XV

Lá estava tambem o monumento da nossa patria.

E nelle repousavam os cadaveres de muitos seculos.

E a historia de cada um destes lia-se na face da pedra, escripta pela mão do archanjo que velava o sepulchro e que forcejava por suster a campa, que já pendia, como para os encubrir á luz.

E esta era a lenda sepulchral:

Deus escolheu para si a nação do extremo occidente, e a benção do
Altissimo desceu sobre o berço della.

E passou glorioso o primeiro seculo da sua existência, rico de combates e victorias: elle herdou ao seguinte a cruz plantada nos coruchéus dos alcorões, e uma raça valente e virtuosa, que defendesse a terra conquistada.

«De incremento e prosperidade foi o segundo seculo; e posto que ahi houvesse dias de turbação, o povo cresceu; porque o Senhor o abençoava.

E na terceira era soou em paiz extranho uma voz que falava de servidão. O povo português lançou mão da espada e da lança, e em vinte combates provou a sua independencia, e que o Deus dos exercitos fora o Deus de seus paes.

E na quarta era chegou a idade viril da republica: a sua estatura assemelhava-se á de um gigante, os seus braços aos de um athleta.

E na quinta ella estendeu a mão para o oriente, e aferrando centenares de povos, metteu-os debaixo dos pés.

Então commetteram-se crimes, a corrupção estendeu-se, e a face do Senhor turbou-se.

Aqui na inscripção seguia apenas um nome de poeta, o depois uma longa beta negra. Esta significava que de infamia e servidão fora a sexta idade da republica.

E a lenda tumular proseguia:

Surgiu um dia o povo, e quebrando os grilhões que tyrannos estranhos lhe haviam lançado, açacalou de novo a sua espada esquecida, e combateu quasi um seculo.

E recobrou a independencia, senão a liberdade.

D'aqui ávante, falava o letreiro de existencias e de largos annos; mas de existencias sem gloria, e de annos semelhantes apenas á decrepitude de homem que foi robusto.

E havia ahi guerras e victorias e leis: mas as victorias coroavam o general e não o soldado, porque o soldado era servo: as leis eram talvez justas, mas desciam do throno dos reis sem a sancção popular, e o povo dobrava o joelho.

E isto era impio. O servo que acceita sê-lo é só meio-christão. Do evangelho deriva a liberdade, como condição impreterivel do homem, responsavel por seus actos perante Deus. A liberdade póde rasgar-se do evangelho; não separar-se delle.

Depois lia-se o nome de um rei; e este nome era grande e honrado, como os dos antigos reis portugueses, e a sua historia estava escripta no monumento da eternidade. Após esta, seguiam-se algumas palavras de esperança.

E d'alli por diante a pedra estava em branco; porque a oitava era da republica ainda não tinha adormecido juncto do umbral do passado.