*NARCISO*

Erram no oiro da tarde as sombras de estas ninfas!

E até onde irá o aroma dos seus gestos que sei tentam prender meus olhos que, funestos, sonham um esplendor fatal de pedrarias?

Tarde de tentação! Que estranhas melodias inquietam o ceo de um rumor ignorado? Seringe! Tua flauta arrosa de encantado e sangue de Ilusão esta tarde em demencia que a legenda recorda; e da immortal essencia do sonho esta hora antiga exhuma o velho idilio.

Ha mãos de festa e sonho em meu deserto exilio!

A Beleza é pra mim, ó ninfas! o segredo com que Deus me vestiu de Lindo!… Ai, tenho medo de morrer o que sou ás mãos desse desejo das ninfas; mas está a sombra que não vejo depois e antes de mim e, se afundo o olhar na ancia de me ver, só me vejo ao collo da Distancia! Deixai dormir um pouco o ceo nos olhos meus, eu não os quero abrir antes que os feche,—Deus!—

Ninfas! vós penteais o pavor á janella da minha alma atravez a hora sombria e bella. Corôas não serão sobre mim as de flôres que desfolhais, mas brancos braços de amôres que abrem nocturnamente e num paiz sem dia…

Sois o sonho de mim ao collo da Alegria!
Vossa presença põe o medo em meu destino.

As taças que entornais do aroma sibillino da seducção, de tédio enchem o que me déste, ó Deus! Gela meu ser ao sorriso terrest'e das virgens, que reflecte a tarde a rescender do olor de Pan! … E o olhar dóe por no o esconder do ceo; pois para toda a alma dormir, do bello, o serafico azul é como um pezadêlo!

Porêm como fugir ao sonho que me faz como estrangeiro em mim; do bello azul, voraz a bôca triste, sem côr e de humanas dôres— como se triunfal e de palidas flôres da noite, fôssem de um sonho, na hora escultado?

Captivo em mim sou como o dragão que, inviolado, bebe a scintillação da s'nora claridade do cabello sinistro, onde a luz arde e invade de metalico hallor o nixo onde se acoite…

Vossos cabellos ai! chovem como oiro, á noite! como fios de horror da teia do mistério…

Do cabello, o esplendor do oiro esteril, é aério c'mo de arachnideo sonho ou de siderio tecto cinzelado no olhar—um reflexo de insecto— no frio vôo num ar de somno e oiro e luto…

Avalanches de tédio em seu cabello escuto!…

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Fixo a carne, spectral, como ante inerte frizo de sombras, a nudez, linha esquecida em riso sobre chammas, cruel,—Joia dos calafrios!— Um horror de ónix néva entre os meus dedos frios!

Contemplo o meu destino em mim.
Ninfas, adeus!
Meus gestos irreaes tem seculos de Deus!
Na paisagem do ser corre um rio sem fim:
Os meus gestos são como a outra margem de mim…
Cai alma no jardim dos meus sonhos funestos.
É sempre noite lá no fundo dos meus gestos
onde espreita Deus: ha luar nas minhas mãos…
As mãos abanam no ar os nossos gestos vãos,
—mundos de sonolencia ardendo em reliquarios:
Joias celestes, vós, meus gestos solitarios!

Por mim divaga o ceo. E morre um diadêma á minha fronte triste e pensativa, emblêma da alma palida como um velho pálio ou ouro… Comtudo que torpor me encosta ao sorvedouro c'mo esfinge que se inclina ao abysmo e debruça, a mirar a alma, irmã de um sonho que soluça? É que um gesto sem nome em minha alma se aclara, e no Jardim de Deus sou a ideia mais rara!

Meus gestos vão como esta agua sempre correndo pra a foz do nada; encosto a minha alma, tremendo, á voz da agua—cristal sonoro do alhear-me!—

No novelo de mim a minha ancia a enredar-me.

Ó agua sempre triste em seu ir pela parte da terra que é livida e c'mo alma que se farte de sonhos! Não será a minha sombra ausente um ar vosso—ou serei a imagem da corrente?

Quem descesse o mistério e visse a semelhança nesse intimo torpor das cousas, onde cansa essa fuga do tempo em sombra reflectida… Eu nunca terei dois gestos irmãos na vida, e se olhasse pra traz t'ria medo de mim… (Inter-lunio de nós no sonho d'alêm-fim…)

O que me reflectir roubará meu segredo.
O tempo escorre por nós como alguem com medo
por sobre um muro… Crio olhos de ser distante…
Na alma porei as mãos como por um quadrante…
As mãos são tempo… e tudo é um somno de si…

Miro-me, e não serei a sombra onde me ví?…

Ó espelho sem hora! Ó agua em somno, lustral, —espelho horizontal de tédio c'mo um canal sem ter fundo nem fim. Meu perfil sua dôr! Só me reflicto e não me vejo no torpor da agua que abana o tempo… ai, o tempo é a voz com que se acorda o medo—escultura de nós na distancia… Em rumor, na agua, vago demencia e durmo de Beleza ao collo da Aparencia, que foge como esta agua e este tempo a correr… Marulhar de mim no fundo do meu ser… Só as mãos sabem ter o ar de sonhos contin'os…

Ai! Se o olhar cai nas mãos, desenham-se destinos
como arabescos…
Abro os braços, mas em vão,
e ergo-me de mim com vestes de comoção!

Resta-me contemplar pela noite que inundo de mim, pendido sobre a aparencia do mundo. Minha sombra exilada esculto-a na doçura!

Perturbo-me de Deus nos braços da Ternura!

Sinto que a minha voz já atravessou Deus!…
Cresço sobre mim, ó noite em delirio!
Adeus!
Imagem de ser bello ás mãos da minha infancia.

Sou echo de rumor quebrado na distancia.

Alma da noite antiga incendiada a lavores!

LUÍS DE MONTALVÔR.

[Nota do Transcritor: Aqui surge a fotogravação de Hors Texte de Santa Rita Pintor.]

*SANTA RITA PINTOR.* PARIS ANNO 1912.

Decomposição dynamica de uma mesa—estylo do movimento.

(INTERSECCIONISMO PLASTICO.)