atmospheras de cerveja, em Portugal submettia-o ao mais fadigoso mister de cangirão permanente. Mortificava-o assim, para que não lhe acudissem suberbas e velleidades de senhorio e dominação. De resto David Ouguet era bom homem, excellente homem: não fazia aos seus semelhantes senão o mal absolutamente indispensavel ao proprio interesse: nunca matára ninguem, e pagava com pontualidade exemplar ao alfaiate e ao merceeiro. Prudente, positivo, e practico do mundo, não o havia mais: seria capaz de se empoleirar sobre o cadaver de seu pae para tocar a méta de qualquer designio ambicioso: com tres licções de phrases oucas dava panno para se engenharem delle dous grandes homens d'estado. Tendo vindo a Portugal como um dos cavalleiros do duque de Lancastre, procurou obter e alcançou a protecção da rainha D. Philippa, que, havendo Affonso Domingues cegado, o fez nomear mestre das obras do mosteiro da Batalha, mostrando elle por documentos authenticos ter na sua mocidade subido ao gráu de mestre na sociedade secreta dos obreiros edificadores.

Esta é em breve resumo a historia de David Ouguet, tirada de uma velha chronica, que, em tempos antigos, esteve em Alcobaça enquadernada em um volume junctamente com os traslados authenticos das Côrtes de Lamego, do Juramento de Affonso Henriques sobre a apparição de Christo, da Carta de feudo a Claraval, das Historias de Laimundo e Beroso, e de mais alguns papeis de igual veracidade e importancia, que por pirraça ás nossas glorias provavelmente os castelhanos nos levaram.

O lanço da crasta, fronteiro ao cuberto por onde ía elrei, estava ainda por acabar. Apenas D. João I entrou naquelle magnifico recincto, olhou para lá, e voltando-se para mestre Ouguet, disse:

"Parece-me que não vão tão aprimorados os lavores daquellas arcarias como os destas. Que me dizeis, mestre Ouguet?"

"Seguiu-se á risca nesta parte—tornou o architecto—o desenho geral do edificio, feito por mestre Affonso Domingues; porque seria grave erro destruir a harmonia desta peça: mas se vossa mercê m'o permitte, antes de entrardes no capitulo tenho alguma cousa que vos dizer ácerca do que ides presenciar."

"Falae desassombradamente:—respondeu elrei—que eu vos escuto."

"Tomei a ousadia—proseguiu mestre Ouguet—de seguir outro desenho no fechar da immensa abobada que cobre o capitulo: o que achei na planta geral contrastava as regras da arte, que aprendi com os melhores mestres de pedraria. Era até impossivel que se fizesse uma abobada tão achatada, como na primitiva traça se delineou: eu, pelo menos, assim o julgo."

"E consultastes o architecto Affonso Domingues, antes de fazer essa mudança no que elle havia traçado?—interrompeu elrei.

"Por escusado o tive:—replicou David Ouguet.—Cégo, e por isso inhabilitado para levar a cabo a edificação, teimaria que o seu desenho se póde executar, visto que hoje ninguem o obriga a prova-lo por obras. Sobra-lhe orgulho: orgulho de imaginador engenhoso. Mas que vale isso sem a sciencia, como dizia o veneravel mestre Vilhelmo de Wykeham? Menos engenho e mais estudo, eis do que havemos mister."

"Dizendo isto o architecto, mettêra ambas as mãos no cincto, estendêra a perna direita excessivamente empertigada, e com a fronte erecta volveu os olhos solemne e lentamente para os circumstantes.

"Mestre Ouguet—acudiu elrei com aspecto severo—lembrae-vos de que Affonso Domingues é o maior architecto portuguez. Não entendo de vossas distincções de sciencia e de engenho: sei só que o desenho de Sancta Maria da Victoria causa assombro a vossos proprios naturaes, que se gabam de ter no seu paiz os mais affamados edificios do mundo: e esse mestre Affonso, de quem vós falaes com pouco respeito, foi o primeiro architecto da obra que a vosso cargo está hoje."

"Vossa mercê me perdoe:—tornou mestre Ouguet, adocicando o tom orgulhoso com que falára.—Longe de mim menoscabar mestre Domingues: ninguem o venera mais do que eu; mas queria dar a razão do que fiz, seguindo as regras do mui excellente mestre Vilhelmo de Wykeham, a quem devo o pouco que sei, e cuja obra da cathedral de Winchestria tamanho ruido tem feito no mundo."

Com este dialogo chegou aquella comitiva ao portal, que dava para a casa do capitulo: Fr. Lourenço Lamprea, como dono da casa, correu o ferrolho com certo ar de auctoridade, e encostado ao umbral cortejou a elrei no momento de entrar, e aos mais fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Mestre Ouguet, como pessoa tambem principalissima naquelle logar, collocou-se juncto do umbral fronteiro, repetindo, com aspecto sobranceiro-risonho, as mesuras do mui devoto padre prior.

Quando elrei entrou dentro daquella espantosa casa, apenas através da grande janella que a allumia entrava uma luz frouxa, porque o sol estava no fim de sua carreira, e o tecto profundo mal se divisava sem se affirmar muito a vista. Mestre Ouguet ficára á porta, mas Fr. Lourenço tinha entrado.

"Reverendo prior—disse elrei voltando-se para Fr. Lourenço—vim tarde para gosar desta maravilhosa vista: vamos ao auto da adoração, e ámanhan voltaremos aqui a horas de sol."

E seguiu para a banda da sacristia, cuja porta lhe foi abrir o prior.

Mestre Ouguet entrou na casa do capitulo, quando já os ultimos cavalleiros do sequito real íam saindo pelo lado opposto, caminho da igreja. Com as mãos mettidas no cincto de couro preto que trazia, e a passo mesurado, o architecto caminhou até o meio daquella desconforme quadra. O som dos passos dos cavalleiros tinha-se desvanecido; e mestre Ouguet dizia comsigo, olhando para a porta por onde elles haviam passado:

"Pobres ignorantes! que seria o vosso Portugal sem estrangeiros, senão um paiz sáfaro e inculto? Sois vós, homens brigosos, capazes dos primores das artes, ou sequer de entende-los?.. Lá vão, lá vão os frades celebrar um auto! Não serei eu que assista a elle; eu que vi os mysterios de Coventria e de Widkirk! Miseraveis selvagens, antes de tentardes representar mysterios fôra melhor que mandasseis vir alguns irmãos da sociedade dos escrivães de parochia de Londres[1], que vos ensinassem os verdadeiros momos, ademanes e tregeitos usados em semelhantes autos."

Mestre Ouguet estava embebido neste mudo soliloquio, em louvor da nação que lhe dava de comer, e o que deveria pesar-lhe ainda mais na consciencia, da nação que lhe dava de beber, quando erguendo casualmente os olhos para a macissa abobada, que sobre elle se arqueava, fez um gesto de indizivel horror, e como doudo correu a bom correr pela crasta solitaria, apertando a cabeça entre as mãos, e gritando a espaços:

"Oh, malaventurado de mim!"

[1] Pelas Chronicas de Stow se vê que no principio do seculo 15.° os mysterios eram representados em Londres pelos escrivães de parochia, incorporados em sociedade por Henrique 3.°, em 1409.

O AUTO.

Juncto a uma das columnas da igreja de Sancta Maria da Victoria estava levantado um estrado, sobre o qual se via uma grande e macissa cadeira de espaldas, feita de castanho, e lavrada de curiosos bestiães e lavores: era este o logar onde elrei devia assistir ao auto da adoração dos reis. No mesmo estrado havia varios assentos rasos para nelles se assentarem os fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Defronte do estrado e collocado ao pé do arco da capella do fundador corria para um e outro lado da parede um devoto presepio[1], mui erguido do chão, e representando serranias agrestes, ao sopé das quaes estava armada uma especie de choça, onde sobre a tradicional manjadoura se via reclinado o menino Jesus, e de joelhos juncto delle a Virgem e S. José, acompanhados de varios anjos, em acto de adoração. Diante da cabana corria, no mesmo nivel, um largo e grosseiro cadafalso de muitas táboas, para o qual, por um dos lados, davam serventia duas grossas e compridas pranchas de pinho, por onde deviam subir as personagens do auto.

