Aberturas do túmulo e caixão da Rainha Santa
Por ser muito curiosa, damos neste lugar a noticia das vezes que tem sido aberto o túmulo e caixão da Rainha Santa.
A notícia descritiva dêsses actos tão solenes, extraímo-la da notável obra do Exmo. Sr. Dr. Antonio Ribeiro de Vasconcelos—D. Isabel de Aragão—, primoroso trabalho que S. Ex.ª publicou em 1894, e que é bem um autentico testemunho das suas altas qualidades de escritor erudito e consciencioso.
I.—Segunda feira, 26 de março de 1612.
II.—Quarta feira, 27 de outubro de 1677.
III.—Domingo, 11 de janeiro de 1695, na capela que provisoriamente serviu de Igreja em o novo Mosteiro.{23}
IV.—Segunda-feira, 2 de julho de 1696, ás 8 horas-da manhã.
V.—No mesmo dia, horas depois, nova abertura pelas freiras do convento, por estas não terem assistido como desejavam à primeira cerimónia.
VI.—No dia 4 do mesmo mês e ano foi novamente aberto o tumulo por se desconfiar que as freiras, num excesso do seu amor para com a Rainha Santa, se tivessem apropriado de algumas reliquias ou mesmo furtado o seu corpo ocultando-o em sítio só por elas conhecido.
VII.—Segunda feira, 9 de agosto, foi o tumulo aberto na presença de D. Pedro II.
VIII.—Domingo, 29 do mesmo mês e ano, na presença de D. Carlos, Arquiduque da Austria.
IX.—Domingo, 21 de outubro de 1832, na presença de D. Miguel e das Infantas D. Isabel Maria e D. Maria de Assunção.
X.—Domingo, 25 de abril de 1852, na presença de D. Maria II, de El-rei D. Fernando seu esposo, do Principe real D. Pedro e do Infante D. Luís.
XI.—Quinta feira, 17 de junho de 1852, para serem substituidas as vestes que amortalhavam a Rainha Santa por outras oferecidas por D. Maria II.
XII.—Quinta feira, 29 de novembro de 1860, na presença de D. Pedro V e de seus irmãos D. Luís e D. João.
XIII.—Quarta feira, 22 de outubro de 1862, na presença do Principe Humberto, depois Rei de Italia, que foi hospede da nossa Universidade.
XIV.—Quarta feira, 9 de dezembro de 1863, na presença de El-rei D. Luís e de sua esposa D. Maria Pia.
XV.—Quarta feira, 21 de junho de 1865, na presença de D. Isabel Cristina, Princesa Imperial do Brasil e de seu esposo o Conde de Eu.{24}
XVI.—Sabado, 4 de julho de 1868, na presença do Infante D. Augusto.
XVII.—Segunda feira, 4 de março de 1872, na presença de D. Pedro II, Imperador do Brasil.
XVIII.—Quarta feira, 14 de maio de 1875, na presença de El-rei D. Fernando, do Infante D. Augusto e da Condessa de Edla.
XIX.—Terça feira, 24 de dezembro de 1889, na presença dos Imperadores do Brasil.
XX.—Sabado, 25 de julho de 1892, na presença de El-rei D. Carlos, D. Amelia e do Principe D. Luís Filipe.
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Finalmente, no dia 28 de março de 1912 procedeu-se a nova e ultima abertura do ataude da Rainha Santa.
Como decorreu este acto di-lo uma das testemunhas que a ele assistiram e que fielmente fez reproduzir na Gazeta de Coimbra de 30 de março de 1912.
Como o número do jornal que publicou esta notícia foi rapidamente esgotado, embora a tiragem fosse muito aumentada, entendemos por bem reproduzir aqui o texto desse artigo:
«Noticiámos ha dias a trasladação do túmulo com o corpo da Rainha Santa Isabel, do côro de cima do extinto convento de Santa Clara, onde estava indevidamente desde Novembro de 1860. Foi na quarta feira, 28 deste mês e ano, que as freiras claristas, a pretexto de irem no dia seguinte o rei D. Pedro V com seus irmãos D. Luís e D. João àquele mosteiro beijar a mão da Santa Rainha, e mais comodamente o poderem fazer no côro do convento de que na tribuna do altar-mór,{25} trasladaram o caixão com o corpo, e não mais o deixaram voltar para o seu sítio.
