XX
O Filho do Homem comprazia-se em ensinar a sabedoria por meio de parabolas: na parabola está a philosophia do povo.
Um agricultor possuia certo campo que não produzia senão fructos enfezados; porque o solo se havia tornado sáfaro por falta de cultura durante largos annos.
Porém ainda, aqui e acolá, pela extensão da veiga, vecejavam algumas arvores e cepas de boas castas, e que só de maltractadas pareciam bravias.
E este agricultor morreu, deixando o campo de seus paes a tres filhos que tinha; e estes tractaram entre si ácerca do que deviam fazer da herança paterna.
E o mais velho disse:—Respeitemos a memoria de nossos antepassados, e deixemos aos que de nós vierem o campo que herdámos do mesmo modo que o recebemos:
Porque se não diga que menoscabamos a prudencia dos velhos e que pretendemos ser mais avisados do que foi nosso pae.
Elle viveu, posto que pobre, tranquillo: vívamos como elle viveu.
E disse o segundo-genito:—Veneranda é a memoria dos que nos geraram: comtudo tambem se deve acatar a razão, que nos foi dada por Deus.
Conservemos todas as obras do tempo passado; mas melhoremos tudo o que nellas houver ruim.
Ahi estão arvores uteis no meio da nossa herdade: não as derribemos, porque o fazê-lo, além de impiedade, fora rematada loucura.
Porém roteemos os bréjos e sarçaes, adubemos a terra, e procuremos fazer novos plantios adequados á qualidade do solo.
E disse o irmão mais novo:—Que nos importa os que passaram, ou que temos nós com o que elles fizeram?
Nossos paes viveram nas trevas da ignorancia; e por isso todas as suas obras são loucura e vaidade.
A luz e a sciencia só veio ao mundo em nossos dias, e só a propria sabedoria póde fazer-nos felizes.
Comecemos pois por arrancar deste agro todos os vestigios de antiga cultivação: não verdeça nelle nem uma unica planta.
E depois buscaremos arvores extranhas de fructos saborosos e sementes uteis, e a nossa herdade causará inveja a todos os vizinhos.
Cada um dos irmãos estava firme em seu proposito, e os servos e os familiares bandeiaram-se em tres partidos.
E luctaram uns com os outros, e triumphou a opinião do mais velho.
E o campo mal cultivado, cada vez produzia menos, e a fome veio assentar-se no limiar da porta dos tres irmãos.
O que vendo o segundo-genito, disse aos do seu bando:
Força é que tiremos o poder das mãos dos que nos governam, aliás morreremos todos á pura mingua.
E assim o fizeram; e, posto que a lucta fosse longa e encarniçada, venceram; porque a razão estava da sua parte, e Deus os abençoava.
Então começaram a trabalhar: alimparam as arvores dos ramos seccos e exuberantes; adubaram os campos e prados, e arrancaram as moutas e as plantas nocivas.
E lançaram boas sementes á terra, e quando a seara foi crescendo, começaram de mondar-lhe o joio e as outras hervas damninhas.
Promettia naquelle anno ser excellente a colheita, e no coração dos familiares renascia já a esperança.
Mas o irmão mais novo, possuido do espirito de destruição, colligou-se com os criados devassos e que aborreciam o trabalho continuo a que eram forçados.
E fizeram uma união contra o segundo-genito e tiraram-lhe o mando, valendo-se de muitos clientes do primogenito, os quaes, por via da dissensão entre os dous mais novos, esperavam triumphasse o mais velho.
Lançaram-se então ao campo, destruiram a sementeira, cortaram as arvores, e passaram a charrua por cima dos campos arrelvados.
E buscaram sementes exquisitas e arvores exoticas, e atiraram á terra desalinhadamente com tudo isso, e depois adormeceram.
As arvores, porém, seccaram logo, e as sementes, apenas rebentaram, morreram; porque os imprudentes não haviam estudado nem a natureza do clima, nem as propriedades do solo, nem as regras de agricultar.
E a familia inteira no fim do anno tinha perecido de fome.