III
Que borburinho é esse? O Porto anda revolto?
Que foi que se passou?
Como é que invade a praça o povo irado e solto,
Se tanto laborou
El-rei, por tel-o em bens e liberdade envolto?
Se ha tanto beneficio, exforços tão visiveis
Em prol da causa publica,
Como podem brotar reprovações sensiveis,
Como é que a ideia nublica
Não acha na Rasão um dique d'impossiveis?
«O povo é desgraçado,» affirma a humana Historia,
«Mataram-lhe o Direito,
«E forçara-n'o a seguir a negra sorte ingloria,
«Calado, contrafeito,
«Pagando sem gosar, tecendo a alheia gloria!»
Um dia, de repente, ergueu-se a reclamar;
A ignara populaça.
O monopolio rouba-a, era mister luctar!
E logo, a plebea raça
Reclama valorosa, em vez de supplicar.
Mas o ministro excelso havia já disposto
Das cousas do alto-Douro;
Vivesse embora a Patria em noute de desgosto.
Os cofres tinham ouro...
Que importa se a Rasão traz lagrimas no rosto?
Por isso se indignou o esteio da Realesa,
E os raios da vingança
Fabrica muito á pressa, e envia com prestesa
Á popular esp'rança
Fundada na intuição das leis da Naturesa.
E após, hórrido insulto á crença humanitaria!
Por um delicto falso
Estende-se no Porto a rede sanguinaria,
E o torpe cadafalso
Arranca friamente a vida ao triste paria!
Creanças sem vigor, rojadas sobre a rua,
Forçaram-se a seguir
O sacrificio immano, onde o valor recua,
E a ver a mãe subir
A via da amargura, e escarnecida e nua!
E um homem venerando, um martyr impolluto
Que a Consciencia chora,
O bom Juiz do Povo, um bravo resoluto,
Sereno como a aurora,
Lá foi tambem lançado á morte, ao chão do lucto!
O que ha que justifique o horror de taes supplicios?
Que espirito medonho,
Não treme ao ver a morte, açoutes, e os exicios?
Não julga quasi um sonho
Que um homem só, profunde infindos precipicios?
Quem ha que não palpite em plena indignação
Olhando um nobre velho
Manchado pela affronta, exposto á impia acção.
Pondo um lastro vermelho,
Na terra onde semeia a intima afflicção.
Quem ha que não suspire, ao ver a mulher casta,
Violada em seu pudor,
Pendida n'uma forca, e desnudada, e gasta
Nas ancias do terror,
Maldita pelo algoz, que á sepultura a arrasta?
Se o Homem fôra um monstro, um tigre em sangue absorto,
Comquanto fôra filho,
Havia de exprobar ao potentado morto
O mortuario trilho
Que abriu com turvo affan no coração de Porto!
Se a Mãe fosse mais fera ainda que a leôa,
Comquanto fosse Mãe,
Havia de olvidar o astro de Lisboa,
Para escutar além,
O brado perennal que pólo a pólo sôa!
Ahi tens, ó Povo Luso, o heroe que agora incensas;
Proclama-o democrata!
Mas pesa-lhe a injustiça, os odios, e as sentenças
E dize se arrebata
Um nome que traduz as mais crueis offensas!
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E o titan que esmagava assim, rude e febril,
Os braços da nação, os braços productores,
Os ferros destruia ao escravo no Brasil,
E baixava ao commercio os olhos protectores!
Infando laborar! Contradicção tamanha,
Que põe n'um ser vidente um tumultuoso abysmo,
E nos traz á memoria a flórida montanha
Que engendra no seu flanco o igneo paroxismo!
Homem! Dizes-te o ser Supremo do Universo
Quando és synthese só das leis da creação!
És tu quem dás a luz, e estás na sombra immerso,
Proclamas o Progresso, e dás a Destruição!
Exhaures toda a força em busca da Verdade,
Penetras com valor nos seculos remotos,
E quando julgas ver a eterna claridade
Surge-te frente a frente um turbilhão d'ignotos!
Que vezes a inconsciencia ao Genio se avantaja!
Que infrene marulhar na logica dos factos!
E quando a Aspiração em nuvens de ouro viaja,
Ha de chegar emfim aos desenganos latos.
Buscae por toda a esphera a perfeição preclara;
O Sol vigora a planta, o Sol requeima o fructo;
A chuva banha o solo, a chuva innunda a ceara,
A Gloria cria a Fama, a Gloria tece o lucto!
A Ideia rasga a entranha á mãe commum, á Terra,
E tira-lhe do ser, minerio, luz, sustento;
Mas rola sobre o campo o carro eril da Guerra,
E põe um muro espesso em face ao Pensamento.
Os cyclos do passado, erguendo o reposteiro,
Mostram em toda a linha o Bem e a Crueldade;
E o Homem preso á rocha, é destructor e obreiro
Que agora incensa á treva, e logo á Liberdade!
Nos dramas do Universo ha sempre imitações
O fado é perennal, a fórma é transitoria;
Cada época produz idoneas mutações
E ha pontos de contacto a escurecer a Historia.
Se um dia a raça humana attinge os lisos portos
De seus nobres ideaes, então, forte e sublime,
Escalpellando á luz, heroes, fetiches mortos,
Ver-lhe-ha nos corações crescer a flor do crime.
E então, em vez de honrar ministros, generaes,
Em vez de pôr n'um templo os grandes assassinos,
Dará seu preito eterno ás leis universaes,
E á Sciencia e Liberdade os mais sonoros hymnos!