Tanto que elrei saíu da porta do cruzeiro que dá para a sacristia, encaminhou-se pela igreja abaixo, e veio assentar-se na cadeira de espaldas, conduzido por Fr. Lourenço, que com todos os modos de homem cortezão offereceu os assentos rasos aos demais cavalleiros e fidalgos.

Pela mesma porta da sacristia saíram logo as primeiras figuras do auto, que, descendo ao longo da nave, subiram ao cadafalso pelas pranchas de que fizemos menção.

Estas primeiras figuras eram seis, formando uma especie de prologo ao auto. Tres que vinham adiante representavam a Fé, a Esperança, e a Caridade: após ellas vinham a Idolatria, o Diabo, e a Suberba; todas com suas insignias mui expressivas e a ponto; mas o que enlevava os olhos da grande multidão dos espectadores era o Diabo, vestido de pelles de cabra, e com um rabo que lhe arrastava pelo tablado, e seu forcado na mão, mui vistoso e bem posto. Feitas as venias a elrei, a Idolatria começou seu arrazoado contra a Fé, queixando-se de que ella a pretendia esbulhar da antiga posse em que estava de receber cultos de todo o genero-humano, ao que a Fé acudia com dizer que ab initio estava apontado o dia em que o imperio dos idolos devia acabar, e que ella Fé não era culpada de ter chegado tão asinha esse dia. Então o Diabo vinha lamentando-se de que a Esperança começasse de entrar nos corações dos homens; que elle Diabo tinha jus antiquissimo de desesperar toda a gente; que se dava ao démo por vêr as perrarias que a Esperança lhe fazia; e com isto careteava com taes momos e tregeitos, que o povo ria a rebentar, o mais devotamente que era possivel. Ainda que o Diabo fizesse de truão da festa, nem por isso a sua contendora, a Esperança, dava descargo de si com menos compostura do que a tão honrada virtude cumpria, dizendo que ella obedecia ao senhor de toda las cousas, e que este vendo e considerando os grandes desvairos que pelo mundo íam, e como os homens se arremessavam desacordadamente no inferno, a mandára para lhes apontar o direito caminho do céu; e por aqui seguia com razões mui devotas e discretas, que moveriam a devotissimas lagrymas os ouvintes, se a devoto riso os não movesse o Diabo com seus tregeitos e visagens, como, com bastante agudeza, reflecte o auctor da antiga chronica, de que fielmente vamos transcrevendo esta veridica historica. A Suberba, que estava impando, ouvidas as razões da Esperança, travou della mui rijo, e com voz torvada e rosto acceso, começou de bradar, que esta dona era sandía, porque entendera enganar os homens com vaidades de incertos futuros, e sustenta-los com fumo; que pretendia contra toda a ordem de boa razão, que a gente vil houvesse igual quinhão no céu com os senhores e cavalleiros, o que era descommunal ousadia, e fóra da geral opinião e direito, indo por aqui discursando com remoques mui orgulhosos, como a Suberba que era. Não soffreu, porém, o animo da Caridade tão descomposto razoar da sua figadal inimiga, e lh'o atalhou com tomar a mão naquelle ponto, e notar que os filhos de Adão eram todos uns aos olhos do Todo-Poderoso; que a Suberba inventára as vans distincções entre os homens, e que á vida eternal mais amorosamente eram os pequenos e humildosos chamados, do que os potentes, o que provou claramente á sua contraria com bastos textos das sanctas escripturas, de que a Suberba ficou mui corrida, por não ter contra tão grande auctoridade resposta cabal. E acabado o dizer da Caridade, um anjo subiu ao cadafalso, para dar sua sentença, que foi mandar recolher ao abysmo a Idolatria, o Diabo e a Suberba, e annunciar ás tres virtudes que as ía elevar ao céu, onde reinariam em gloria perduravel. Então o Diabo, fazendo horribilissimos biocos, pegou pelas mãos ás duas companheiras, e fugiu pela igreja fóra com grandes apupos e doestos dos espectadores. Guiando as tres virtudes, o anjo (por uma daquellas liberdades scenicas que ainda hoje se admittem, quando, nas vistas de marinha, o actor, que vem embarcado, desce dois ou tres degráus das ondas de papelão para a terra de soalho) em vez de subir ao céu, como annunciára, desceu pelas pranchas, que davam para o pavimento da igreja, e caminhando ao longo da nave se recolheu á sacristia, acompanhado da Fé, Esperança e Caridade, tão victoriadas pelos espectadores, como apupado fôra o Diabo e as suas infernaes companheiras.

Ainda bem não eram recolhidas estas figuras, quando, pela mesma porta do cruzeiro, saíram os tres reis magos, ricamente vestidos ao antigo, com roupas talares de fina téla, mantos reaes, e corôas na cabeça. Adiante vinha Balthasar, homem já velho, mas bem disposto de sua pessoa, com aspecto grave e auctorisado, e com umas barbas, posto que brancas, bem povoadas: logo após elle vinha o rei Belchior, e a este seguia-se Gaspar: traziam todos suas bocetas, em que eram guardados os preciosos dons, que ao recem-nascido vinham de longes terras offertar. Subindo ao cadafalso, disseram como uma estrella os guiára até Jerusalem, e como desta cidade, depois de mui trabalhado e duvidoso caminho, tinham acertado em vir a Bethlem, e com grande folgança encontravam ahi o presepe, para fazer seu offertorio, o que em verdade era cousa mui piedosa d'ouvir. O rei Balthasar, como mais velho e sisudo, foi o primeiro que ajoelhou juncto do presepe, e com voz mui entoada, e depondo ante o menino seus presentes, disse:

Sancto filho de David,
Divinal
Salvador da triste raça
Humanal,
Que descestes lá do assento
Celestial;
Vós da gloria imperador
Eternal,
Acceitae este offertorio
Não real,
Pobre si. É quanto posso:
Não hei al.
O que fôra compridoiro
De auto tal
Bem o sei. Andei más vias,
Por meu mal;
Que dez dias prantei tendas
De arrayal
Nas soidões fundas d'Arabia,
Mui fatal.
Meus camellos ha tisnado
Sol mortal;
E um, de vento do deserto,
Vendaval.
O presente, que ahi vêdes,
Pouco vai;
É somente algum incenso
Oriental;
Que o thesouro que eu trazia,
Mui cabal,
Soterrou-mo a tempestade
No areal.

E com isto o veneravel rei Balthasar, depois de fazer sua oração em voz baixa, ergueu-se; e o rei Belchior, ajoelhando e depondo a urna que trazia nas mãos ante o presepe, disse:

Vindo sou Iá do Cataio
A adorar-vos alto infante,
Redemptor:
Não me poz na alma desmaio
Ser de lerra tào distante
Rei, senhor!
É bem torva a minha lace:
Minhas mãos tingidas são
De negrura;
Mas na terra onde o sol nace
Mais se cobre o coração
De tristura;
Porque o torpe Mafamede
Sua crença mui sandia
Mandou lá;
E não ha quem della arrede
Essa gente, que aperfia
Em ser má.
Real tronco de Jessé
Mui fermoso, se eu podéra
Vos levára;
E comvosco á vossa fé
Os incréus eu convertêra,
E os salvára.
Ora quero vêr se peito
São José, que é vosso padre ….

Um sussurro, que começára no momento em que o rei preto ajoelhou, e que mal deixára ouvir a precedente loa (obra mui prima de certo leigo, affamado jogral daquelle tempo) cresceu neste momento a tal ponto, que o corista, que fazia o papel de Belchior, não pôde, continuar, com grande dissabor do poeta, que via murchar a corôa de louros, que neste auto esperava obter. O povo agitava-se, e do meio delle saíam gritos descompostos, que augmentavam o tumulto. Elrei tinha-se erguido, e junctamente os demais cavalleiros e fidalgos: todos indagavam a origem do motim; mas não havia acertar com ella. Emfim, um homem rompendo por entre a multidão, sem touca na cabeça, cabellos desgrenhados, bôca torcida e cuberto de escuma, olhos esgazeados, saltou para dentro da têa, que fazia um claro em roda do tablado. Apenas se viu dentro daquelle recincto, ficou immovel, com os braços estendidos para o tecto, as palmas das mãos voltadas para cima, e a cabeça encolhida entre os bombros, como quem cheio de horror via sobre si desabar aquellas altissimas e macissas arcarias.

"Mestre Ouguet!—exclamou elrei espantado.

"Mestre Ouguet!—gritou Fr. Lourenço, com todos os signaes de assombro.

