DIALOGO CONJUGAL

Era uma vez um marido, anno da graça 1861, mas um marido verdadeiro modelo de todos os maridos. Chamava-se o sr. Carneiro; seu hymeneu fôra devidamente legalisado e recebera as bençãos da egreja. Era pois esposo, tanto quanto se póde ser, legal, social, religiosa, e christãmente, da amavel, bonita e joven Amelia, a quem se ligára com o intuito de perpetuar a raça dos Carneiros, fim este que infelizmente ainda não alcançára, apesar da lua de mel ter já o seu anno e meio, e este gasto nas fadigas e diligencias de que um marido póde dispôr para multiplicar a sua raça. O sr. Carneiro emagrecia a olhos vistos, e estafava-se em vão. O nosso homem era um modelo de bondade e simplicidade; era bom e affavel e manso, não como Carneiro que era, mas como um borrego; nunca fizera mal a pessoa alguma, e ninguem tambem no mundo podia dizer a mais pequena coisa em seu desabono. Com taes e quejandos titulos á estima de seus concidadãos, o sr. Carneiro tinha conseguido tornar-se um dos maridos mais felizes do seu bairro, que era o Alto.

Mas o homem nunca está satisfeito sobre a face da terra: o sr. Carneiro era homem, e por conseguinte tinha aspirações. O seu ideal era a vida bucolica, amava a chicoria e o feno, adorava os rabanetes, e sonhava pastoras e zagallos; não podia viver na capital. Suspirava constantemente pelo chocalho campestre, pelas felicidades ruraes, e a sua paixão pelo campo não podia achar lenitivo nos esgalhos do Rocio, nas ervas do Passeio Publico, nas couves da praça da Figueira.

Por fim os seus sonhos tiveram uma realidade, comprou uma quinta na aldea de Pae Pires, e transferiu para alli os seus penates. Alli, n'uma habitação modesta, no declive de um serro, vendo ao longe o Tejo e as suas faluas, passava o sr. Carneiro uma vida santa, junto de madama Carneira, como elle lhe chamava, cultivando as suas cebollas, regando a sua horta, capando o seu meloal.

Ali fazia admirar á sua cara metade a grossura dos seus pepinos ou a côr rubicunda dos seus tomates.

--Vês, menina, lhe dizia, como está lindo este meu pepino; olha para esta perfeição, parece que d'hontem para hoje cresceu meio palmo. Repara-me para a belleza d'estes tomates! que côr e que tamanho...

--É verdade, cada dia estão mais vermelhos...

--E este melão?

--Cresce a olhos vistos, como já está redondinho!

--Ah! filha! não é como tu, segue a lei da naturesa; tudo cresce e se arredonda cá n'este mundo... só tu, meu anjinho... apesar das minhas diligencias, persistes em não arredondar essa...

--Que bonitas estão as batatas.

--Eu sempre as tive boas.

--E que bellos grãos de bico!

--Os grãos são o meu forte...

--Como a vinha vae arrebentando...

--Tudo arrebenta e produz... só tu não me produzes nada... (dá um profundo suspiro).

--Que animal é aquelle que está bebendo além, no rio?

--Julgo que é um burro, queridinha.

--Engana-se, é boi, senhor Carneiro.

--Boi, boi! será... mas não lhe vejo as armas...

--Jesus! que bicho tão feio que eu ia pisando! Mate-me este bicho, sr. Carneiro... que nojo!

--Ah! ah! ah! Ora não ha uma tolinha assim! um caracol, pois mette-te medo um caracol?

--Olhe, só os paus que elle tem; t'arrenego! não se veem senão animaes bicorneos por estes sitios... eu que sempre embirrei com estes bichos!

--Não te zanques commigo, menina... isto é o animal mais innocente que eu conheço...

--Que quer? não está mais na minha mão; diga lá o que disser, n'este ponto não posso vencer a minha repugnancia...

(O marido toma o caracol entre dois dedos.)

