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Porém, debalde invocariamos justiça perante o tribunal popular; porque o povo é abastado de injustiça e ingratidão.
Os que estão cubertos de cicatrizes, os que foram longamente saciados de angustias por salvá-lo seriam condemnados, e os tribunos, os concitadores da anarchia, cujas obras unicas tem sido conduzir a patria ao abysmo da perdição, seriam absolvidos, seriam abençoados.
Embora: a nossa consciencia está tranquilla, e no grande dia é Deus quem a todos nos julgará.
Houve um propheta outrora em Israel, e chamava-se o Filho do Homem.
E este propheta amava os humildes e os pobres, e reprehendia os poderosos.
E condemnava os hypocritas da religião, e por isso era abominado pelos grandes e pelos sacerdotes.
Mas respeitava as leis, e ensinava a obediencia: mandava que se pagasse o tributo das duas drachmas do templo, e o tributo de Cesar.
E affeiava aos populares os seus vicios e abominações; e por isso era tambem malquisto da gentalha.
E, condemnado á morte pelos poderosos, o povo, a quem tinha trazido a luz e a vida eterna, o povo, que elle tanto amava, cubria-o de opprobrios.
E podendo salvá-lo do supplicio, antepunha-lhe um grande criminoso, e clamava aos algozes:—Pregae-o na cruz, e cáia o seu sangue sobre a nossa cabeça e sobre a cabeça de nossos filhos.
E este propheta era o Messias, era o redemptor do genero humano, era o filho de Deus.
Consolem-se, pois, aquelles que sobre os hombros tomaram o odio dos tyrannos por amor do povo, e a quem o povo paga com injurias e pragas.
Como Jesu-Christo, os hypocritas e os oppressores das nações abominam-nos: como a Jesu-Christo, o vulgacho cobre-nos de affrontas, e pede para nós aos seus tribunos a condemnação e o supplicio.
E que nos cumpre fazer para seguirmos em tudo o exemplo do Justo assassinado, do Deus que nos deixou na terra o consolo e a esperança?
Pedir morrendo ao Eterno Pae o perdão de nossos perseguidores e, como o divino Mestre, lançar á conta da ignorancia as culpas de corações corruptos.
Imitando o Salvador na cruz, seja um pensamento de benção o nosso pensamento extremo; porque o derradeiro suspiro do christão deve ser um murmurio de affecto grande para os que o amaram, mas ainda maior para os que o odeiaram e perseguiram.