IV
Vai em meio o jantar, no dia seguinte.
A animação é completa, e viva, sincera e espontanea a alegria, que referve em cada conviva.
É que alli não ha superiores nem inferiores, não ha grandes nem subordinados; ha uma familia festejando os annos do seu chefe estimado e querido, que só como pessoas de familia, olha Jorge para as que tem sentadas em volta da sua meza.
Magdalena preside á festa, como o anjo bondoso e meigo d'aquelle lar, onde só ella é sol, que tudo aquece e vivifica, cuidando pouquissimo de si e tudo dos outros.
Está esplendida de formosura! deslumbrante de encantos!
Tem nos olhos a vivacidade de alegria intima, e os esplendores da belleza d'alma; no rosto a sympathia que fascina, e nos modos a doçura que captiva.
Veste um vestido de sêda côr de flôr d'alecrim, simples, mas elegantemente enfeitado, honesta e delicadamente aberto no seio, onde vem cahir, pendente d'um formoso collar de pequeninas perolas, uma medalha cravejada de brilhantes. Os cabellos, aquelles cabellos negros, tão feiticeiros, pendem setinosos em lindissimos cachos, ornados apenas d'uma perfumada rosa branca.
Jorge cedeu as honras da festa á filha querida, que occupa a cabeceira da meza, occupando elle o primeiro lugar na face direita, á direita de Magdalena.
Segue-se-lhe o guarda-livros, rapaz de 25 annos, portuguez, sympathico, elegantemente trajado, meigo no fallar e polido nas maneiras.
Do outro lado, em face d'estes, estão o primeiro caixeiro, mulato brazileiro, de rosto duvidoso, olhar que pouco lhe favorece o caracter, e modos apparentemente delicados, e os outros empregados do armazem, que não merecem menção especial.
Falla-se alegremente; discute-se com placidez.
Magdalena, a todos attende e não esquece nenhum. De si é que ella cuida pouco.
Entre os serventes nota-se o cabinda. O negro anda entalado nas dobras d'uma gravata branca, cujo laço fôra feito pela sua filha, e veste uma roupa nova de pano preto fino. Anda doido d'alegria, ebrio com a alegria da sua filha.
O negro lança todavia, de quando em quando, uns olhares de expressivo despreso ao mulato que janta, e volve-os depois para Magdalena, como que dizendo-lhe:
--Foge d'elle!
O guarda-livros, que se chama Luiz de Mello, e o mulato caixeiro, de nome Americo de Abreu, olham tambem a seu turno para Magdalena e depois um para o outro.
Ella, porém, a formosa filha do cabinda, parece prestar mais attenção a Luiz, sem que por isso deixe de ser delicada com todos os outros.
Os pratos teem-se succedido, os copos esvasiado algumas vezes, e tanto se tem comido como fallado.
A alegria assentou-se com os convivas á meza d'aquelle festim.
Começam as sobremezas e vão principiar os brindes.
Magdalena é a primeira. Está porém, um pouco acanhada em presença dos seus hospedes porque tomando o calix, vieram colorir-lhe o rosto duas rosas de purissimo rubor.
--Quero ser a primeira, disse ella, porque sou filha. Brindo aos seus annos, papae.
E levou o calix aos labios, mas mal provou o vinho.
--Acompanho a V. Ex.a, acudiu Luiz, desejando com ardor que d'aqui a muitos annos os possa brindar e festejar, tão alegre e tão feliz como hoje.
--Do mesmo modo, repetiram os outros.
--Obrigados, meus amigos. Agradecido, filha.
E Jorge levou a seu turno o calix á bôcca, continuando depois:
--Agora, Magdalena, á saude dos nossos hospedes...
--E, ajuntou Luiz, á felicidade da filha de V. Ex.a, fazendo, todos nós, sinceros e ardentes votos, para que um bom anjo a proteja sempre, a ella, que nos recebe aqui como irmã nossa, e irmã muito affectuosa.
Magdalena tornou a ruborisar-se, olhando para Luiz com olhos de reconhecimento, e respondendo-lhe:
--Obrigada, meus amigos. Faço o que devo e menos do que merecem.
--Á felicidade de V. Ex.a, brindaram todos.
--Obrigado, agradeceu Jorge pela filha.