--Olha vês, não faz mal. Caracol, caracol, põe os corninhos ao sol...

--Deite isso fóra... que me ataca os nervos...

--Socega, filha, ja deito...

--Esteja quieto! tire isso para lá!

--Então não vês que já o não tenho na mão! Pobre amorsinho, que medo que teve... mas agora dá um beijinho... (quer abraçal-a.)

--Vá primeiro lavar essas mãos; que nojo, não sei o que me parece a tal reima dos caracoes...

--Vamos limpal-as aqui na relva... senta-te aqui ao meu lado...

--Era o que faltava! para me escangalhar o balão.

--Ah! trazes balão? (vae para apalpar.)

--Esteja quieto que me faz cocegas!

--Tem a saia cheia de nodoas verdes...

--São ervas pisadas.

--E n'um sitio esquisito!

--Não sei quem me poz n'este estado...

--Eu decerto não fui. Seria hontem na quinta do Alfeite, quando te perdeste no labyrintho...

Ah! sim, quando o primo Montenegro me lá foi buscar... que bom rapaz que é este nosso primo e hospede... se não fosse elle ainda estava a estas horas em procura da saída...

--E como elle soube entrar e saír com a mesma facilidade... como elle sabe d'aquelles torcicolos...

--É porque sabe desenho.

--Mas sentemo-nos, a erva está tão fresca. Com o calor que está ha de ser um prazer... pódes até levantar as saias para apanhar mais fresco...

--Obrigada, fresca estou eu...

--Que bella noite, que ar tão puro! como é bom ver as estrellas, assim, ao pé d'uma linda rapariga como tu!

--Digo-lhe que tenho frio, estou fria que nem uma pedra...

--Pois eu estou quente que nem uma braza...

--É feliz.

--Podia sel-o... se quizesse... não me resista... ora está agora com medo do seu Carneiro... eu sou sempre o mesmo, aqui e em casa...

--Esteja quieto, senhor, agora aqui no meio da rua...

--Estamos em nossa casa, não offendemos a moral publica...

--Faz luar como de dia...

--Melhor se vê o que se faz...

--São coisas que não gosto de fazer contra vontade!

--Tambem, não sei quando tem vontade!

--Olhe que se espeta nos arcos do balão.

--Maldita moda que cá havia de vir!

--Bem sabe que sou delicada... olhe que me ataca os nervos a mais pequena coisa...

--Pequena, pequena! pois esta não é das maiores...

--Pelo que vejo quer-me ver doente... já estou com uns arripios...

--Olha, embrulha-te no meu paletot... (aproxima-se ainda mais da mulher) apertemo-nos bem um contra o outro... assim, assim... vês? aposto que d'aqui a cinco minutos estás a suar em bica...

--Jesus! que scena! olha se algum visinho vê... que quadro vivo este!

--Estou vendo que o não fazem todos! (Amelia geme e suspira, o que faz suspender Carneiro.) Mas emfim, se estás incommodada...

--Incommodada não é... mas... estas coisas tocam-me sempre os nervos...

--É a peior coisa que ha, é uma mulher nervosa...

--Sinto não sei o que, cá por dentro...

--Isso é agora... o que faria se...

--Sinto um peso...

--Mas em que sitio? (Áparte.) Se fosse na barriga...

--Por todo o corpo.

--Elle em alguma parte ha de ser... no peito, na cabeça, no ventre?

--É ao pé do ventre... não me sinto bem, parece-me que vou desmaiar...

--Louvado seja Deus! és muito delicada... sempre perdes as forças nestas occasiões!

--Estou como que penetrada por um raio...

--Então vamos para casa.

--Não, eu vou, fica tu.

--Vamos ambos para a cama.

--Vou-me deitar.

--Deixa-me ir comsigo?

--Eu não tenho medo, fique tomando o fresco...

--Mas eu queria-te ir aquecer.

--Eu aqueço bem sem o seu auxilio...

--Isso é birra... eu como marido tenho tambem os meus direitos...