"Mestre Ouguet!—repetiram os cavalleiros e fidalgos, para tambem dizerem alguma cousa.

"Quem fala aqui no meu nome?—rosnou David Ouguet, com uma voz comprimida e sepulchral.—Malvados! Querem assassinar-me?! Querem arrojar sobre mim esse montão de pedras, como se eu fôra um cão judeu, que merecesse ser apedrejado?! Oh meu Deus, salvae a minha alma!"—E depois de um breve silencio, em que pareceu tomar fôlego:— "Não vos chegueis ahi!—bradou elle.—Não vedes essas fendas profundas como o caminho do inferno? São escuras: mas atravez dellas lá enxergo eu o luar! Vós não, porque vossos olhos estão cegos … porque o vosso bom nome não se escoa por lá!… Cégos? Não vós!… mas elle!… Elle é que se ri e folga em sua orgulhosa suberba! Vêde como escancára aquella bôca hedionda; como revolve, debaixo das palpebras cubertas de vermelhidão, aquelles olhos embaciados!… Maldicto velho, foge diante de mim!… Maldicto, maldicto!… Curvada ja no centro … sentia-a escaliçar e ranger… Estavas tu assentado em cima della? Feiticeiro!… Anda, que eu bem ouço as tuas gargalhadas!… Não ha um raio que te confunda?.. Não!"

Dizendo isto, mestre Ouguet cubriu a cara com as mãos, e ficou outra vez immovel.

Elrei, os cavalleiros, os padres mais dignos, que estavam de roda do estrado real, os reis magos, os populares, todos olhavam pasmados para o architecto que assim interrompêra a solemnidade do auto. Um silencio profundo succedêra ao ruído, que a apparicào daquelle homem desvairado excitara. Milhares de olhos estavam fitos nesse vulto, que semelhava uma larva de condemnado saída das profundezas para turbar a festa religiosa. Por mais de um cérebro passou este pensamento: em mais de uma cabeça os cabellos se eriçaram de horror; mas dos que conheciam mestre Ouguet nenhum duvidou de que fosse elle em corpo e alma. Que proveito tiraria o demonio de tomar a figura do architecto para fazer uma das suas irreverentes diabruras? Só uma supposição havia, que não era inteiramente desarrazoada; David Ouguet podia estar possesso, em consequência de algum grave peccado; peccado que talvez tivesse escondido na ultima confissão, que fizera na vespera de Natal. Isto era possivel, e até natural; que não vivia elle a mais justificada vida. Suppôr que endoudecêra parecia grande desproposito; porque nenhum motivo havia para tal lhe acontecer, quando merecêra os gabos d'elrei e de todos, por ter levado a cabo a grandiosa obra que lhe estava encommendada. Estes e outros raciocinios, hoje ridículos, mas segundo as idéas daquella epocha hem fundados e correntes, fazia o reverendo padre procurador Fr. Joanne, que tinha vindo assistir ao auto, e estava em pé atraz do estrado, e perto de Fr. Lourenço Lamprêa. Revolvendo taes pensamentos, no meio daquelle silencio ancioso em que todos estavam, não pôde ter-se que, pé ante pé, se não chegasse ao prior, e lh'os communicasse em voz baixa, e ao ouvido.

"Não vou fóra disso:"—respondeu o prior, que, emquanto o outro frade lhe falára, estivera dando á cabeça em signal de approvação.—"O olhar espantado, o escumar, o estorcer os membros, o falar não sei de que feiticeiro; tudo me induz o crer que o demonio se chantou naquelle miseravel corpo, como vós aventaes. Se assim é, pouco juizo mostrou desta vez o diabo em vir com seus esgares e tropelias atalhar o mui devoto auto da adoração. Examinemos se assim é, eu vo-lo darei bem castigado."

Dizendo isto, Fr. Lourenço chegou-se a el-rei, e disse-lhe o que quer que foi. Elle escutou-o attentamente, e tanto que o prior acabou, sentou-se outra vez na sua cadeira de espaldas, e fez signal com a mão aos fidalgos e cavalleiros para que tambem se assentassem.

Fr. Lourenço, acompanhado de mais alguns frades, subiu pela igreja acima, e entrou na sacristia: todos ficaram esperando, silenciosos e immoveis como mestre Ouguet, o desfecho desta scena, que se encaixava no meio das scenas do auto.

Tinham passado obra de tres credos, quando, saindo outra vez da porta da sacristia, Fr. Lourenço voltou pela igreja abaixo, revestido com as vestes sacerdotaes, cbegou á têa, abriu-a, e encaminhou-se para mestre Ouguet. Depois, olhando de roda, e fazendo um aceno de aucloridade, disse:

"Ajoelhae, christãos, e orae ao Padre Eterno por este nosso irmão, tomado do espirito immundo."

A estas palavras, rei, cavalleiros, frades, povo, tudo se poz de joelhos. E ouvia-se ao longo das naves o sussurro das orações.

Só mestre Ouguet ficou sem se bulir com o rosto mettido entre as mãos.

O prior lançou a estola á roda do pescoço do possesso, e queria atar os tres nós do ritual; mas o paciente deu um estremeção, e tirando as mãos da cara, fez um gesto de horror, e gritou:

"Frade abominável, tambem tu és conluiado com o cégo?"

"Não ha duvida!—disse por entre os dentes o prior:—mestre Ouguet está endemoninhado."

Tirando então da manga um pergaminho, em que estavam escriptas varias cousas de doutrina, o poz sobre a cabeça do mestre, fazendo sobre elle tres vezes o signal da cruz.

David Ouguet soltou então uma destas risadas nervosas, que horrorisam, e que tão frequentes são quando o padecimento moral sobrepuja as forcas da natureza.

"Cão tinhoso—bradou Fr. Lourenço—espirito das trevas, enganador, maldicto, luxurioso, insipiente, ebrio, serpe, vibora, vil e refece demónio, emfim, castelhano[2]. Em nome do creador e senhor de todas las cousas, te mando que repitas o credo, ou sáias deste miseravel corpo."

Mestre Ouguet ficou immovel e calado.

"Não cedes?!"—proseguiu o prior—"Recorrerei ao septimo, ao mais terrivel exorcismo. Veremos se poderás a teu salvo escarnecer das creaturas feitas á imagem e semelhança de Deus."

Depois de varias ceremonias e orações, Fr. Lourenço chegou-se ao pobre irlandez, e começou a repetir o conjuro, fazendo-lhe uma cruz sobre a testa a cada uma das seguintes palavras, que proferia lentamente:

"Hel—Heloym—Heloa—Sabaoth—Helyon—Esereheye—Adonay—Iehova—
Ya—Thetagrammaton—Saday—Messias—Hagios—Ischiros—Otheos—
Athanatos—Sother—Emanuel—Agla—……

"Jesus!"—bradou a uma voz toda a gente que estava na igreja.

"Diabo!"—gritou mestre Ouguet; e caíu no chão como morto.

E houve um momento de angustia e terror, em que todos os corações deixaram de bater, e em que todos os olhos, braços e pernas ficaram fixos como se fossem de bronze.

Um ruído semelhante ao de cem bombardas, que se houvessem disparado dentro do mosteiro, e que soára da banda da sacristia, tinha arrancado aquelle grito de mil bôcas, e tinha convertido em estatuas essa multidão de povo.

Ha situações tão violentas, que se durassem, a morte se lhes seguiria em breve; mas a providente natureza parece restaurar com dobrada energia o vigor physico e espiritual do homem depois destes abalos espantosos; e então, melhor que nunca, elle sente em si que, posto que despenhado, não perdeu a sublimidade da sua origem divina. A reacção segue a acção; e quanto mais timido o individuo se mostrou, mais viva é a consciência da propria força, que depois disso renasce com o destemor e ousadia.

Foi o que succedeu a D. João I, aos cavalleiros do seu sequito, e ao povo que estava na igreja de Sancta Maria, passado aquelle instante de sobrenatural pavor. A terribilidade da ceremonia que Fr. Lourenço practicava; o ruído inesperado que rompêra o exorcismo; o grito blasphemo do architecto, no momento de cahir por terra; o logar; a hora, eram cousas que, reunidas, fariam pedir confissão a uma grande manada de philosophos encyclopedistas, e que por isso, não é de admirar fizessem uma impressão vivissima em homens de um seculo, não só crente, mas tambem supersticioso. Todavia o animo indomavel do Mestre d'Aviz brevemente fez cobrar alento a todos os que ahi estavam.