E o jantar seguiu, e os brindes continuaram.
Luiz olhava cada vez mais para Magdalena, e é certo que encontrava sempre os olhos d'ella pregados nos seus.
Americo analysava aquillo, e o cabinda analysava o mulato.
No entanto, a alegria ia ganhando de intensidade, porque os convivas d'aquelle festim intimo e familiar de Jorge e sua filha, iam perdendo, sem sahirem dos limites do respeito, um resto de acanhamento que a franqueza do capitalista e a bondade da filha do cabinda não poderam de todo dissipar.
Os negros e serventes, tinham por sua vez festa no aposento destinado á sua refeição.
O cabinda, porém, lá chegava, de quando em quando, para, com a sua prudencia, e digamos mesmo, bom senso, impedir excessos e pôr obstaculos a abusos.
Estava a terminar o jantar. Já se fallava muito e nada se comia.
Jorge levantou-se então, e, tomando uma garrafa de finissimo vinho do Porto, dirigiu-se aos seus convidados:
--Vamos ao ultimo brinde.
E encheram-se os copos.
--Bebo, não só á saude e á prosperidade d'aquelles que chamei hoje a minha casa, como pessoas a quem estimo e considero, mas bebo tambem á saude das suas familias ausentes.
--Agradecidos, senhor, accudiram todos.
--A sua mãe, senhor Luiz, brindou Magdalena.
--Mil vezes grato, minha senhora, respondeu elle, vivamente impressionado.
--Agora, para de todo terminarmos esta festa, proseguiu Jorge, e d'ella ficar uma lembrança aos amigos, que aqui tenho em volta de mim, lembrança tão grata, quão grande foi a alegria que me porporcionaram, declaro ao senhor Luiz de Mello e ao senhor Americo d'Abreu que deixam, desde este dia, de ser, um, meu guarda-livros, e meu caixeiro o outro, para se considerarem meus socios nas transacções da minha casa. Não esqueço os outros, que trabalham para a minha prosperidade, e fica desde já o meu socio e amigo Luiz de Mello, encarregado de lhes augmentar os ordenados. Minha filha festejou-me os annos, collocando-os em volta d'esta meza, eu commemoro-os d'este modo, esperando que recolherão assim mais contentes.
--Como é bom, papae! murmurou Magdalena.
Houve então uma verdadeira chuva de agradecimentos, que é desnecessario pintar, e da alegria passou-se ao enthusiasmo, quasi ao delirio.
Luiz levantou-se pallido e tremulo de commoção, mas extremamente sympáthico, e dirigiu-se a Jorge:
--Se V. Ex.a me confunde com a grandissima distincção, com que acaba de honrar-me, chamando-me seu socio, por muitos titulos me honra mais, e mais me confunde ainda, dando-me o nome de amigo, para a conservação e engrandecimento do qual, não deixarei nunca de empregar todos os meus esforços.
--Obrigado, respondeu Jorge, apertando-lhe a mão.
E dispunha-se a deixar a meza.
N'este momento, porém, entrava o cabinda, trazendo pela mão uma negrinha de 10 annos, que o negro foi apresentar-lhe.
--Que é isso, cabinda?
--A Belmira traz ao seu senhor as flôres dos negros, porque o cabinda e os seus parceiros tambem festejam os annos do pae da senhora moça, respondeu o negro, em quanto a pretinha offerecia a Jorge um lindissimo ramo de mimosas flôres.
--Obrigado, Belmira, obrigado, cabinda, disse o capitalista, affagando a creança. E tu, Magdalena, ficas encarregada de ir agradecer a todos, em quanto vamos para o jardim esperar o café.
--Como és nosso amigo, cabinda! disse Magdalena.
E foi assim que terminou o jantar.
Jorge e os convivas desceram para o jardim.
Magdalena foi agradecer em nome de seu pae a lembrança dos escravos.
O cabinda seguia-a com os olhos, a faiscarem alegria, gritando como doido:
--O branco veiu, senhora moça; o branco é bom e gosta da minha filha!
Americo, descendo para o jardim, approveitava um momento, em que só Luiz podia ouvil-o, para lhe dizer, com certo ar de cynismo;
--Temos ambos igual quinhão no negocio: agora veremos quem leva a filha!