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Povo! os que hoje saudas como numes, ámanhã fa-los-has em pedaços, e arrastarás pelas ruas os seus cadaveres cobertos de feridas e pisaduras.
Porque, bem que tarde, conhecerás que elles te hão enganado.
Prometteram-te abundancia, e achar-te-has faminto; prometteram-te liberdade, e achar-te-has servo.
A licença mata a liberdade; porque se livremente opprimes, livremente podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para os outros assassinar-te.
Se a força, e não a moral, é a lei popular, quando os tyrannos tiverem mais força, legitimamente podem pôr no collo do povo um jugo de ferro.
Ministros da tyrannia são os que suscitaram a lucta das facções, os que deram o primeiro grito da revolta, os que accenderam a guerra civil;
Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe para as mãos d'algum despota que a devore.
Lembrae-vos da Serpente, que enganou nossos primeiros paes: foi com palavras sonoras, com promessas de gloria e de ventura que ella perdeu a ambos.
Dado que para vós não houvesse liberdade e elles vo-la offerecessem á custa de perpetuo damno, devieis tê-los por vossos destruidores.
Porque a liberdade não é tanto um fim como um meio: quer-se a liberdade não tanto para as nações serem livres, como para serem felizes.
Que importa o respeito de propriedade ao que nada possue? Que vale a liberdade da palavra para o que só tem de proferir maldicções e queixumes? Que monta que os vossos pares vos julguem, se o odio das facções nos fez inimigos uns dos outros?
Sem concordia, inevitavel é que o edifício social desabe: e porventura nascerá a concordia do meio das sedições?