VII
Alevantou-se a plebe, e logo commetteu um crime.
Agitava-se e ondeiava pelas ruas com clamor inintelligivel; arrastava-a o espirito das turbulencias civis.
Um homem inerme passou por entre os amotinados: era um dos votados ao exterminio: muitos tiros e golpes partiram do meio da turba, e o homem cahiu exangue e sem vida.
E arrastaram até o cemiterio publico, ao som de injurias e risadas, esses restos que a morte sanctificara. As maldicções do odio mais profundo param á beira do tumulo. A maldicção popular, essa é que não parou ahi.
Soterraram por meio corpo o cadaver e cuspiram naquellas faces lividas aonde já não podia subir do coração o rubor, e que os olhos cerrados não podiam já mundificar com lagrymas.
E esse homem assassinado e arrastado e cuberto da escuma fetida da gentalha, fora um dos que salvaram o povo do cutello dos tyrannos.
Plebe: commetteste um assassinio, e serás julgada. A ferro morrerá o que ferir com ferro: disse-o o Propheta do Golgotha.
Deixaste acaso a face da tua victima descuberta para monumento do crime?
Quizeste porventura desafiar a eterna justiça, e convocar a combate o
Regedor dos mundos?
Se na tua maldade e soberba assim o pensaste, sabe que baldada foi a profanação da sepultura.
Se nos confins da terra sumisses o morto; se o escondesses nos abysmos do oceano; se o arrojasses na cratera de um volcão encendido, lá Deus o havia de divisar.
Porque todo o gemido do moribundo resoa até o throno do Eterno.
Preparae-vos, vermes, se tanto ousaes: porque o Senhor se erguerá sobre os orbes, e o estridor da setta exterminadora sibillará atravez do Universo: ella se cravará na terra que pisaes e passareis como o fumo.
Ai daquelle que, impenitente, acordar ao som da ultima trombeta tincto no sangue injustamente derramado de algum de seus irmãos!
Em verdade vos digo que para esse já não ha perdão, mas só o ranger de dentes e o bramir sempiterno.