--Mas eu estou doente... sinto agora um calor...

--É febre talvez...

--Por isso mesmo não se chegue para mim...

--Vou chamar o medico.

--Não é preciso. O que elle me receitava, é o que eu vou fazer... dormir um somno longe de meu marido... ámanha tem-me sã como um pero...

--Queira Deus!

--Isto passa em me deixando descançar.

--Então não queres que vá ao menos ajudar-te a despir?

--Nada, socego é o que eu preciso.

--Mas...

--É verdade não me disse hontem que, queria hoje observar o cometa?

--Fazia até tenção de t'o mostrar...

--Vel-o-hei em sonhos.

--Ámanhã será em realidade... não é assim meu amor?

--Eu faço ideia; é uma coisa muito comprida.

--Qual historia! verás que não é tão grande como julgas... e então visto pelo meu excellente telescopio! Has de ver-lhe toda a cabelleira...

--Como está tolo com o seu telescopio... tambem o primo Montenegro tem um que não é dos peores...

--Aposto que não tem a grossura do meu!

--Bom, por hoje basta...

--Paciencia, não ha remedio: vae-te deitar com Deus, já que não póde ser comigo... Se tiveres precisão de alguma coisa de noite, chama-me... bem sabes como sempre sou prompto em te prestar os meus serviços, seja a que hora da noite fôr...

--Prompto até de mais! ao menor movimento que faço, elle ahi está em cima de mim, a atenazar-me... Mas bem sabe o mal que me faz quando me acorda de noite; é ataque de nervos certo no dia seguinte, e fico mole, amarella, com olheiras...

--Bem, bem, vá descançada que lhe não interromperei o seu somno.

--Promette-m'o?

--Juro-o.

--Bonito! então boas noites.

--Nem um beijinho me dá!

--Dou, mas com a condição de cumprir o seu juramento.

--Qual.

--O de não entrar no meu quarto esta noite.

--Está dito.

--Então dê lá o beijo. (Dá-lhe a face a beijar, Carneiro beija-lh'a sofregamente, apertando-lhe ao mesmo tempo a cintura com avidez.)

--Jesus! que cintura tão elastica!

--Esteja quieto, não se adiante! o que me pediu foi um beijo...

Valha-te Deus, menina! Vae-te lançar nos braços de Morpheu, e pede-lhe uma boa dose de sumo de dormideiras.

--Adeus meu Carneirinho.

--Adeus minha Carneirinha... Olha, deita-te para o lado direito... não te ponhas de costas, bem sabes que te faz mal...

--Bem me lembro de hontem á noite...

--É verdade, quando gemeste tão significativamente, que eu julguei estarias com algum pesadelo...

--Ora! se eu parecia que estava esborrachada... nem respirar podia... estava a sonhar que o tinha em cima de mim...

--E gritava de tal maneira, que eu no quarto contiguo, ouvi e fui acudir... mas felizmente o nosso primo e hospede, Montenegro, já tinha chegado antes de mim...

--Que bom primo que é aquelle rapaz!

--Se o ceu nos désse um filho, estou certo que o estimava...

--Havia de amal-o como se fosse delle proprio...

--Ha-de ser o padrinho do nosso primeiro néné...

--Isso tem tempo... ainda eu...

--Louvado seja Deus! muito me tem custado a fazer o tal herdeiro...

--Agora tenho esperanças que brevemente...

--Sim? oh grande Deus! será possivel?

--Bom, deixe-me ir deitar...

--Vae filha, e dorme bem, eu vou ver se bispo o cometa.

E nisto, depois de acompanhar sua mulher á porta do quarto, voltou logo para o terrado, afim de melhor observar a passagem do astro cabelludo.

Madama Carneira entrou no quarto e ahi encontrou o primo Montenegro, que a esperava para lhe mostrar tambem o cometa com o seu telescopio...

Alguns mezes depois madama Carneira brindava seu marido com o esperado e desejado herdeiro, que tantas fadigas lhe custára...