"É, em verdade, descommunal maravilha o que temos visto e ouvido—disse elle com voz firme, voltando-se para os que o rodeavam;—mas cumpre indagar d'onde procede o ruído que veiu interromper o mui devoto padre prior no exercicio de seu ministerio tremendo. Soou esse medonho estampido da banda do claustro: vamos examinar o que seja: se diabolico, estamos na casa de Deus, e a cruz é nosso amparo: se natural, que haverá no mundo capaz de pôr espanto em cavalleiros portuguezes?"

Dizendo isto, elrei desceu do estrado, e encaminhou-se para a sacristia. Os cavalleiros da comitiva, os frades, os tres reis magos (que ainda estavam em pé sobre o tablado) e uma grande parte do povo tomaram o mesmo caminho.

Elrei ía adiante, e o prior era o que mais de perto o seguia. Cruzaram o arco gothico, que dava communicação para a sacristia: ahi tudo estava em silencio: uma lampada que pendia do tecto dava uma luz frouxa e mortiça, e a esta luz incerta e baça encaminharam-se para a porta do capitulo. Ao chegar a ella todos recuaram de espanto, e um segundo grito soou, e veiu morrer sussurrando pelas naves da igreja quasi deserta:

"Jesus!"

As portas haviam estourado nos seus grossissimos gonzos, e muito cimento solto e pedras quebradas tinham rolado pelo portal fóra, entulhando-lhe quasi um terço da altura. Olhando para o interior daquella immensa quadra não se viam senão enormes fragmentos de cantos lavrados, de laçarias, de cornijas, de voltas e de relevos: a lua, que passava tranquilla nos céus, reflectia o seu clarão pallido sobre este montão de ruinas semelhantes aos monumentos irregulares de um cemiterio christão; e por cima daquelle temoroso silencio passava o frio leste da noite, e vinha bater nas faces turbadas dos que apinhados na sacristia contemplavam este lastimoso espectaculo. Dos olhos d'elrei e de Fr. Lourenço cahiram algumas lagrymas, que elles debalde tentavam reprimir.

A abobada do capitulo, acabada havia vinte e quatro boras, tinha desabado em terra!

[1] Presepio, ou presepe, significa propriamente um estabulo, ou estrebaria; mas a accepção vulgar desta palavra é a de uma especie de embrechado, ou paizagem de vulto, representando a choça de Belém, em que nasceu o Salvador.

[2] O inquisidor Sprenger, no livro intitulado Mallens Maleficarum, recommenda aos exorcistas que antes de tudo descomponham e injuriem quanto poderem os possessos, advertindo que não são propriamente estes que recebem as affrontas, mas sim o diabo, que tem no corpo. A conveniencia de taes doestos é que para o demonio, pae da suberba, não póde haver maior pirraça do que ser descomposto na sua cara, sem que elle se possa desaggravar. Veja-se o livro citado, edição de Lyão de 1604—Tom. 3. pág. 83.

UM REI CAVALLEIRO.

Em uma quadra das que serviam de aposentos reaes no mosteiro da Batalha, á roda de um bufete de carvalho de lavor antigo, cujos pés, torneados em linha espiral, eram travados por uma especie de escabéllo, que pelos topos se embebia nelles, estavam assentadas varias personagens daquellas com quem o leitor já tractou nos antecedentes capitulos. Eram estas D. João I, Fr. Lourenço Lamprêa, e o procurador Fr. Joanne. Elrei estava á cabeceira da mesa, e no topo fronteiro o prior, tendo á sua esquerda Fr. Joanne. Além destes, outros individuos ahi estavam, que as pessoas lidas nas chronicas deste reino tambem conhecerão: taes eram os doutores João das Regras e Martim d'Ocem do conselho d'elrei, cavalleiros mui graves e auctorisados, e afóra elles mais alguns fidalgos, que D. João I particularmente estimava. Atraz da cadeira d'elrei um pagem esperava, em pé, as ordens de seu real senhor. O quadrante do terrado contiguo apontava meio-dia.

Em cima do bufete estava estendido um grande rolo de pergaminho, no qual todos os olhos dos circumstantes se fitavam: era a traça ou desenho do mosteiro, que delineára mestre Affonso Domingues, onde, além dos prospectos geraes do edificio, illuminados primorosamente, se viam todos os córtes e alçados de cada uma das partes dessa complicada e maravilhosa fabrica. Elrei tinha a mão estendida, e os dedos sobre o risco da casa capitular, ao passo que falava com o prior:

"Parece impossivel isso; porque natural desejo é de todos os homens alcançarem repouso e pão na velhice, e não vejo razão para mestre Affonso se doer da mercê que lhe fiz."

"Pois a conversação que vos relatei, tive-a com elle ainda hontem, pouco antes de vossa mercê chegar."

"E como vae David Ouguet?—perguntou elrei.

"Com grande melhoria:—respondeu o prior.—Dormiu bom espaço, e acordou em seu juizo. Contou-me que, entrando hontem após nós na casa do capitulo, e affirmando a vista na abobada, conhecêra que tinha gemido, e estava a ponto de desabar; que sentíra apertar-se-lhe o coração, e que com a sua afflicção corrêra pela crasta fóra como doudo; que no céu se lhe affigurava um relampaguear incessante e medonho; que via … nem elle sabe o que via, o pobre homem. Depois disso, diz que perdêra o tino, e de nada mais se recorda."

"Nem dos exorcismos?—perguntou em meia voz Martim d'Ocem, com um sorriso malicioso.

"Nem dos exorcismos:—retrucou Fr. Lourenço no mesmo tom, mas subindo-lhe ao rosto a vermelhidão da colera.—A proposito, doutor. Dizem-me que Annequim é morto[1], e que elrei proveu o cargo em um dos de seu conselho. Seria verdadeira esta mercê singular?"

E o frade media o letrado de alto a baixo com os olhos irritados. Este preparava-se para vibrar ao prior uma nova injuria indirecta, naquelle jogo de allusões que era as delicias do tempo, quando elrei acenou ao pagem, dizendo-lhe:

"Alvaro Vaz d'Almada, ide depressa á morada d'Affonso Domingues, dizei-lhe que eu quero falar-lhe, e guiae-o para aqui. Fazei isso com tento; e lembrae-vos de que elle é um antigo cavalleiro, que militou com vosso mui esforçado pae."

O pagem saíu a cumprir o mandado d'elrei.

"Dizeis vós—proseguiu este, dirigindo-se a João das Regras e a Martim d'Ocem—que talvez Affonso Domingues se enganasse em suppôr que era possivel fazer uma abobada tão pouco erguida, como é a que elle traçou para o capitulo. Não creio eu que tão entendido architecto assim se enganasse: mais inclinado estou a persuadir-me de que o lastimoso successo de hontem á noite procedesse da grave falta commettida por mestre Ouguet nesta edificação."

"E que falta foi essa, se a vossa mercê apraz dizer-m'o?—replicou
João das Regras.

"A de não seguir de todo ponto o desenho de mestre Affonso:—tornou elrei.

"E se a execução de sua traça fosse impossivel?—acudiu o doutor.

"Impossivel!?"—atalhou elrei.—"E não contava elle com leva-la a effeito, se Deus o não tolhesse dos olhos?"

"E é disso que mais se doe mestre Affonso,"—interrompeu o prior.—"A sua grande canseira é que ninguem saberá continuar a edificação do mosteiro, ou, como elle diz, proseguir a escriptura do seu livro de pedra, porque ninguem é capaz de entender o pensamento que o dirigiu na concepção delle."

"Roncarías e feros são esses proprios de quem foi homem d'armas de Nunalvares:—disse o chanceller João das Regras.—Todos os de sua bandeira são como elle. Porque sabem jogar boas lançadas, teem-se em conta de principes dos discretos; e o cégo não se esqueceu ainda de que comeu da caldeira do condestavel."

João das Regras, emulo de Nunalvares, não perdeu este ensejo de lhe pôr pêcha; mas D. João I que conhecia serem esses dous homens as pedras angulares de seu throno, escutava-os sempre com respeito, salvo quando falavam um do outro; posto que o condestavel, homem mais de obras que de palavras, raras vezes menoscabava os meritos do chanceller, contentando-se com lançar na balança, em que João das Regras mostrava o grande peso da sua penna, o montante com que elle Nunalvares tinha em cem combates salvado a patria do dominio estranho, e a cabeça do chanceller das mãos do carrasco, de que não o livrariam nem os gráus de doutor de Bolonha, nem os textos das leis romanas.