«Entretanto é indiscutível que muito melhor se acha na bela tribuna, revestida de talha dourada, prepositadameníe feita para êle sobre o altar-mór, onde esteve exposto à veneração dos fieis durante 146 anos, desde a tarde de 5 de Julho de 1696, em que foi para ali transportado em soleníssima procissão pelos Bispos da Guarda, Lamego, Portalegre, Vizeu, Leiria e Miranda, sob a presidencia do Bispo-conde D. Fr. Alvaro de S. Boaventura, que oito dias antes, a 26 de Junho, havia sagrado a nova Igreja de Santa Clara.
«Hoje damos aos nossos prezados leitores uma outra noticia, ainda respeitante ao mesmo assunto.
«Espalhou-se, ha tempos em Coimbra, com bastante insistencia, o boato de que o túmulo da Rainha Santa havia sido violado; e embora se verificasse, quando ha dias se fez a trasladação, que os selos que o fechavam permaneciam intactos, é certo que recrudesceu depois disto o rumor de que o caixão transportado do côro para a Capela-mór se encontrava vazio. Em face de tal boato, tornava-se necessária a verificação, abrindo-se o túmulo com devidas formalidades, antes da aposição de novos selos.
«Foi êste acto que se realizou anteontem, quinta-feira, 28 do corrente, pelas 9 horas da manhã.
«Achavam-se presentes apenas os srs.: conego José Dias d'Andrade, representando o sr. Bispo Conde; Antonio Augusto Gonçalves, presidente da Camara Municipal e director do museu Machado de Castro; dr. Joaquim Mendes dos Remedios, reitor da Universidade; dr. Antonio José Gonçalves Guimarães, professor da faculdade de sciencias: dr. Antonio Garcia Ribeiro de Vasconcelos,{26} presidente da Confraria da Rainha Santa Isabel; Francisco José da Costa, tesoureiro da mesma; Antonio Viana, fiel do museu Machado de Castro.
«Principiou por ser presente um envólucro, devidamente lacrado e selado, no qual externamente se lia a declaração de que continha as chaves do caixão da Rainha Santa, que ali foram encerradas e seladas a 23 de julho de 1892, em seguida ao acto de ser fechado o tumulo, depois da visita que a ele fizeram naquele dia o rei, rainha e principe. Verificado que os sêlos estavam intactos, foi aberto o invólucro, e apareceram duas chaves, uma de prata e outra de ferro, ligadas por uma cadeia de prata.
«Depois abriu-se o túmulo de prata, e tirou-se dele o caixão de madeira, forrado de rico brocado de seda e ouro, e com quatro belas fechaduras. Todos verificaram cuidadosamente que não acusava sinal algum de arrombamento; e em seguida, abertas as fechaduras e retirada a tampa, apareceu uma ostentosa colcha de brocado, igual ao que veste por dentro e por fora o caixão, sendo guarnecida de galão de ouro, e forrada de seda carmezim. Levantada esta cobertura, apareceu outra perfeitamente igual à primeira, e por baixo dela um veu transparente, através do qual se via nitidamente a mão da Santa Padroeira, e o habito de seda cinzenta que vestia o corpo. Cobrindo-lhe a cabeça havia um veu espesso de seda branca, sobre outro de fino linho, que lhe desciam até ao peito.
«Levantaram-se sucessivamente todos estes véus, e observou-se minuciosamente a mão direita, o rosto e os dois pés, que estão descalsos e em perfeito estado de conservação. Não se levou mais longe o exame, por ser desnecessario.{27}
«A mão da santa e virtuosíssima Esposa de D. Dinís foi beijada com piedoso fervor por aqueles dos presentes que tiveram essa devoção.
«Terminado o acto de verificação foi fechado o caixão e encerrado no tumulo de prata, com aposição de seis sêlos. Depois selaram-se novamente as chaves, e lavrou-se o respectivo auto.
«E assim ficou perfeitamente demonstrada a absoluta falsidade dos boatos que correram, e a que muita gente parecia dar crédito.»