VI
O marquez de Pombal, producto do seu meio,
Trazia na Consciencia o salutar anceio
Das santas cousas bellas.
Mas um facto mental, o facto do attavismo,
Acorrentava-o sempre ao velho despotismo
Dos thronos e das cellas.
A corrente soprada além, da heroica França,
Fazia-lhe pulsar a magestosa esp'rança
Das creações mais caras;
Porém n'esse combate imigo do Direito,
Cedia tristemente á voz do Preconceito,
E ás perversões ignaras.
Demonstra-o fartamente o proceder confuso
Com que arrojava ao Povo um turbilhão diffuso
De mortes e afflicção,
Curando juntamente, e com visivel gloria,
De lhe aplainar a rude e fria trajectoria,
Por meio da instrucção.
Affirma-o sem rodeio o manifesto empenho
Com que guerreou Bocage, o sublimado engenho
Do seculo passado,
Por seus bellos ideaes, modernos e atheistas,
Expostos com vigor, e com profundas vistas
De um espirito avançado.
Comprova-o a friesa usada com Fylinto
Que longe do seu ninho, o doce riso extincto,
Chorava, em lyra de ouro,
As ruinas da ventura, o azul do patrio lar,
As aguas do Mondego, e as vibrações do luar
Entre os jasmins e o louro.
A ethopéa social dos seculos transactos,
Reflecte-se e vigora em seus funestos actos.
Fluctua sem cessar seu espirito viril,
Que ora se eleva ao bello, ora se entrega ao vil.
Mas n'elle transparece uma tendencia rude
Que punge a leal Virtude!
A statica mental aperta-a pelos pulsos;
E a dynamica então imprime-lhe os impulsos
Da progressiva lida;
E assim n'este vaivém lhe corre toda a vida.
Porém quando abordou á estancia derradeira
Deixava atraz de si a sanguinosa esteira,
Onde o espectro do pobre, e justo, e velho, e creança
Reclamam com vigor criterio e segurança
Ao tribunal da Historia, onde serão julgados
Os sabios, os heroes, os reis e os scelerados.
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Tenho attacado o clero, aspiro á excelsa luz,
Detesto o ignobil lenho, e sinto por Jesus
O affecto que daria a irmão, se irmão tivera,
Venero o positivo, e nunca a van chimera.
Meus filhos, castos soes, o meu thesouro immenso,
Por quem me sinto grande, a quem adoro e incenso,
As heras infantis que enleio na Consciencia,
A força que me impelle á lucta da inclemencia
Que aqui, n'este paiz de cousas pequeninas
Odeia a quem cultiva as rosas christalinas
No coração do Bem, Progresso e Liberdade,
Seguem a religião do Justo e da Verdade,
É a sua crença ideal,
Resume-se no amor do seu sentir filial.
Mas tendo a mente forte e despresando os idolos,
E combatendo firme os monumentos frivolos,
Politico-sociaes,
Revoltam-me a Consciencia os actos tão brutaes
Da vida do marquez,
E vejo com tristesa o nome portuguez
Coberto pelo horror,
Quando podia ser um foco de explendor.
A queda do jesuita é justa, é rasoavel;
Expulsa essa barreira imiga insuperavel,
Podia a sociedade erguer-se da ignorancia,
Dormir em paz a Mãe, sorrir a loura infancia
Ao Pensamento novo, a santa aspiração!
É digno de louvor quebrar á inquisição
Os braços da vingança a ira da torpesa.
Mas cobrem-se de lucto as leis da Naturesa,
Mas ouve-se um protesto, a palpitar fremente,
Ao ver, cheio de affronta, um martyr impotente,
Rojado pelo chão, manchado pela lama!
E pelas nações clama
A Ideia humanitaria, amena, e justiceira,
Vendo arrojar um ente á estupida fogueira!
E embora fosse um padre, embora um jesuita,
Embora fosse irmão da raça atroz, precita,
A minha voz sentida
Protesta contra a morte imposta a Malagrida!
Protesto! E emquanto houver
Um coração de luz em peito de mulher,
Meu brado ha de correr nos angulos do mundo,
E em todo o mar fecundo!