"Deixae lá o condestavel, que não vem ao intento;—disse elrei:—o que me importa é ouvir mestre Affonso sobre este caso. Quizera antes perder um recontro com castelhanos, do que cuidar que o capitulo de Sancta Maria da Victoria ficará em ruinas. Mestre Ouguet com sua arte deixou-lhe vir ao chão a abobada: se Affonso Domingues fôr capaz de a tornar a erguer, e deixa-la firme, concluirei d'ahi que vale mais o cégo que o limpo de vista; e digo-vos que o restituirei ao antigo cargo, ainda que esteja, além de cégo, çopo[2] e mouco."

Neste momento entrava o velho architecto, agarrado ao braço de Alvaro Vaz d'Almada, que o veiu guiando para o topo da desmesurada banca de carvalho, á roda da qual se travára o dialogo, que acima transcrevemos.

"Dom donzel, onde é que está elrei?"—dizia Affonso Domingues ao pagem, caminhando com passos incertos ao longo do vasto aposento.

D. João I, que ouvira a pergunta, respondeu em vez do pagem:

"Agora nenhum rei está aqui, mas sim o Mestre d'Aviz, o vosso antigo capitão, nobre cavalleiro de Aljubarrota."

"Beijo-vos as mãos, senhor rei, por vos lembrardes ainda de um velho homem de armas, que para nada presta hoje. Vêde o que de mim mandaes; porque de vossa ordem aqui me trouxe este bom donzel."

"Queria vêr-vos e falar-vos; que de coração vos estimo, honrado e sabedor architecto do mosteiro de Sancta Maria."

"Architecto do mosteiro de Sancta Maria, já o não sou; vossa mercê me tirou esse encargo: sabedor, nunca o fui, pelo menos muitos assim o creem, e alguns o dizem: dos titulos que me daes só me cabe hoje o de honrado; que esse, mercê de Deus, é meu, e fôra infamia rouba-lo a quem já não póde pegar em um montante para defende-lo."

"Sei, meu bom cavalleiro, que estaes mui torvado comigo por dar a outrem o cargo de mestre das obras do mosteiro: n'isso cria eu fazer-vos assignalada mercê. Mas venhamos ao ponto: sabeis que a abobada do capitulo desabou hontem á noite?"

"Sabia-o, senhor, antes do caso succeder."

"Como é isso possivel?!"

"Porque todos os dias perguntava a alguns desses poucos obreiros portugueses que ahi restam, como ia a feitura da casa capitular: no desenho della pozera eu todo o cabedal de meu fraco ingenho, e este aposento era a obra prima de minha imaginação: por elles soube que a traça primitiva fôra alterada, e que a junctura das pedras era feita por modo diverso do que eu tinha apontado: prophetisei-lhes então o que havia de acontecer. E—accrescentou o velho com um sorriso amargo—muito fez já o meu successor em por tal arte lhe pôr o remate, que não desabasse antes das vinte e quatro horas."

"E tinheis vós por certo que se vossa traça se houvera seguido, essa desmesurada abobada não viria a terra?"

"Se estes olhos não tivessem feito com que eu fosse posto de banda como uma carta de testamento antiga, que se atira, por inutil, para o fundo de uma arca, a pedra do fecho dessa abobada não teria de vir esmigalhar-se no pavimento antes de sobre ella pesarem muitos séculos; mas os de vosso conselho julgaram que um cégo para nada podia prestar."

"Pois se ousaes levar a cabo vosso desenho, eu ordeno que o façaes, e desde já vos nomeio de novo mestre das obras do mosteiro, e David Ouguet vos obedecerá."

"Senhor rei—disse o cégo, erguendo a fronte, que até alli tivera curvada:—vós tendes um sceptro e uma espada; tendes cavalleiros e bésteiros; tendes ouro e poder: Portugal é vosso, e tudo quanto elle contém, salvo a liberdade de vossos vassallos: nesta nada mandaes. Não!… vos digo eu: não serei quem torne a erguer essa derrocada abobada! Os vossos conselheiros julgaram-me incapaz d'isso: agora elles que a alevantem."

As faces de D. João I tingiram-se do rubor do despeito.

"Lembrae-vos, cavalleiro,—disse elle—de que falaes com D. João
I."

"Cuja corôa—acudiu o cégo—lhe foi posta na cabeça por lanças, entre as quaes reluzia o ferro da que eu brandia. D. João I é assaz nobre e generoso, para não se esquecer de que nessas lanças estava escripto:—os vassallos portuguezes são livres."

"Mas—tornou elrei—os vassallos que desobedecem aos mandados daquelle em cuja casa tem acostamento[3], podem ser privados de sua moradia…"

"Se dizeis isso pela que me déstes, tirae-m'a; que não vo-la pedi eu. Não morrerei de fome; que um velho soldado de Aljubarrota achará sempre quem lhe esmole uma mealha; e quando haja de morrer á mingua de todo humano soccorro, bem pouco importa isso a quem vê arrancarem-lhe, nas bordas da sepultura, aquillo por que trabalhou toda a vida, um nome honrado e glorioso."

Dizendo isto, o velho levou a manga do gibão aos olhos baços, e embebeu nella uma lagryma mal sustida. Elrei sentiu a piedade coar-lhe no coração comprimido de despeito, e dilatar-lh'o suavemente. Uma das dores d'alma, que em vez de a lacerar a consolam, é sem duvida a compaixão.

"Vamos, bom cavalleiro,—disse elrei pondo-se em pé—não haja entre nós doestos. O architecto do mosteiro do Sancta Maria vale bem o seu fundador! Houve um dia em que nós ambos fomos pelejadores: eu tornei celebre o meu nome, a consciencia m'o diz, entre os principes do mundo, porque segui avante por campos de batalha; ella vos dira também que a vossa fama será perpetua, havendo trocado a espada pela penna, com que traçastes o desenho do grande monumento da independencia e da gloria desta terra. Rei dos homens do acceso imaginar, não desprezeis o rei dos melhores cavalleiros, os cavalleiros portuguezes! Tambem vós fostes um delles; e negar-vos-heis a proseguir na edificação desta memoria, desta tradição de marmore, que ha-de recordar aos vindouros a historia de nossos feitos? Mestre Affonso Domingues, escutae os ossos de tantos valentes, que vos accusam de trahirdes a boa e antiga amizade: vem de todos os valles e montanhas de Portugal o soído desse queixume de mortos; porque, nas contendas da liberdade, por toda a parte se verteu sangue e foram semeados cadaveres de cavalleiros! Eia, pois: se não perdoaes a D. João I uma supposta affronta, perdoae-a ao Mestre d'Aviz, ao vosso antigo capiião, que em nome da gente portugueza vos cita para o tribunal da posteridade, se refusaes consagrar outra vez á pátria vosso maravilhoso ingenho, e que vos abraça como antigo irmão nos combates, porque certo crê que não quereis perder na vossa velhice o nome de bom e honrado portuguez."

Elrei parecia grandemente commovido, e talvez involuntariamente, lançou um braço ao redor do pescoço do cégo, que soluçava e tremia sem soltar uma só palavra.

Houve uma longa pausa: todos se tinham posto em pé quando elrei se erguêra, e esperavam anciosos o que diria o velho. Finalmente este rompeu o silencio:

"Vencestes, senhor rei, vencestes!… A abobada da casa capitular não ficará por terra. Oh meu mosteiro da Batalha, sonho querido de quinze annos de vida entregues a cogitações, a mais formosa das tuas imagens será realisada, será duradoura como a pedra em que vou estampa-la! Senhor rei, as nossas almas entendem-se: as unicas palavras harmoniosas e inteiramente suaves, que tenho ouvido ha muitos annos, são as que vos saíram da bôca: só D. João I comprehende Affonso Domingues; porque só elle comprehende a valia destas duas palavras formosissimas, palavras de anjos—patria e gloria. A passada injuria a vossos conselheiros a attribui sempre, que não a vós, posto que de vós, que ereis rei, me queixasse: varre-la-hei da memoria, como o entalhador varre as lascas e a pedra moída pelo cinzel de cima do vulto, que entalhou em fuste de columna arrendada. Que me restituam os meus officiaes e obreiros portuguezes; que portuguez sou eu, portugueza a minha obra! De hoje a quatro mezes podeis voltar aqui, senhor rei, e ou eu morrerei, ou a casa capitular da Batalha estará firme, como é firme a minha crença na immortalidade e na gloria."

