I

Lisboa, cidade de marmore, rainha do oceano, tu és a mais formosa entre as cidades do mundo.

A brisa que varre os teus outeiros é pura como o céu azul, que se espelha no teu amplo porto, semelhante a grande mar.

Trinta seculos tem surgido depois que tu surgiste, e sorvendo milhares de existencias cahiram todos no abysmo do passado.

E tu os has visto nascer e morrer; e sorriste-te, porque julgavas que a vida te estava travada com a vida do universo.

Escondendo nas trevas dos tempos remotissimos a tua origem, dizias ás demais cidades da Europa:—Sou vossa irmã mais velha.

Nobre e rica outrora, quando o Oriente e a Africa te mandavam o ouro das suas veias, os extranhos vinham assentar-se-te ao pé dos muros e abastecer-se com as migalhas cahidas das mesas dos teus banquetes.

Cada um dos teus velhos palacios abrigou já os ultimos dias de um grande capitão; em cada pedra dos teus templos ha uma recordação das virtudes passadas; em muitas lousas de sepulturas nomes que não morrerão.

Nas eras de tua gloria, os monarchas dos ultimos confins da terra se haviam por honrados com chamar irmãos a teus filhos; e filhos teus davam e tiravam coroas.

As tuas armadas aravam as campinas do oceano, e neste nem uma vaga deixou de gemer debaixo das naus do Tejo.

Para as frotas da nova Tyro, os golpes de machado resoavam ao mesmo tempo nos bosques da Europa e da Africa, do Oriente e do Novo-Mundo: os lenhos do Indostão cosidos com os da Nigricia fluctuavam por mares distantes, e sobre elles se hasteiava um signal de terror para o orbe: era o pendão das Quinas.

Então, oh cidade do Tejo, reinavas tu e eras forte, mais do que Roma ou Carthago; mas o imperio e a força vinham-te das virtudes de teus filhos, dos homens a quem sem pudor chamamos nossos avós.

Vivificavam-te o seio um sem numero de bem nascidos espiritos, e eras seminario feracissimo de corações generosos.

Porém, que te resta hoje do antigo esplendor, da gloria de tantos seculos? Um echo do passado nas paginas da historia, o sol puro da tua primavera, os restos dos paços e templos que os terremotos te não consumiram, e o grande vulto das aguas do amplo ádito do Tejo.