*VI*
O maestro sacode a batuta,
E languida e triste a musica rompe…
Lembra-me a minha infancia, aquelle dia
Em que eu brincava ao pé d'um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha d'um lado
O deslisar d'um cão verde, e do outro lado
Um cavallo azul a correr com um jockey amarello…
Prosegue a musica, e eis na minha infancia
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vae e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavallo azul com um jockey amarello…
Todo o theatro é o meu quintal, a minha infancia
Está em todos os logares, e a bola vem a tocar musica
Uma musica triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarello.
(Tão rapida gira a bola entre mim e os musicos…)
Atiro-a de encontro á minha infancia e ella
Atravessa o theatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarello e um cão verde
E um cavallo azul que apparece por cima do muro
Do meu quintal… E a musica atira com bolas
Á minha infancia… E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavallos azues e jockeys amarellos…
Todo o theatro é um muro branco de musica
Por onde um cão verde corre atraz da minha saudade
Da minha infancia, cavallo azul com um jockey amarello…
E d'um lado para o outro, da direita para a esquerda,
D'onde ha arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orchestras a tocar musica,
Para onde ha filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memorias da minha infancia…
E a musica cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavallo azul, o maestro, jockey amarello tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga d'um muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desapparece pelas costas abaixo…
8 de Março de 1914.