Elrei apertou então entre os braços o bom do cégo, que procurava ajoelhar a seus pés. Era a attracção de duas almas sublimes, que voavam uma para a outra. Por fim D. João I fez um signal ao pagem, que se aproximou:

"Alvaro Vaz, acompanhae este nobre cavalleiro a sua pousada. E vós, mestre mui sabedor, ide repousar: dentro de quinze dias vossos antigos officiaes terão voltado de Guimarães para cumprirem o que mandardes. Mui devoto padre prior,—continuou elrei, voltando-se para Fr. Lourenço—entendei que d'ora avante Affonso Domingues, cavalleiro de minha casa, torna a ser mestre das obras do mosteiro de Sancta Maria da Victoria, em quanto assim lhe aprouvér."

O prior fez uma profunda reverencia.

A alegria tinha tolhido a voz do architecto: diante de toda a côrte elrei o havia desaffrontado, e já, sem desdouro, podia acceitar o encargo de que o tinham despojado. Com passos incertos, e seguro ao braço do pagem, saíu do aposento, feita venia a elrei.

Este deu immediatamente ordem para a partida; e quando todos íam saindo, o prior chegou-se ao velho chanceller, e disse-lhe em tom submisso:

"Doutor Johannes a Regulis, espero que narreis fielmente á rainha o que succedeu, e a certifiqueis de quanto me custa ver tirada a régua magistral a mestre Ouguet…"

"Foi—tornou o politico discipulo de Bartholo—mais uma façanha de D. João I: começou por brigar com um louco, e acabou abraçando-o, por lhe vêr derramar uma lagryma. Bem trabalho por fazer do Mestre de Aviz um rei; mas sae-me sempre cavalleiro andante. Não lhe succedêra isto se, em vez de passar a mocidade em pelejas, a houvera passado a estudar em Bolonha. Tendo-lhe dicto mil vezes que é preciso lisongear os inglezes, porque carecemos delles: a tudo me responde com dizer que com Deus e o proprio montante tem em nada Castella: todavia a gente ingleza ufanava-se de ser David Ouguet o mestre desta edificação; e que importava que ella fosse mais ou menos primorosa a troco de contentarmos os que comnosco estão liados? Quanto a vós, reverendo prior, ficae descançado: tudo fia a rainha de vossa prudencia, que é muita, posto que não vistes Bolonha. Vamos, reverendissimo."

A côrte já tinha saído; e os dous velhos seguiram-na ao longo daquellas arcadas, conversando um com o outro em voz baixa.

[1] Annequim era o bobo do paço em tempo de D. Fernando, a quem sobreviveu.

[2] Coixo.—Fui vista ao cégo, e pée ao çôpo. Trad. do livro de Job. Fragmento do seculo 14.º

[3] Acostamento, é o mesmo que moradia.

O VOTO FATAL.

Rica de galas, a primavera tinha vestido os campos da Estremadura do viço de suas flores: a madresilva, a rosa agreste, o rosmaninho, e toda a casta de boninas teciam um tapete odorifero e immenso por charnecas, comoros, e sapaes, e pelo chão das matas e florestas, que agitavam as frontes somnolentas com a brisa de manhan purissima, mostrando aos olhos um balouçar de verdura compassado com o das seáras rasteiras, que mais longe, pelas veigas e outeiros, ondeavam suavemente. Eram sete de Maio da era de Cesar de 1439, ou, como os letrados diziam, do anno da redempção, 1401. Quatro mezes certos se contavam nesse dia, depois daquelle em que, n'uma das quadras do aposento real no mosteiro da Batalha, se passára a scena, que no antecedente capitulo narrámos, e que extrahimos do famoso manuscripto mencionado no capitulo II, com aquella pontualidade e verdade, com que o grande chronista F. Bernardo de Brito citava só documentos innegaveis e auctores certissimos, e com aquella imparcialidade e exacção, com que o philosopho de Ferney referia e avaliava os factos em que podia interessar a religião christan.

Assistiu o leitor á promessa que mestre Affonso Domingues fez a D. João I de que dentro de quatro mezes lhe daria posto o remate na abobada da casa capitular de Sancta Maria da Victoria, e lembrado estará de como elrei lhe promettêra, tambem, mandar vir de Guimarães todos os officiaes portuguezes, que, despedidos da Batalha por mestre Ouguet como menos habilidosos que os estrangeiros, haviam sido mandados para a obra, posto que grandiosa, menos importante de Sancta Maria da Oliveira, hoje desaportuguesada e caiada e dourada e mutilada pelo mais barbaro abuso da riqueza e da ignorancia clerical. A palavra do Mestre d'Aviz não voltára atraz, não por ser palavra de rei, mas por ser palavra de cavalleiro portuguez daquelles tempos, em que tão nobres affectos e instinctos havia nos corações de nossos avós, que de bom grado lhes devemos perdoar a rudeza. Tendo partido de Alcobaça para Guimarães, onde nesse anno se ajunctavam cortes, apenas ahi chegára tinha mandado partir para Sancta Maria da Victoria os officiaes e obreiros mais entendidos, que vieram apresentar-se a mestre Affonso.

Este, resolvido tambem a cumprir o promettido, mettêra mãos á obra. O capitulo foi desentulhado: aproveitaram-se as pedras da primeira edificação que era possivel aproveitar, lavraram-se outras de novo, armaram-se os simples, e muito antes do dia aprazado o fecho ou remate da abobada repousava no seu logar.

Durante estes quatro mezes os successos politicos tinham trazido D. João I a Santarem, onde se fizera prestes com bom numero de lanças, bésteiros, e peões para ir ajunctar-se com o Condestavel, e entrarem ambos por Castella, cuja guerra tinha recomeçado, por se haverem acabado as treguas. Para esta entrada se apparelhára elrei com uma lustrosa companhia de seus cavalleiros, e caminhando pela margem direita do Tejo, acampára juncto a Tancos, onde se havia de construir uma ponte de barcas para passar o exercito, e seguir ávante até o Crato, que era o logar aprazado com o Condestavel, para junctos irem dar sobre Alcantara.

Em Val-de-Tancos estava assentado o arraial da hoste d'elrei: os petintaes, que tinham vindo de Lisboa, trabalhavam na ponte de barcas, que se deviam lançar sobre o Tejo; os bésteiros limpavam suas béstas, e folgavam em luctas e jogos; os cavalleiros corriam pontas, atiravam ao tavolado, monteavam, ou matavam o tempo em banquetes e beberronias. Tinham chegado áquelle sitio a cinco de Maio, e no seguinte dia elrei partíra afforradamente para a Batalha, porque não se esquecêra de que os quatro mezes, que pedira Affonso Domingues para alevantar a abobada, eram passados, e fôra avisado por Fr. Lourenço de que a obra estava acabada, mas que o architecto não quizera tirar os simples senão na presença d'elrei.

Antes de partir de Lisboa, D. João mandára sair dos carceres, em que jaziam, bom numero de criminosos e de captivos castelhanos, que, com grande pasmo dos povos, e rodeados por uma grossa manga de bésteiros, tomaram o caminho da Batalha, sem que ninguem aventasse o motivo d'isto. Todavia elle era obvio: elrei pensou que, assim como a abobada do capitulo desabára da primeira vez, passadas vinte quatro horas depois de desamparada, podia agora derrocar-se em cima dos obreiros no momento de lhe tirarem os prumos e travezes sobre que fôra edificada. Sollicito pela vida de seus vassallos; parente do povo por sua mãe, e crendo por isso que a morte de um popular tambem tinha seu trance de agonia, e que lagrymas de orphãos pobres eram tão amargas, ou porventura mais que as de infantes e senhores, não quiz que se arriscassem senão vidas condemnadas, ou pela guerra, ou pelos tribunaes, e que naquella se tinham remido pela covardia, e nestes pela piedade ou antes esquecimento dos juizes. E se da primeira vez lhe não occorrêra esta idéa, fôra porque tambem na memoria de obreiros portuguezes não havia lembrança de ter desabado uma abobada apenas construida.

