VI

O sonho da liberdade, o sonho da minha juventude, esta fonte da poesia e de acções generosas, converteu-se para mim n'um pesadello cansado.

Digno era o povo de compaixão quando estava em ferros, e por bom feito se tinha entre as almas puras o affrontar-se o homem com a morte pela salvação dos seus semelhantes:

Porque, subindo ao patibulo ou expirando entre o estrondo das armas, a voz da consciencia assegurava ao que fenecia as lagrymas e as bençãos dos vindouros, e que algum dia cyprestes se plantariam na terra que lhe bebesse o sangue.

Mas isto era crer na virtude popular: era apenas um sonho, e a consciencia mentia.

A corrupção estava no amago das existencias. A arvore da vida social carcomiu-a a servidão. Cumpria que as tempestades politicas a derribassem; que os vermes da sociedade lhe roessem e desfizessem os troncos.

E estes vermes são as turmas de uma plebe invejosa, que incessantemente trabalham na grande obra da publica destruição.

Almas virtuosas, que nos paizes ainda escravos preparaes no silencio a queda dos tyrannos, não apresseis o grande dia da emancipação popular.

Porque nesse mesmo momento sereis amaldicçoados pelos que salvastes, e cubertos de escarneos e de injurias, sabereis que a plebe lança em poucos mezes mais crimes na balança da eterna justiça do que os tyrannos ahi hão lançado por seculos.