*POEMAS*
DE
EDUARDO GUIMARAENS
SOBRE O CYSNE DE STÉPHANE MALLARMÉ
Um sonho existe em nós como um cysne num lago de agua profunda e clara e em cujo fundo existe um outro cysne branco e ainda mais branco e triste que a sua fórma real de um tom dolente e vago.
Nada: e os gestos que tem, de caricia e de afago, lembram da imagem tenue, onde a tristeza insiste em ser mais alva, a graça inversa que consiste a dolente mudez de um espelho presago.
Um Cysne existe em nós como um sonho de calma, placido, um Cysne branco e triste, longo e lasso e puro, sobre a face occulta de nossa alma.
E a sua imagem lembra a imagem de um destino de pureza e de amôr que segue, passo a passo, este Sonho immortal como um Cysne divino.
FOLHAS MORTAS
Dêste relogio belga, enorme, branco e triste,
tombam as horas como folhas mortas.
Por uma tarde outomnal, triste de spleen e folhas mortas:
Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste.
Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste e as horas tombam como folhas mortas. Porque não nasci eu um lirio nobre e triste, pétala sem perfume entre essas folhas mortas?
Um Versalhes fulgura em cada illusão triste, um Versalhes de outomno atapetado de folhas mortas! Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste e as horas tombam como folhas mortas…
SOB OS TEUS OLHOS SEM LAGRIMAS
Ah! não dirás por certo que não te amei, que não soffri! —Foi-me a tua alma assim como um salão deserto onde, uma noite, me perdi.
Um ramo de violetas fenecia em cada movel amortalhado pelo pó; a purpura das cortinas, rubra, estremecia presa a cada janella. Eu hesitava, só.
—E era meu coração, por ti quasi ferido, á duvida infantil que o emmudecera já, um velho piano adormecido que ninguem mais acordará.