Seguido só por dous pagens, D. João I atravessou a villa de Ourem pelas horas mortas do quarto de modorra, e antes do meio-dia apeou-se á portaria do mosteiro.

Os officiaes, que trabalhavam em varios lavores, pelos telheiros e casas ao redor do edificio, viram passar aquelle cavalleiro e os dous pagens, mas não o conheceram: D. João I vinha cuberto de todas as peças, e ao galgar o ginete pelo outeiro abaixo, tinha descido a viseira.

"Benedicite!—dizia elrei, batendo devagarinho á porta da cella de Fr. Lourenço.

"Pax vobis, domine!—respondeu o prior que logo conheceu elrei, e veio abrir a porta.

"Não vos incommodeis, reverendissimo—disse D. João, entrando na cella, e sentando-se em um tamborete.—Deixae-me resfolegar um pouco, e dae-me uma vez de vinho."

"Não vos esperava tão de salto;—tornou Fr. Lourenço: e abrindo um armario, tirou delle uma borrácha e um cangirão de madeira, que encheu de vinho, e pegando com a esquerda em uma escudela de barro de Estremoz[1] cheia de uma especie de bolo feito de mel, ovos, e flor de farinha, apresentou a elrei aquella collação.

"Excellente almoço:—dizia elrei, descalçando o guante ferrado, e cravando a espaços os dedos dentro da escudela, d'onde tirava bocados do bolo, que ajudava com alentados beijos dados no cangirão. Depois que cessou de comer, limpando a mão ao forro do tonelete, poz-se em pé, em quanto Fr. Lourenço guardava os despojos daquella batalha:

"Bofé—disse D. João, rindo—que não ando a meu talante, senão com o arnez ás costas! Cada vez que o visto, parece-me que torno á mocidade, e que sou o Mestre d'Aviz, ou antes o simples cavalleiro, que, confiado só em Deus, corria solto pelo mundo, monteando edomas[2] inteiras, e tendo sobre a consciencia só os peccados de homem, e não os escrupulos de rei."

"E então—atalhou o prior—o vosso confessor Fr. Lourenço era um pobre frade, cujos unicos cuidados se encerravam em saber as horas do côro, e em ler as sagradas escripturas, porém que hoje tem de velar muitas noites, pensando no modo de não deixar affrouxar a disciplina e boa governança de tão alteroso mosteiro. Mas, segundo vosso recado, que hontem recebi, vindes para assistir ao tirar dos simples da mui famosa abobada, o que mestre Domingues aporfia em só fazer perante vós?"

"A isso vim, porém de espaço; que não será nestes cinco dias, que esteja prompta a ponte de barcas, que mandei lançar no Téjo para passar minha hoste. Durante elles, com vossos mui religiosos frades me apparelharei para a guerra, enthesourando orações e recebendo absolvição de meus erros."

"Os principes pios—acudiu o prior com ar de compuncção—são sempre ajudados de Deus, principalmente contra herejes e scismaticos, como os perros dos castelhanos, que a Virgem Maria da Victoria confunda nos infernos."

"Amen!—respondeu devotamente elrei.

"Avisarei, pois, mestre Affonso de vossa vinda, para que mande pôr tudo em ordenança de se tirarem os simples: elle me pediu que o mandasse chamar apenas fosseis chegado."

Fr. Lourenço saíu, e d'ahi a pouco voltou acompanhado do architecto, que um rapaz guiava pela mão.

"Guarde-vos Deus, mestre Affonso Domingues!—disse elrei, vendo entrar o cégo—Aqui me tendes para vêr acabada a feitura da mirifica abobada do capitulo de Sancta Maria, cujos simples não quizestes tirar senão em minha presença."

"Beijo-vo-las, senhor rei, pela mercê: dous votos fiz se levasse a cabo esta feitura; era esse um delles…"

"E o outro?—atalhou elrei.

"O outro, dir-vo-lo-hei em breve; mas por ora permitti que para mim o guarde."

"São negocios de consciencia:—acudiu o prior.—Elrei não quer, por certo, fazer-vos quebrar vosso segredo."

D. João I fez um signal de assentimento ao parecer do seu antigo padre espiritual.

Elrei, o prior, e o architecto ainda se demoraram um pedaço falando ácerca da obra, e do que cumpria fazer no proseguimento della; mas o cégo dissera o que quer que fôra em voz baixa ao rapaz que o acompanhava, o qual saíra immediatamente, e que só voltou quando os tres acabavam a conversação.

"Fernão d'Evora—disse o cégo, sentindo-o outra vez ao pé de si—fizeste o que te ordenei, e deste a teu tio Martim Vasques o meu recado?"

"Senhor, si! Envia-vos elle a dizer que tudo está prestes."

"Então vamos a vêr se desta feita temos mais perduravel abobada."

Isto dizia elrei saindo da cella de Fr. Lourenço, e seguindo ao longo do claustro. Já a este tempo se tinha espalhado no mosteiro a nova da sua chegada, e os frades começavam de ajunctar-se para o cortejarem. Do mosteiro rompêra a noticia, e se espalhára na povoação, aonde concorrêra muita gente dos arredores, principalmente de Aljubarrota, por ser dia de mercado: de modo que quando elrei desceu á crasta já alli se achavam apinhados homens e mulheres, que queriam vê-lo, e ainda mais saber se desta vez a abobada vinha ao chão, para terem que contar aos vizinhos e vizinhas da sua terra.

As portas da casa do capitulo estavam abertas: via-se dentro della tal machina de prumos, travezes, andaimes, cabrestantes, escadas, que bem se podéra comparar a composição daquelles simples á fabrica do mais delicado relogio. Á porta, que dava para a crasta, estava um homem em pé, que se desbarretou apenas viu elrei, a cuja direita vinha o architecto, seguido por Fr. Lourenço e por outros frades.

O pequeno Fernão d'Evora disse algumas palavras a Affonso Domingues, o qual lhe respondeu em voz baixa. Então o rapaz acenou ao homem desbarretado, que se chegou timidamente ao cégo. Era um mancebo, que mostrava ter de idade, ao mais, vinte cinco annos; de rosto comprido, tez queimada, nariz aquilino, olhos pequenos e vivos. Chegando-se ao cégo, este o tomou pela mão, e voltando-se para elrei, disse:

"Aqui tendes, senhor, a Martim Vasques, o melhor official de pedraria que eu conheço; o homem que, com mais alguns annos de esperiencia, será capaz de continuar dignamente a serie dos architectos portuguezes."

"E debaixo de meu especial amparo estará Martim Vasques—respondeu elrei—que por honrado me tenho com haver em meus senhorios homens que vos imitem.[3]"

Ainda bem não eram acabadas estas palavras, sentiu-se um sussurro entre o povo, que girava livremente pela crasta, e que se enfileirou aos lados: chegava a gente que devia tirar os simples.

Entre duas alas de bésteiros vinha um bom numero de homens, magros, pallidos, rotos e descalços: o porte de alguns era altivo, e em seus farrapos se divisava a razão d'isso: eram bésteiros castelhanos, que em diversos recontros e pelejas tinham cahido nas mãos dos portuguezes. As guerras entre Portugal e Castella assemelhavam-se ás guerras civis de hoje: para vencidos não havia nem caridade, nem justiça, nem humanidade: ser mettido em ferros era então uma ventura para o pobre prisioneiro; porque os mais delles morriam assassinados pelo povo desenfreado, em vingança dos máus tractos que em Castella padeciam os captivos portuguezes. Com os castelhanos vinham d'envolta varios criminosos condemnados á morte por suas malfeitorias.

"Misericordia!—bradou toda aquella multidão, ao passar por elrei: e cahiram de bruços sobre as lageas do pavimento.

"Comvosco a tenho, mesquinha gente:—disse elrei commovido—Se tirardes os simples, que vêdes acolá, a abobada não desabar sobre vós, soltos e livres sereis. Erguei-vos, e confiae na sciencia do grande architecto que fez essa mirifica obra. Mandar-vos comprar vossa soltura a custo de tão leve risco, quasi que é o mesmo que perdoar-vos."

Os presos ergueram-se; mas a tristeza lhes ficou embebida no coração, e espalhada nas faces: o terror fazia-lhes crer que já sentiam ranger e estalar as vigas dos simples, e que, ás primeiras pancadas, as pedras desconformes da abobada, desatando-se da immensa volta, os esmagariam, como o pé do quinteiro esmaga a lagarta enroscada na planta viçosa do horto.

Neste momento quatro forçosos obreiros chegaram á porta do capitulo, trazendo sobre uma pavióla uma grande pedra quadrada. Martim Vasques, que já lá estava, gritou ao cégo architecto:

"Mui sabedor mestre Affonso, que quereis se faça do canto, que para aqui mandastes trazer?"

"Assentae-o bem debaixo do fecho da abobada, no meio desse claro, que deixam os prumos centraes dos simples."

Os obreiros fizeram o que o architecto mandara: este então voltou-se para elrei, e disse:

"Senhor rei, é chegado o momento de vos declarar meu segundo voto. Pelo corpo e sangue do Redemptor jurei que, assentado sobre a dura pedra, debaixo do fecho da abobada, estaria sem comer nem beber durante tres dias, desde o instante em que se tirassem os simples. De cumprir meu voto ninguem poderá mover-me. Se essa abobada desabar, sepultar-me-ha em suas ruinas: nem eu quizera encetar, depois de velho, uma vida deshonrada e vergonhosa. Esta é a minha firme resolução."

Dizendo isto, o cégo travou com força do braço de Fernão d'Evora, e encaminhou-se para a porta do capitulo.

"Esperae, esperae!—bradou elrei.—Estaes louco, dom cavalleiro? Quem, se vós morrerdes, continuará esta fabrica, tão formosa filha de vosso engenho?"

"Mestre Ouguet:—tornou o cégo, parando.—Não sou tão vil que negue seu saber e habilidade: se a abobada desabar segunda vez, ninguem no mundo é capaz de a fechar com uma só volta, e para a firmar sobre uma columna erguida no centro, mestre Ouguet o fará. Quanto ao resto do edificio, fazei senhor rei que se prosiga meu desenho: é o que ora vos peço tão sómente."

E o velho e o seu guia sumiram-se por entre as bastas vigas, que sustinham as traves dos simples: elrei, Fr. Lourenço, e os mais frades ficaram atonitos e calados.

"Que tão honrado mestre corra parelhas no risco com esses perros castelhanos cousa é que se não póde soffrer: mas o voto é voto, senão…"

Estas palavras partiam da bôca d'uma gorda velha, cuja tez avermelhada dava indicios de compleição sanguinea e irritavel, e que de mãos mettidas nas algibeiras, na frente de uma das alas do povo presenceava o caso.

"Tendes razão, tia Brites d'Almeida; e por ser voto me calo eu:—acudiu elrei, voltando-se para a velha.—Mas juro a Christo, que estou espantado de só agora vos vêr! Porque me não viestes falar?"

"Perdoe-me vossa mercê:—replicou a velha.—Eu vim trazer pão á feira, e ahi souhe da chegada de vossa real senhoria. Corri … se eu correria para vos falar! Mas estes bôcas abertas não me deixaram passar. Abrenuncio! Depois estive a olhar… Parecieis-me carregado de semblante. Que é isso? Temos novas voltas com os excommungados castelhanos? Se assim é, trosquiae-mos outra vez por Aljubarrota, que a pá não se quebrou nos sete que mandei de presente ao diabo, e ainda lá está para o que der e vier."

Soltando estas palavras, a velha tirou as mãos das algibeiras, e cerrando os punhos, ergueu os braços ao ar, com os meneios de quem já brandia a tremebunda e patriotica pá de forno, que hoje é gloria e brasão da gothica villa de Aljubarrota.

"Podeis dormir descançada, tia Brites:—respondeu elrei, sorrindo-se.—Bem sabeis que sou portuguez e cavalleiro, e a gente de nossa terra é cortez: elrei de Castella veio visitar-nos varias vezes: e agora eu ando na demanda de lhe pagar com usura suas visitações."

Em quanto este dialogo se passava entre o heroe de Aljubarrota e a sua poderosa alliada, Martim Vasques tinha posto tudo a ponto; e dando as suas ordens da porta, as primeiras pancadas de martello, batendo nos simples, resoaram pelo ambito da casa capitular. Fez-se um grande silencio e todos os olhos se cravaram em Martim Vasques.

Passada uma hora, aquelle montão de vigas, barrotes, taboas, cambotas, cabrestantes, reguas e travessas tinha passado pela crasta fóra em collos de homens: os presos tinham sido postos em liberdade, com grande raiva da tia Brites ao vêr ir soltos os bésteiros castelhanos; e só no centro da ampla quadra se via uma pedra, sobre a qual, mudo e com a cabeça pendida para o peito, estava assentado um velho.

A este velho rogava elrei, rogavam frades, rogava o povo, sem todavia se atreverem a entrar, que saisse d'alli; mas elle não lhes respondia nada. Desenganados, emfim, foram-se pouco a pouco retirando da crasta, onde ao pôr do sol começou a bater o luar de uma formosa noite de Maio.

Três dias se passaram assim. Mestre Affonso, assentado sobre a pedra fria, nem se quer cedêra ás rogativas de Anna Margarida, que, obrigada pela boa amizade que tinha a seu amo, se atrevêra a cruzar os perigosos umbraes do capitulo, para vêr se o movia a tomar alguma refeição: tudo recusou o cégo: a sua resoluçào era inabalavel. Também a abobada estava firme, como se fôra de bronze. No terceiro dia á tarde elrei, que tinha passado o tempo em aparelhar-se para a guerra com actos de piedade, desceu á crasta acompanhado de Fr. Lourenço e de outros frades, e chegando á porta do capitulo viu Martim Vasques e Anna Margarida juncto á pedra fria de Affonso Domingues, e este pallido e com as palpebras cerradas encostado nos braços delles.

O mancebo e a velha choravam e soluçavam, sem dizerem palavra.

"Que temos de novo?—perguntou elrei, chegando á porta, e vendo aquelles dous estafermos.—Completam-se ora os tres dias do voto: ainda mestre Affonso teimará em estar aqui mais tempo?"

"Não senhor:—respondeu Martim Vasques, com palavras mal articuladas:—não estará aqui mais tempo; porque seu corpo é herança da terra; sua alma repousa com Deus."

"Morto!?"—bradaram a uma voz elrei e Fr. Lourenço; e correram para o cadaver do architecto, olhando, todavia, primeiro para a abobada com um gesto de receio.

"Nada temaes, senhores:—disse Martim Vasques—As ultimas palavras do mestre foram estas: a abobada não cahiu … a abobada não cahirá!"

O architecto, já velho, não pôde resistir ao jejum absoluto a que se condemnára. No momento em que, ajudado por Martim Vasques e Anna Margarida, se quiz erguer cahiu moribundo nos braços delles, e aquelle genio de luz mergulhou-se nas trévas do passado.

Elrei derramou algumas lagrymas sobre os restos do bom cavalleiro, e Fr. Lourenço resou em voz baixa uma oração fervente pela alma generosa, que até o ultimo arranco escrevêra sobre o marmore o hymno dos valentes de Aljubarrota.

Na pedra, sobre a qual Mestre Affonso expirára, ordenou elrei se tirasse, parecido quanto fosse possivel retratando-se um cadaver, o vulto do honrado architecto, e que esta imagem fosse collocada em um dos angulos da casa capitular, onde durante mais de quatro seculos, como as sphynges monumentaes do Egypto, tem dado origem ás mais desvairadas hypotheses e conjecturas. Á pobre Anna Margarida, que ficava sem arrimo, doou D. João I, tambem, as casas em que o mestre morava, fazendo-lhe, além disso, assignaladas mercês.

Mestre Ouguet, pelo que o cégo dissera a elrei ácerca da sua capacidade para o substituir, e porque, emfim, era estrangeiro, foi logo restituido ao cargo que occupára, e quando nos serões do mosteiro alguem falava nos meritos de Affonso Domingues e na sua desastrada morte, cortava o irlandez a conversação, dizendo com um riso amarello:

"Olhem que foi forte perda!"

[1] A louça de Estremoz é antiquissima em o nosso paiz. No tempo de Francisco I de França, mandavam-se buscar os pucaros desta louça a Portugal, para beber a agua, que então, bem como hoje, se tornava nelles excessivamente fria.

[2] Semanas.

[3] Martim Vasques foi o 3.º mestre das obras da Batalha e Fernão d'Evora o 4.º—Veja-se a Memoria de D. Francisco de S. Luiz no 10.º volume das da Academia.